Letras do Alfabeto do Mr Edwards’ Crap Book.

1 Nov

Mr Edwards estudava na St Martins’s School of Art (um abraço para o Pedro Almeida) e no Royal College of Art quando começou a coleccionar imagens e a fazer scrapbooks. Trabalhou com Terry Jones e Stephan Male, e alimentou a sua paixão pela impressão de velha tecnologia, provas de impressão com separações erradas e cores ausentes.

Mais tarde usou as embalagens de fruta que recolhia, justapôs-lhes frases tiradas de contexto e começou a produzir colagens que resultavam em poemas visuais um pouco aleatórios e ready made, à maneira do Dadaismo.

3952628621_904a34ea84

Esta entrada chama-se “I” is for Ireland e foi roubada descaradamente da revista Eye.

Anúncios

A carreira de um corrupto

31 Out

Começou por se inscrever num partido (no PS ou no PSD, evidentemente). Ou tinha influência, própria ou da família, ou conseguiu arranjar um “protector” (um empresário, um advogado, alguém com prestígio ou com dinheiro) para se promover a presidente da concelhia ou a qualquer cargo de importância. Daí passou para a administração central, para a Câmara do sítio ou, com muita sorte, para uma empresa pública. Com o tempo chegou a uma situação em que podia “pagar” os “favores” que até ali recebera e fazer novos “favores”, em que já participava como sócio. Entretanto conhecia mais gente e alargava pouco a pouco os seus “negócios”. Se punha o pé fora da legalidade, punha com cuidado, bem protegido por amigos de confiança e pretextos plausíveis.

Um dia, por fidelidade ao chefe, “trabalho” no partido (financiamento directo ou indirecto) e recomendação de interesses “nacionais”, foi chamado ao governo: a secretário de Estado, normalmente. No governo, proibiu ou permitiu conforme lhe convinha ou lhe mandavam e convenceu outro secretário de Estado ou mesmo um ministro mais “versado” ou “ingénuo” a colaborar na sua “obra”. Torcendo uma regra aqui, explorando uma ambiguidade ali, a sua reputação cresceu. Não precisava agora de se mexer. Era, como se diz no calão da tribo, um “facilitador”. A iniciativa privada gostava dele, o “sector público” gostava dele, o alto funcionalismo (a quem, de quando em quando, dava uma gorjeta) gostava dele. Ninguém lhe tocava. O corrupto ascendia à respeitabilidade. E anda, por aí, no meio de nós.

Vasco Pulido Valente no Público

A corrupção é um imposto e é o mais alto de todos. Não é preciso ir a Angola, basta olhar à nossa volta.

Pobreza no Porto – Desemprego (IV)

31 Out

Os números são péssimos mas podiam ser bons e continuariam a dizer sempre pouco sobre a realidade. Um licenciado que nunca tenha logrado conseguir um emprego não é, tecnicamente, desempregado ainda que esteja à procura de emprego há vários anos. No “abstracto” pode ter-se uma economia “boa”, financeiramente sã, que esconde uma situação muito má. A ligação entre as decisões estruturais que definem o modelo em que assenta a economia, e a vida concreta das pessoas, perdeu-se há muito. As pessoas que decidem a um nível macro estão mais preocupadas em controlar o efeito mediático das políticas que nas suas consequências concretas. Nada se passa ao nível da realidade material visível até ouvirmos em discurso directo ou conhecermos por proximidade uma pessoa que esteja nesse lugar. O mundo que conhecemos está a desintegrar-se, e isso não é uma questão de adequação à mudança. Se ainda for verdade que o maior capital de que dispomos são as pessoas, é visível que andamos a desperdiçar recursos valiosos que poderiam permitir-nos fazer muito mais do aquilo que é feito. É uma questão de valores e de paradigma.

Vale a pena ouvir uma pessoa que quer trabalhar e fazê-lo com dignidade. Soube que, após este documentário, este homem conseguiu trabalho e o seu contributo e atitude são apreciados.

Ilustração de Spencer Wilson

30 Out

spencer1
spencer2spencer3spencer4

O inglês Spencer Tracy é co-fundador da Peepshow Collective Ltd e o seu trabalho que aparece frequentemente no Guardian ou em edições da Penguin e da Random House, caracteriza-se pela limpeza do seu desenho vectorial e pelo equilíbrio das imagens colocadas sobre fundos de cores cheias.
É pai de duas meninas que, de acordo com as suas declarações, nunca cessam de inspirar o seu notável trabalho editorial.

Saber mais sobre Spencer Wilson

Pobreza no Porto – Abaixo de cão (III)

30 Out

Estes bairros são guettos que se reconstituem permanentemente e apresentam sinais claros de deliquescência das instâncias tradicionais de controlo social. Não está lá nem a família – as pessoas vivem frequentemente sós ou em famílias que implodiram há muito, nem a igreja e o seu habitual enquadramento de preocupação social, conforto espiritual e ritualização, nem a escola e o futuro a si associado, nem qualquer outra forma de organização e associação.

Voltou a crescer o número de analfabetos, a violência entre os jovens e o número de membros de gangs. Disparou a criminalidade a um ponto que fugiu completamente do controlo. Já “ninguém lá vai”. Retrocederam todos os parâmetros de qualidade de vida, a começar pelo acesso à saúde. As pessoas, sobretudo os idosos, não têm, nestas condições, vidas viáveis.

Isto existe, é assim, e toda a lógica dos bairros está errada e é perigosa. Podemos dar a esta situação a visibilidade que merece e debater com seriedade soluções que congreguem autarquias, empresas e técnicos em projectos reais que incidam mais do que na reconstituição daqueles edifícios, nas relações e na dignidade, com uma lógica social e de urbanismo continuadas.

Uma vez que parece começar a ser evidente que o capitalismo não foi o fim da história, a existir um sentido para ela, ele passará necessariamente pela nossa disponibilidade para enfrentar o intolerável, tentar inverter a tendência do curso dos acontecimentos e “ganhar tempo” contra o mal e a dor dos homens. Podemos começar por acreditar que é uma questão de reabilitar a nossa inteligência sob a forma mais nobre, a da ética, e pô-la a funcionar.

Empresas inteligentes

29 Out

Levis

A BBDO desenvolveu um projecto de marketing social para a Levi’s que, em associação com a ONG Goodwill, promove a reutilização e doação da roupa usada. As etiquetas da marca passam, a partir de Janeiro, a incluir nas instruções de lavagem uma recomendação no sentido de doar as roupas para a caridade quando a pessoa já não as quer.

Só nos EUA, os aterros recebem anualmente 23,8 toneladas de roupa usada. A campanha pode ser visitada no site da Levi’s.

Pobreza no Porto (II) – Sonhos? Não tenho assim muitos…

29 Out

A alienação integra a distância no próprio tecido social do nosso quotidiano e, mesmo vivendo ao lado dos outros, o nosso “estado normal” é ignorá-los. Não nos permitimos sequer aproximar demasiado, para poder continuar a circular no espaço em que interagimos com eles, na obediência das normas que interiorizamos e se traduzem numa anestesia, numa doença de fundo, o ar rarefeito que respiramos à medida que a nossa consciência ética se reduz.

Sei que a miséria começa aqui no meu quintal, mas não quero saber o que sei, e por isso não sei. Sei, mas recuso-me a assumir inteiramente as consequências desse saber, pelo que posso continuar a agir como se não soubesse, fazendo parte do processo de normalização crescente da injustiça. Sei que é urgente surgir um projecto utópico portador de sentido, embora provável seja a eclosão de uma violenta explosão do ressentimento social sem destinatário ou objectivos precisos, como aquela a que assistimos em Marselha.

É porque estou farto de saber que estou a viver, nas palavras de Badiou, “num tempo sem mundo”, que a única coisa realista a fazer é olhar isto de frente e denunciar as causas, e a única utópica é continuar a ignorar o que se passa como se isto pudesse ou devesse durar para sempre e não fosse minha obrigação chamar a atenção e tentar criar condições de indignação que o tornem inaceitável.

Pobreza no Porto (I) – Nada de nada

28 Out

De acordo com um estudo publicado na edição de hoje do Público, “pelo menos 40 mil idosos portugueses não têm capacidade financeira para comprar alimentos”.
Não sei se, como diz este senhor, “Deus não dorme”. A palavra mais vezes pronunciada nesta série de documentários, é a palavra “vergonha”. A questão é saber quem deveria carregá-la, se eles, se nós que olhamos para o lado. Em que momento perdemos a noção de que isto é totalmente inaceitável, 23 anos depois de termos integrado a união europeia?

Realização de Pedro Neves para o Jornal Expresso

Bach de rua

27 Out

David McGee, o homem que se levanta todos os sábados, às 5 da manhã, para trazer de bicicleta o seu violoncelo e com ele encher o mercado de Minneapolis oferece, praticamente sob a forma de um poema, uma história inspiradora do compromisso de mais de 10 anos para com os outros e para com aquilo que mais gosta de fazer.

Não consigo deixar de associar esta peça de Bach à ponte do Rialto, num fim de tarde, em Veneza. Deu-se o caso de a ouvir ontem ser interpretada por uma rapariga muito jovem que parecia vinda de outro século. Tocava de tal forma compenetrada que lhe era praticamente indiferente se as pessoas deixavam ou não cair uma moeda, ou tão pouco se detinham, na rua, a ouvi-la.

Todos, de uma forma ou de outra, somos tocados pela música e é diferente, extraordinariamente diferente, a memória que temos de um sítio e da sua atmosfera se alguém tem a generosidade de lhe somar a música.


Prelúdio da Premiere Suite 1007 para Violoncelo

Portugal no mapa por boas razões

27 Out

internet

Portugal tem uma velocidade média de acesso que nos coloca entre os melhores do mundo, à frente de países como os EUA, o Canadá e a Alemanha. Tem ainda uma taxa de penetração média-baixa e um dos preços médios mais elevados.

É um bom sinal a nossa posição neste ranking e só surpreende quem nunca tiver reparado que na mesma área das tecnologias, a nossa rede multibanco, ou o sistema de registo e pagamento nas autoestradas, estiveram sempre um pouco à frente de praticamente toda a Europa.

Um contributo para a correcção da taxa de penetração, seria a descida dos preços para níveis mais aceitáveis e o investimento em zonas wi-fi nos espaços públicos geridos pelas autarquias, com um custo baixíssimo e um enorme retorno.

Recortes de realidade

26 Out

Trabalhos de Nikki McClure

Nick Griffin – o autóctone caucasiano

25 Out

1256489174

22% dos britânicos “considera seriamente” votar no British National Party, neo-nazi.

Embora captando apenas um instantâneo no tempo, a sondagem revela que este partido “de brancos” teve o timing (o descrédito das despesas dos políticos ingleses) e o empurrão de que necessitava através de um programa de grande audiência que, à semelhança do que aconteceu com Le Pen em 1984, lhe deu a exposição e a aura “outsider” que lhe permitirá passar de partido marginal a “um partido como os outros”.

Griffin usa a lógica do discurso pelo qual respondem os neo-liberais, mas sem o poderem assumir, e leva-o às últimas consequências. Ao tornar explícita a lógica da raça, um suplemento obsceno do neo-liberalismo, transfere o antagonismo social e de classe para a esfera da “identidade”, explora o ressentimento existente em consequência da perda sucessiva de humanidade e capacidade de inclusão do capitalismo.

Muito do apelo deste tipo de discurso percecpcionado como corajoso, assenta no reconhecimento da legitimidade do descontentamento que, ao exprimr-se de forma aparentemente exterior ao sistema, confronta o discurso oficial que trata o racismo como uma espécie de falha moral ou educacional, evitando cuidadosamente as causas reais que, uma vez expostas, levariam ao seu colapso.

A extrema-direita não faz mais do que ocupar o espaço deixado vago pelo mal-estar que a deterioração do tecido social, a precaridade do trabalho e a sua cada vez mais baixa remuneração e estabilidade, a destruição do tecido produtivo e do “welfare”, vão criando. Tudo isto tem sido suportado por um discreto consenso liberal em torno da sua inevitabilidade e é despejado incessantemente pelos media como condição de competitividade da velha Europa em confronto com a Ásia, aparecendo às pessoas como o mundo possível, um mundo sem referenciais e sem solução.

É perigoso esquecer que é ao nível da narrativa, não do argumento, que a extrema-direita pode ser travada – é aí que o social e a política são interiorizados e se ganha ou perde a batalha no coração e nas mentes das pessoas. É fornecendo uma nova narrativa e, eventualmente, um novo agente político que enquadre este ressentimento, que se pode quebrar o actual estado de desorientação, impotência e desinteresse. A direita não pode fazê-lo e, pelos vistos, a esquerda não sabe.

Coisas destas, costumam chegar a Portugal como ondas de choque e apenas esperam uma oportunidade para fazerem a sua aparição. O terreno social e político está a ser fertilizado todos os dias.

O grande-escritor, visto de frente

22 Out

“Meu caro amigo” composta por Francis Hime para Chico Buarque, aqui num inspirado arranjo de Eduardo Jordão

A verdadeira dificuldade na vida de um grande escritor surge apenas quando age como homem de negócios na vida intelectual, mas, por tradição, de forma idealista;
(…)
O homem de negócios ambicioso encontra-se hoje numa situação difícil. Se quiser estar à altura das antigas forças do ser, tem de articular a sua actividade com grandes ideias. Acontece que hoje já não existem grandes ideias em que se acredite sem contradições, pois este nosso presente céptico não acredita, nem em Deus, nem na humanidade, nem em coroas nem na moralidade – ou então acredita em tudo isso ao mesmo tempo, o que vem dar ao mesmo. Assim sendo, o homem de negócios, que não está disposto a abdicar de grandes ideias que lhe sirvam de bússola, teve de recorrer à estratégia democrática de substituir o incomensurável efeito da grandeza pela grandeza mensurável dos efeitos.

“O Homem sem Qualidades” de Robert Musil

Vídeo via A Barriga de um Arquitecto

O homem é a medida de todas as coisas *

21 Out

A expressão “tempo é dinheiro” tornou-se aceitável, mas na verdade não o é.
A obsessão pelo tempo enche-nos o dia no acto de contar, medir, pesar e reduzir valores não quantificáveis a outros que o sejam. Tudo o que parece calculável, rigoroso ou científico, de facto raramente o é, mas repercute-se num progressivo abandono do humano, limita a vida em largura e empobrece algo que, por natureza, não é renovável.

Sem compreendermos e defendermos que a vida própria é, em si, uma ocupação, uma tarefa que ninguém pode fazer por nós, não logramos sequer alcançar a liberdade de a viver, bem ou mal.

* Protágoras

O mau costume de se falar do que não se entende

20 Out

Uma religião é como a língua em que nascemos. Estamos nela, queiramos ou não, em casa. O primeiro passo para interpretar a Bíblia, passa portanto por reconhecer que o carácter historicamente limitado da nossa situação nos coloca na posição de não existir maneira de falar que esteja fora da nossa língua natural. Disso mesmo é testemunho a triste frase de Saramago, “a Bíblia é um manual de maus costumes e um catálogo do pior da natureza humana”, através da qual não consegue escapar ao referencial Judaico-Cristão. Vale a pena determo-nos nesta afirmação pela gravíssima ignorância, desonestidade intelectual e arrogância em que persiste.

À época de Moisés existiam 2000 anos de especulações e meditações sobre códigos e tradições milenares que se manifestam, por exemplo, nas grandes diferenças entre a teologia da Lei de Moisés e a da benção e da promessa de Abraão. Partindo da súmula do conhecimento antigo dos Egípcios e dos Sumérios, textos como os Provérbios, os Salmos, o Eclesiastes e Job, são percorridos por uma forte tensão entre a cultura judaica, a persa e a helenística, podendo e devendo ser lidos em contraponto com os escritos de Homero, Hesíodo e os pré-socráticos.

É à luz dessa narrativa histórica, necessariamente violenta, que o povo judaico se compreende a si mesmo. Mas, muito para além disso, a Bíblia é um livro plural e complexo onde, por mais estranho que possa soar a muita gente, e Saramago escamoteia este facto, podemos visitar a expressão amorosa e erótica na corte de Salomão, no Cântico dos Cânticos, coisa que descobri com Herberto Hélder na “Poesia Toda”, bem antes de me interessar pela matéria agora em questão. Da mesma forma, num livro como o de Job, não nos sentimos longe de Melville (o Leviatã como Moby Dick). Para o realizar, esta extraordinária compilação de textos usa o que tinha à sua disposição para se explanar num registo de sabedoria largamente dissimulado sob uma narrativa que, como em quase todas as obras clássicas, nos diz apenas algo que destapa sucessivos níveis interpretativos, inesgotáveis de significados.

A Biblia não celebra de facto um Deus compassivo, até porque muitas das suas histórias são experiências mitigadas. O Livro de Job, onde não mora qualquer conforto, e que lido na sua justa dimensão se revela como uma forma de aquisição da consciência de si próprio, um homem com a casa em ruínas, os filhos assassinados e o corpo coberto de chagas, ouve da mulher a pergunta “Persistes ainda na tua integridade? Amaldiçoa Deus e morre”. Neste, como em outros extraordinários pedaços de literatura, mora a história de um Deus ausente, na mesma medida em que não possuímos uma linguagem para falar com Ele e nos ausentamos Dele ou, se se quiser, de nós próprios. Dito de outra forma, Saramago ignora o facto de a “fera” morar no próprio poema, grande demais para ele porque, do cimo de uma confrangedora ingratidão e leviandade, leva para esta leitura a reduzida bagagem de que dispõe e ostenta, realizando-a de modo idêntico ao das pessoas que regularmente me batem à porta para me “falarem” da Bíblia.

É na qualidade de agnóstico que me pronuncio sabendo, apesar de tudo, que a consciência moral nos fala de mais longe do que nós e que isso constitui a nossa definição civilizacional. É relevante dizê-lo porque, tendo pensado, durante anos, ser tão clara a natureza cruel do Deus do Antigo Testamento, quanto a sua oposição ao Deus a que Jesus se referia como Pai, acredito hoje podermos estar gratos à Igreja por ter rejeitado a proposta de Marcião de Sinope, para quem a novidade do cristianismo seria tal, que podia dispensar o seu suporte prévio, rejeitando o Antigo Testamento.

Simplificando a coisa ao nível de Saramago, temos então para acabar que, não sendo a Bíblia apenas o legado do Cristianismo, um Cristão acredita, um Judeu confia e um Muçulmano obedece. Saramago não virá, certamente, a pousar os olhos no Talmude, trabalho sério a partir do qual poderia aceder à compreensão de que existem, ao longo da história, inúmeros processos cumulativos de interpretação e questionamento da Bíblia. Resta perguntar se decidirá algum dia atalhar desta forma no trabalho interpretativo do normativo do Corão, ou se irá continuar na via rentável e segura, contrariando as quedas de vendas e escondendo-se daquilo que pretensamente o revolta.

PS! Recomenda-se a leitura do comentário de Richard Zimler a este respeito

Bottom of the River

19 Out

por trunk animation

Sentado num cadeirão, emigrante de si mesmo

18 Out

Um português de 62 anos, morreu, há dois anos, em sua casa, nos arredores de Paris. Só na passada segunda-feira foi encontrado. Mesmo sabendo incorrer num raciocínio perigoso, não me abandona a imagem da pele que, sob o desgosto e a dor, encolhe e mumifica como a deste homem. Creio que estes casos deixarão de ser notícia à medida que se tornarem cada vez mais frequentes.

A imprensa francesa referiu-se, a este propósito, à grande solidão das sociedades modernas. A portuguesa, ouviu uma das filhas que não encontra explicações “para uma situação destas” e se pergunta como é possível nos tempos de hoje, ninguém se ter apercebido. A mesma indignação mostrou a sobrinha à porta da casa que José construiu e, no momento em que leio este parágrafo, penso se este emigrante terá sonhado instalar-se por França e apenas construir aqui a casa que testemunhasse perante os seus, o esforço de uma vida, sabendo intimamente que nunca regressaria.

Desconheço e não são para aqui chamadas as suas circunstâncias pessoais e familiares mas, ao contrário da filha e da sobrinha, sei que nunca foi tão possível, como nos dias de hoje, uma coisa destas acontecer. Seja porque razão for, a família próxima, filhos, irmãos e ex-mulher, estiveram ausentes do processo tendo, ao longo destes dois anos, vivido apenas “a sua vida” sem dar seguimento a questões que despoletassem as diligências necessárias a saber o que se passava.

A figura de um pai, no seu esforço como modelo de vida e instância moral, costumava viver pela passagem do testemunho. Havia até, em certas sociedades, um mito segundo o qual, quando um pai morria o filho recebia uma marca da sua mão, passando-lhe desta forma e num último acto de interiorização, a autoridade.

Apáticos, precocemente cansados da vida, limitados à busca do conforto e da segurança, vai-se afastando das nossas vidas a possibilidade de ligações, sejam de que natureza for. Chegamos aparentemente a um ponto em que são maiores os riscos para aqueles em quem vive a memória, seres incómodos que atraem a si a censura dos que vivem para se esquecerem, uma estranha opção.

Talvez não possamos saber o que se quebrou para se instalar esta “solidão total”, mas fica a questão de saber em que consiste isto de viver como nos compete.

Anúncio da Mercedes (retirado)

16 Out

De como nem sempre mudar o tom de voz, permite colocar melhor a questão.

Digam agora que não há escutas

15 Out

escutas em Belém

Via Hélder Robalo

É oficial, as provas são incontornáveis. Houve mesmo. Quando já tudo levava a crer que, com tanta asneira junta, ninguém escutava Belém, dá-se o volte-de-face. A avaliar pelo aspecto, alguns são bem antigos e até revelam o bom senso de vestir umas calças, tornando a publicação perfeitamente aceitável, uma vez que não ofende os espíritos sensíveis daqueles a quem sempre fez confusão ver homens crescidos de calções. Estes não são uns escutas quaisquer. São os escutas na presidência.

PS! Neste novo desenvolvimento houve várias troca de mails, tudo feito às claras.

Second Wind

15 Out

de Ian Worrel