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O sistema financeiro visto pelo Barclays

11 Out

O Barclays nunca deixará de ser aquele banco que deu nome a uma cor para uns azul, para outros verde, mas sempre “barclays”. Pois bem, é, preto-no-branco, sobre um falso cenário que se debruça este anúncio brilhante, fornecendo uma das melhores, mais sugestivas e sinceras imagens do sistema financeiro, que já se criou. Pena é que as pessoas não acreditem que esta é a realidade e o resto, a ficção.

A avaliar pelas valorizações bolsistas a que, ainda esta semana, Joseph Stiglitz chama “exuberantemente irracionais”, isso não está para breve. As pessoas comuns parecem imaginar que regressamos à normalidade, os especuladores que a ficção é para sempre. A consequência vísivel é o facto de a confiança não se ter quebrado e as pessoas não terem corrido a levantar as economias a bancos que não as poderiam reembolsar mas, sem qualquer pedagogia visível, qualquer relação do sistema financeiro com a economia é, mais do que nunca, mera coincidência. Uma regra básica afirma que, um dia, o mercado corrige estas valorizações de 30%.

Mas este é um sistema autista, incorrigível e não reformável.

Uma mulher a sério na capa da Playboy

9 Out

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Mãe de três filhos irrequietos e interessantes, esposa paciente e meiga, a inteligente dona de casa por quem parecem não passar os anos é o verdadeiro cimento e pilar da família, um sítio onde, em última análise, as questões imersas na cultura americana profunda e até na nossa, se manifestam e vão resolvendo. Marge Simpson que exibe uma notável consistência ao longo dos anos, aceitou agora ser capa da Playboy. Desconhecem-se as reacções da família, em especial a de Homer Simpson, mas é de admitir que tenha sido encorajada pelos filhos.

A revista não deixa de ser o que sempre foi e nesta edição de Novembro, Marge, num volte-face inesperado na sua carreira, expõe em três páginas a sua intimidade e consta que pousa num nú integral, mas sem abdicar do seu famoso penteado. Não deixa de ser curiosa a diferença de nível das edições de cada um dos lados do Atlântico, uma vez que, com o correr dos anos, as entrevistas e artigos da revista são mais interessantes que o lixo que costuma ver-se nos escaparates das tabacarias do país.

Finalmente a revista escolhe uma mulher a sério, em contraste com as capas da edição portuguesa cada vez mais mal frequentadas.

Desactivar o Facebook

1 Out

Uma das definições de sabedoria que mais me agrada, é a de conseguir “participar de” ou atingir uma espécie de quietude em si mesmo. Um tipo de quietude eventualmente emanada de Deus, mas em todo o caso auto-referencial. Uma quietude qualificada como uma vida, em oposição à formulação de Santo Agostinho de uma vida condenada à inquietude: “in experimentis volvimur”, de prova em prova.

“Todo o Ser no conjunto do mundo é um Tempo separado num contínuo. E dado que o Ser é Tempo, eu sou o meu Ser-Tempo”

A ideia, expressa nesta citação de Eihei Dogen, no séc. XII, postulava que a substância e o eu são postos em causa pelo movimento, mas não podia antecipar que, nove séculos mais tarde, num tempo em que era suposto não sentirmos a angústia do aborrecimento ela se amplia todos os dias através da circulação da informação.
Sem sequer nos apercebermos, está em marcha um mecanismo que torna cada vez mais impraticável a quietude e o desfrute, indistinguível a amizade de um mero contacto. Parece não existir qualquer possibilidade de nos escondermos do movimento e não resta nenhuma circunstância que o detenha no seu acto de transformar tudo na sua aparência, reduzindo a pessoa ao “avatar” que desfila numa cada vez mais longa lista.
Quando a velha fómula de Heidegger de “estar-no-mundo” como “estar-na-complexidade” se amplia até o “estar-no-caos” ou pior, até este insubstancial movimento hipnótico colectivo através do qual confirmamos o pedido de amizade de alguém, reduz-se o significado e pouco nos restitui o exercício de prestar atenção ou pensar. Com amigos verdadeiros no mundo real, só temos de escolher o que fazemos com o nosso “Ser-Tempo” e “desactivarmo-nos”, salvaguardando, na medida do possível, o nosso espaço privado no mundo “off-line”. Foi o que fiz hoje.