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Pobreza no Porto – Solidão e velhice (VI)

3 Nov

A gente começa a pensar na vida antiga. Depois lembra-se e começa a dizer assim – quem eu era e quem eu sou. Eu não sou ninguém.

Em que ficamos?

3 Out

logo bloco

Ana Cristina Ribeiro, a única autarca do Bloco de Esquerda, afirma no Público não saber “se o Bloco de Esquerda será contra as corridas de touros mas pelo menos não é apoiante das corridas de touros. Penso que isto em nada impede de que o bloco de esquerda tenha um concelho que é Salvaterra de Magos e que a sua presidente seja uma aficcionada.”

A tourada horroriza-me, mas não é apenas isso que dá sentido a este post.

O Bloco de Esquerda acaba de eleger 16 deputados com base num programa e num conjunto de compromissos com o eleitorado. A pág. 75 do programa, diz o seguinte:

PROMOÇÃO DO RESPEITO PELOS ANIMAIS
“A alteração dos padrões de comportamento em relação a outras espécies animais é dos factores mais importantes de modernização necessária. A responsabilização dos seres humanos pelas suas relações com outras espécies animais não pode ser nem antropocêntrica (considerando apenas interesses de forma parcial e especista), nem fetichista pelo sofrimento dos animais (chegando a ignorar a exploração dos próprios humanos).
(…)
Da parte do governo só existe indiferença pelo tema. Tem protelado a prometida lei de protecção dos animais que puna actos de violência injustificada. (…) De resto tem havido total inoperância e cumplicidade na manutenção das terríveis condições em que animais são usados e abusados todos os dias.
(…)
ANIMAIS NO ENTRETENIMENTO
“Apoiar a requalificação de praças de touros fixas com pouca ou nenhuma utilização em espaços culturais. Fim de rodeos, de touradas de morte ou à vara.”

Ao contrário do que deduz Ana Cristina Ribeiro, há pelo menos uma coisa que devia impedir o Bloco de Esquerda de a apoiar: o compromisso que assumiu com os eleitores que nele votaram. Este tema já chateia, mas como passei a campanha a ouvir falar nas centenas de milhares de pessoas que fizeram download do programa do bloco, é chegado o tempo de perceber se alguém o leu, ou se alguma coisa que lá está é para levar a sério.
Mau começo de um partido para o qual não devia ser assim tão importante manter um autarca em detrimento dos princípios que anuncia e que, pelos vistos, não aprendeu nada com o percurso de Sá Fernandes em Lisboa.
Para manter as tradições, já tinhamos os partidos que habitualmente nos governam e se esquecem rapidamente do que prometem.

PS! Posteriormente à publicação deste post, tomei conhecimento de que Ana Cristina Ribeiro foi constituída arguida num processo em que é acusada de peculato, desaparecimento de contas e livros de actas, saque de cheques, corrupção em concursos e conspiração para afastamento de adversários políticos. Com esta curiosa concepção ética, fico a tentar descobrir as diferenças desta situação relativamente às de Valentim Loureiro, Isaltino Morais ou Fátima Felgueiras, os chamados “candidatos-bandido”, mas compreendi melhor o gosto da candidata do bloco por touradas.

A importância de se chamar Stefan

2 Out

Conferência TED com Stefan Sagmeister. Jul 2009.

Stefan Sagmeister encerra a cada 7 anos o seu estúdio de Nova Iorque para um ano sabático. De acordo com a apresentação, retirou 5 anos ao momento da reforma e tenciona utilizá-los em 5 momentos da sua vida profissional, pensando e rejuvenescendo o seu trabalho. Nem todos podemos fazê-lo, mas merece crédito o argumento de que este período off se reflecte em mais qualidade e logo em trabalhos mais bem pagos, compensando a prazo.

Embora convencido das virtualidades e aplicações potencialmente inesgotáveis da solução de Sagmeister, interessantíssima do ponto de vista teórico, inicialmente achei o projecto de comunicação da Casa da Música de díficil sustentação ao longo do tempo, fosse pela exigência da interpretação criativa por parte dos designers locais, fosse sobretudo pelas limitações da fonte “SIMPLE”, desenvolvida para a identidade e sinalética do aeroporto de Bona, onde efectivamente é adequada. O excelente trabalho da equipa que faz a execução local das peças gráficas, dissipou muitas das dúvidas do momento inicial, ultrapassou as expectativas, mas não gorou dar mais durabilidade à fonte escolhida.

O case study da Casa da Música, nomeadamente no que respeita ao software que aplica as cores dos temas ao logo, constitui o elemento mais interessante e convincente da conferência. Isto se ignorarmos as vicissitudes do processo de escolha do designer e não quisermos reabrir a questão do diletantismo de, em apenas 4 anos, se mudar 3 vezes o logotipo de uma instituição. Mas disso, o Sagmeister não tem culpa nenhuma.

Boliqueimo-me

29 Set

Com a sugestiva declaração que proferiu, o Presidente da República confirmou-se como um homem original. Fez exactamente o que ninguém esperaria que fizesse: criou instabilidade e afectou de modo imprevisível aquilo de que seria supostamente o garante: a normalidade democrática.

É uma ilustração do princípio de Peter aplicado à presidência, agravar a suspeição em vez de a encerrar, relançar insinuações em vez de esclarecer factos, abrir um conflito institucional com o partido que deverá convidar a formar governo dois dias depois de o ver legitimado pelas eleições, escolher este momento de nova campanha eleitoral. “The last but not the least”, o uso de uma terminologia próxima daquela a que nos habituaram os dirigentes desportivos, faz pensar que, se o estilo é o homem, Cavaco Silva revela uma mentalidade, uma instabilidade, uma falta de nível e de cultura política preocupantes.

Deveria ser desnecessário relembrar ao Sr. Presidente que não estamos em regime de desabafo entre amigos, e altamente improvável ouvi-lo declarar que foi “forçado a fazer algo que não costumo fazer: partilhar convosco, em público, a interpretação que fiz”. Mas perdido no meio de frases como “desafio qualquer um”, “manipulação para desviar as atenções”, “não revelo a leitura pessoal que faço de declarações de políticos, mas fui forçado a abrir uma excepção”, Cavaco Silva revelou-se incapaz de compreender o dever de reserva da função e inábil no uso da linguagem que lhe é própria.

A Presidência da República a que Cavaco Silva chama unipessoal, não tem, como órgão de estado, leituras pessoais. Se as tem, pode recorrer a Maria Cavaco Silva, mas aquilo que se espera do presidente é que as guarde, não que as “partilhe” com o país, é que consiga ver onde reside o problema de “um cidadão, membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas”, sabendo que essas pessoas ocupam outros orgãos de estado, é que não faça alastrar cândidamente dúvidas sobre a vulnerabilidade do sistema informático perguntando se “será possível alguém do exterior entrar no meu computador e conhecer os meus e-mails? “. É, Sr. Presidente. A sua declaração constitui um convite a que o façam.

Cavaco Silva acentuou ter sido “forçado” a tomar esta atitude, embora todo o tempo que deixou decorrer sobre esta crise não tenha sido suficiente para reflectir na melhor forma de a gerir, no significado da função de que está investido e no timing e efeitos desta intervenção. Acabou por conseguir reunir uma estranha condenação unânime de todos os partidos, pelas piores razões, no pior momento, deixando uma atmosfera de intranquilidade e uma enorme interrogação sobre o futuro próximo, criando ele próprio um “facto político” que, ninguém duvida, alterará a agenda e desviará as atenções daquilo que devia estar em debate nas autárquicas.

Não deixa de ser curioso, no que aos partidos diz respeito, que tenha sido na oposição, toda ela, que mais morou o sentido de estado, enquanto o partido do governo, por sua vez nivelado pela declaração do presidente, despejou gasolina no incêndio. Seria pedir muito, presumir educação e responsabilidade por parte das pessoas que colocamos à frente dos destinos do país?

Cavaquinho

26 Set

Cavaco Silva antecipou-se e desrespeitando o acordo com o Vaticano e o compromisso assumido com o Patriarcado, anunciou a presença do papa em Fátima a 13 de Maio. O Cardeal Patriarca, após revelar que tinha conhecimento da visita desde a passada 2ª Feira, afirmou à SIC que ainda era do tempo em que os segredos eram para se guardar.
O anúncio da visita Papal interfere no processo eleitoral, mostra um presidente em bicos dos pés, incapaz de adoptar uma postura sóbria em matérias de estado, com um “timing” desastroso e uma grande deselegância em termos diplomáticos. O presidente regressou de férias mas esqueceu-se algures do sentido de estado. Começa a ser preocupante vê-lo permitir ou alimentar notícias que ninguém assume, criar silêncios ensurdecedores e depois falar quando não deve, desrespeitando os acordos que assumiu.

Para entender a “lavoura”

8 Set

As Chiquitas com o seu autocolante, são grandes, amarelas, não têm nódoas negras ou outros sinais de violência doméstica mas dificilmente poderiam ser parentes, mesmo que afastadas, das bananas da Madeira. É uma questão de gosto. Uma peça de fruta comida a partir de uma árvore sabe a fruta. Uma laranja comprada num supermercado tem o tamanho e a côr certos, tem até uma etiqueta e se calhar um molde de cartão prensado que a acomoda, mas sabe sobretudo a água e provêm por exemplo da Andaluzia, onde imensos lençois de plástico escondem “pomares” regados com água do Tejo e do Douro que percorre centenas de Kms em envazes para regar aquele solo.

Os frutos, no nosso clima ou noutro qualquer, têm uma época, mas os supermercados preferem contrariar a natureza a aborrecer-nos e vão comprá-los um pouco por todo o mundo, montando uma logística sofisticada, através da qual frutos oriundos de países de outros continentes são colhidos, embalados, transportados e postos nas nossas prateleiras mesmo a tempo de não lhes sentirmos a falta. Como esquecemos com facilidade aquilo que os nossos pais e avós sabiam, agarramo-nos à peregrina ideia de que os produtos frescos têm de estar disponíveis todo o ano e ter uma aparência semelhante à dos alimentos embalados pelo que escolhemos o que não presta mas tem bom aspecto, criando essa miragem de fruta e vegetais com tamanho e peso certos, tudo coisas que a mãe-natureza não pode nem deve oferecer-nos. E é assim que as peras importadas pelo Reino Unido têm um peso cuja tolerância máxima é de 14 gramas relativamente ao peso padrão e o feijão verde que entra em França deve ser direito e medir 10 cm.

Os produtores fazem entregas diárias de alimentos que chegam a viajar 15.000 kms, desenvolvem variedades mais resistentes de frutos e vegetais, encurtam o tempo de amadurecimento. Os supermercados, que são nossos amigos e não gostam de nos sobrecarregar com custos adicionais, passam a pressão para a produção que, por sua vez, “deslocaliza” para regiões mais favoráveis do ponto de vista climático e laboral, “absorvendo” os custos de transporte através de salários muito baixos, porque afinal alguém tem de os pagar. Um atraso significa a perda de um cliente e as grandes propriedades orientadas para exportação, seguem uma prática de sobreplantação que lhes fornece uma margem de segurança da qual resultam sobras obscenas. Como a pressão nos preços é contínua, produtores com uma lógica global como a Chiquita e a Dole, duas empresas americanas, são donas de metade do comércio mundial de bananas, e quando digo de bananas é porque é mesmo de bananas.

Não é por ser patriota e prezar a saúde, por gostar de coisas boas e defender a sustentabilidade, por ser um perito em economia que acabou de descobrir que há mais viabilidade numa produção de proximidade e à nossa escala, ou sequer por me passar pela cabeça que devíamos avaliar os contras de deixar de produzir localmente o que comemos, fosse porque acredito que o mundo não acaba em 2012, fosse por prever que se os camionistas decidem fazer uma greve, as prateleiras do sistema “just-in-time” vão ficar tão brancas como um armário de hospital.
É que neste divertido sistema em que os supermercados não pagam os custos do transporte, nós não pagamos preços altos mas também não comemos fruta fruta, e a “lavoura” (como diz o Paulo Portas) deita fora a produção de batata que não consegue vender aos supermercados, os nossos campos, à falta de melhor uso, podiam ser transformados em campos de golfe, um desporto (?) que requer imensa água o que, a prazo e com discrição, nos haveria de permitir usar a água dos nossos rios ou melhor ainda, desviá-la daquela porcaria das estufas plásticas espanholas onde se produzem as coisas que vão entregar ao Pingo-Doce, o sítio onde costumo esforçar-me por encontrar um simples pêssego português como aqueles da árvore que um dia plantei sem querer, colocando o primeiro visto no checklist do que deveria fazer de mim um homem mas não fez.

Os supermercados lá vão cumprindo a lei e informando a origem dos produtos. O que não conseguem é ter lá fruta, porque a fruta, como as pessoas, tem formatos, pesos e aparências diversas e uma vezes é verdadeira, outras não. Portanto, ou continuamos a levar para casa as “Barbies” insípidas à venda nos supermercados ou optamos pelas portuguesas que, embora mais pequenas e por vezes mal vestidas, sabem e cheiram muito, mas muito melhor.

Tão felizes que nós somos!

29 Jun

Estudo do ISCTE divulgado pelo Público.

1,8 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar de pobreza e isso traduz-se no facto de 32% não conseguirem manter a casa aquecida no inverno, 57% terem um rendimento familiar abaixo dos 900 euros mensais (o custo declarado da intervenção no BPN, 2.500 milhões de euros, equivale ao rendimento anual de 231.481 famílias destas), 62% não conseguirem gozar uma semana de férias, 8% acumularem mais de um emprego e 56% afirmarem não ter tempo para estar ou brincar com os filhos. É sem surpresa que declaram ter falta de tempo para si, para os outros e para actividades sociais.
Mesmo assim, numa escala de 1 a 10, 6,6 é o grau de satisfação dos portugueses com a vida que levam e maior é ainda a felicidade que sentem: 7,3 na mesma escala.

A reportagem que acompanha o estudo, incide numa mulher de 33 anos. Deita-se diariamente “à meia-noite, uma da manhã” e levanta-se às “seis, seis e meia”, recebendo pelo seu trabalho 462 euros. Garante 200 euros adicionais ajudando a mãe no café que esta explora. Sempre quis trabalhar com crianças e trabalha, de facto, num infantário. Passa no café da mãe antes de ir para o emprego, trata da casa e das galinhas depois de sair dele. Regressa ao café para ajudar até às 22:30h. Tem uma filha de 15 anos para a qual não pode ter tempo, que ainda não sabe se transita do 7ª ano, quando em circunstâncias normais estaria a passar para o 11º.
Vai, para o mês que vem, a Fátima com a mãe, talvez porque espere um milagre ou porque, no fundo, sente que tem de agradecer a sorte que tem. No desmedido santuário não faltará consolo e exemplos de que podia ser pior.

Conformados porque podia ser pior, alheados porque já basta a vida que têm, espertos porque toda a gente se safa, e 73% felizes, os portugueses deviam exportar baixas expectativas, inconsciência e desfasamento com a realidade.

Fátima, Fado, Futebol e que se F**a. Já são 4 os nossos éfes.

PS! O estudo não revela que parte desta realidade é artificialmente contida pelo rendimento mínimo e afins. É também omisso em relação ao contraste entre a forma como os portugueses se vêem e o recente alerta do Infarmed sobre consumo de antidepressivos em Portugal, que nos coloca em 2º lugar na Europa a 27, com um crescimento de 45% nos últimos 5 anos.