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Pobreza no Porto – Solidão e velhice (VI)

3 Nov

A gente começa a pensar na vida antiga. Depois lembra-se e começa a dizer assim – quem eu era e quem eu sou. Eu não sou ninguém.

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Pobreza no Porto – Coser os números (V)

2 Nov

Não vos conformeis com este mundo.

Epístola de S. Paulo aos Romanos

Estamos todos submetidos ao enigma __________ como distinguir o jardim devastado em que nos encontramos do perfil da esperança (…)
À minha volta, ouço constantemente falar do mundo, de que vai mal, de que deve ser revolucionado, de que pode ser melhor, sem que eu saiba onde nele se possa colocar esse diferente, por não ser – não conseguir imaginar-, a forma do mundo.

Maria Gabriela Llansol

Pobreza no Porto – Desemprego (IV)

31 Out

Os números são péssimos mas podiam ser bons e continuariam a dizer sempre pouco sobre a realidade. Um licenciado que nunca tenha logrado conseguir um emprego não é, tecnicamente, desempregado ainda que esteja à procura de emprego há vários anos. No “abstracto” pode ter-se uma economia “boa”, financeiramente sã, que esconde uma situação muito má. A ligação entre as decisões estruturais que definem o modelo em que assenta a economia, e a vida concreta das pessoas, perdeu-se há muito. As pessoas que decidem a um nível macro estão mais preocupadas em controlar o efeito mediático das políticas que nas suas consequências concretas. Nada se passa ao nível da realidade material visível até ouvirmos em discurso directo ou conhecermos por proximidade uma pessoa que esteja nesse lugar. O mundo que conhecemos está a desintegrar-se, e isso não é uma questão de adequação à mudança. Se ainda for verdade que o maior capital de que dispomos são as pessoas, é visível que andamos a desperdiçar recursos valiosos que poderiam permitir-nos fazer muito mais do aquilo que é feito. É uma questão de valores e de paradigma.

Vale a pena ouvir uma pessoa que quer trabalhar e fazê-lo com dignidade. Soube que, após este documentário, este homem conseguiu trabalho e o seu contributo e atitude são apreciados.

Pobreza no Porto – Abaixo de cão (III)

30 Out

Estes bairros são guettos que se reconstituem permanentemente e apresentam sinais claros de deliquescência das instâncias tradicionais de controlo social. Não está lá nem a família – as pessoas vivem frequentemente sós ou em famílias que implodiram há muito, nem a igreja e o seu habitual enquadramento de preocupação social, conforto espiritual e ritualização, nem a escola e o futuro a si associado, nem qualquer outra forma de organização e associação.

Voltou a crescer o número de analfabetos, a violência entre os jovens e o número de membros de gangs. Disparou a criminalidade a um ponto que fugiu completamente do controlo. Já “ninguém lá vai”. Retrocederam todos os parâmetros de qualidade de vida, a começar pelo acesso à saúde. As pessoas, sobretudo os idosos, não têm, nestas condições, vidas viáveis.

Isto existe, é assim, e toda a lógica dos bairros está errada e é perigosa. Podemos dar a esta situação a visibilidade que merece e debater com seriedade soluções que congreguem autarquias, empresas e técnicos em projectos reais que incidam mais do que na reconstituição daqueles edifícios, nas relações e na dignidade, com uma lógica social e de urbanismo continuadas.

Uma vez que parece começar a ser evidente que o capitalismo não foi o fim da história, a existir um sentido para ela, ele passará necessariamente pela nossa disponibilidade para enfrentar o intolerável, tentar inverter a tendência do curso dos acontecimentos e “ganhar tempo” contra o mal e a dor dos homens. Podemos começar por acreditar que é uma questão de reabilitar a nossa inteligência sob a forma mais nobre, a da ética, e pô-la a funcionar.

Pobreza no Porto (II) – Sonhos? Não tenho assim muitos…

29 Out

A alienação integra a distância no próprio tecido social do nosso quotidiano e, mesmo vivendo ao lado dos outros, o nosso “estado normal” é ignorá-los. Não nos permitimos sequer aproximar demasiado, para poder continuar a circular no espaço em que interagimos com eles, na obediência das normas que interiorizamos e se traduzem numa anestesia, numa doença de fundo, o ar rarefeito que respiramos à medida que a nossa consciência ética se reduz.

Sei que a miséria começa aqui no meu quintal, mas não quero saber o que sei, e por isso não sei. Sei, mas recuso-me a assumir inteiramente as consequências desse saber, pelo que posso continuar a agir como se não soubesse, fazendo parte do processo de normalização crescente da injustiça. Sei que é urgente surgir um projecto utópico portador de sentido, embora provável seja a eclosão de uma violenta explosão do ressentimento social sem destinatário ou objectivos precisos, como aquela a que assistimos em Marselha.

É porque estou farto de saber que estou a viver, nas palavras de Badiou, “num tempo sem mundo”, que a única coisa realista a fazer é olhar isto de frente e denunciar as causas, e a única utópica é continuar a ignorar o que se passa como se isto pudesse ou devesse durar para sempre e não fosse minha obrigação chamar a atenção e tentar criar condições de indignação que o tornem inaceitável.

Pobreza no Porto (I) – Nada de nada

28 Out

De acordo com um estudo publicado na edição de hoje do Público, “pelo menos 40 mil idosos portugueses não têm capacidade financeira para comprar alimentos”.
Não sei se, como diz este senhor, “Deus não dorme”. A palavra mais vezes pronunciada nesta série de documentários, é a palavra “vergonha”. A questão é saber quem deveria carregá-la, se eles, se nós que olhamos para o lado. Em que momento perdemos a noção de que isto é totalmente inaceitável, 23 anos depois de termos integrado a união europeia?

Realização de Pedro Neves para o Jornal Expresso

O último a sair que feche a porta

12 Out

A expressão “vitória de Pirro” teve origem na frase do general grego que, terminada a batalha de Ásculo contra Roma, e ao confrontar-se com o número de baixas que a vitória lhe havia custado, terá dito “Mais uma vitória como esta, e estou perdido”. Traduz-se numa vitória obtida a alto preço que, potencialmente, acarreta prejuízos irreparáveis.

Evolução da importância demográfica do Porto e cidades limítrofes (1981-2008)

grafico

Num estudo sobre competitividade das 18 capitais de distrito do continente, que reunia 21 indicadores, distribuídos em quatro sub-índices: demográfico, laboral, empresarial e conforto, Évora encontrava-se em 1º lugar, Lisboa em 2º e o Porto em 18º, ou seja, em último. Em 2011, o Porto não terá mais de 200 mil habitantes, um número próximo do que tinha há um século atrás e, de acordo com as curvas reveladas nos gráficos, quase todas as cidades limítrofes o terão ultrapassado por essa altura.

Com 67% dos abandonos da cidade a ter como destino os concelhos de Gaia, Maia e Gondomar, continuando 51% dessas pessoas a trabalhar ou estudar no Porto, os números parecem demonstrar que há boas razões para viver nas cidades periféricas. Adicionalmente o Porto tem vindo a perder grande parte do protagonismo político e económico que tinha amealhado ao longo da sua história, em favor de Lisboa, vendo escaparem-se-lhe bancos, empresas e cérebros.

Rui Rio não é o único responsável por esta situação, mas o resultado dos seus imperdoáveis 8 anos à frente da autarquia é espelhado por estes números. Gostava de, democraticamente, poder felicitá-lo pela maioria absoluta, mas ontem vi um homem eufórico nos festejos da sua gestão de uma pesada, inoperante e caríssima câmara de uma pequena cidade que já foi grande. A recondução muito mediatizada do presidente da Câmara do Porto foi, por muito que lhe custe, comparada com a do seu colega Filipe Menezes, uma vitória de Pirro.

E o Porto, carago?

8 Out

Compadre,

Estou tão baralhado que, não sabendo por onde começar, a única coisa que posso tentar fazer em resposta ao teu pedido, é uma descrição aproximada do ponto a que as coisas chegaram, o que leva um montão de tempo.

Imagina que tens um candidato que não gosta de nada, mas mesmo nada, que seja daqui. Do clube, dos museus, da música, do património, das pontes, dos eléctricos, de coisa alguma que faça sombra à Câmara, Torre dos Clérigos incluída. Agora põe-lhe um chapéu de dois bicos, soma-lhe as decisões estratégicas erradas e diz-me se, com aquela ideia fixa de vergar a cidade ou de no mínimo a esvaziar, não te faz lembrar aquele gajo baixinho que veio cá, há 200 anos, roubar as pratas.
Supõe que, num momento de lucidez, até se lembra de pedir a um antigo ministro que lhe escreva o programa e que este, não o querendo deixar fazer figuras tristes, redige aquilo mas não é candidato a nada. Liberto dessas maçadas, o candidato-napoleão mete-se no autocarro de dois pisos e, não chovendo, enceta a campanha distribuindo abraços à francesa, confundindo todos os que vê com apoiantes convictos. Diz-se que chega a fazer fé nas vendedeiras do bolhão, as mais antigas aderentes do sistema de bandeiras tipo semáforo, aquele que acciona sempre a cor do partido que lá vai comprar os legumes.
Bem sabes que o homem, pouco dado a leituras, quando alguém lhe vier fazer um resumo do que está no programa, vai ter uma apoplexia e que, por essa e outras razões, bom seria que a campanha de assinaturas contra a destruição dos Jardins do Palácio fosse bem sucedida, assegurando-lhe a meditação no local aprazível que ele não se importa de retirar aos outros. Claro que ideal seria que o escolhessem para chefiar o partido desorientado, acabando por ter de abalar para Lisboa, porque para os Açores não to ia mandar, que diabo!

Depois, há aquela senhora que, achando que mulher prevenida vale por duas, se candidata a dois lugares distantes. Reunindo uma lista de apoios que parece o número especial da “Caras”, não se terá dado ainda conta de que um apoio é uma bengala, dois uma canadiana, três um andarilho e acima disso tem de pagar tantas ajudas que vai ficar pregada ao chão só de olhar para a factura. Passeia pela ruas arrastando a corte e chegou, não sei por alma de quem, a ser recebida pelo Pinto da Costa no Dragão. Este que, por sua vez, tem vindo a adoptar o estilo “Alberto João”, o melhor que lhe ocorreu após a vitória do FCP na liga dos campeões, foi agradecer ao teu clube a contratação de um jogador, em vez de se ocupar com o meu e dele, que até fez um jogo decente.

Sabendo tu que um ministro das finanças, um presidente da câmara e uma candidata a presidente, unidos por uma certa grosseria e mau domínio da língua e de muitas outras matérias, têm em comum o facto de terem sido docentes da Faculdade de Economia do Porto, terás de reconhecer que, neste caso, o mercado funcionou e a universidade deve já respirar outro ar.

O outro candidato que, chegado a esta idade, a única coisa que provavelmente conhece da cidade é o caminho para a Faculdade de Letras – aquele edifício horrível que, coincidência das coincidências, tem a forma de uma praça de touros, nunca alimentou ou acolheu uma ideia que fizesse carreira. Diz-se que, como professor, costumava ter um conceito do mérito inversamente proporcional à saia das alunas e que agora se propõe tirar a maioria àquele que pediu ao amigo para lhe redigir o programa, o que nem é difícil atendendo a que se trata de roubar o tipo mais imobilista que por cá passou nos últimos 900 anos. Orgulha-se de ser homem que nunca se coligou com ninguém, mas suspeita-se que não hajam sido muitas as oportunidades e que nem com ele próprio a coisa venha a ser pacífica.

Bem queria animar-te, e poder dizer-te que nos resta aquele engenheiro nosso amigo. Uma jóia de rapaz, conhecedor da cidade, benfiquista embora honesto ao ponto de, conhecendo-nos a ambos há séculos, ainda se dar ao trabalho de nos cumprimentar. Só que ninguém me tira que uma pessoa que andou mais de 20 anos nos bairros e os conseguiu entregar direitinhos ao mau-da-fita, tem um problema de vocação. Palavra de honra que um dia, prevendo a entrega do ouro ao bandido, lhe disse que aquilo que ele fazia não era nem política, nem engenharia. Era assistência social. Quem se ficou a rir foi o homem-ingrato a quem ele permitiu o primeiro mandato, findo o qual e sem necessidade de apoios, o descartou, retirando-lhe qualquer pelouro de importância e acusando-o de incompetência. O que não deixa de ser verdade, em termos políticos.

Depois da estopada a que te submeti, custa-me estar a mexer nos rendimentos desta nossa longa amizade mas, atendendo a que cumpri o difícil prazo que me estabeleceste, ouso pedir-te um favor:
– Expus-te as razões porque, enquanto cidadão do Porto, não tenho em quem votar. Votar em branco reforça a maioria do mau-da-fita. Ando cabisbaixo e, confesso, um pouco envergonhado e sem ânimo para fazer uma campanha insidiosa como deve ser. Hás-de concordar que é gente a mais para se ser contra.
– Não arranjas maneira de me recenseares aí na ilha? É que, para casos desesperados como o meu, e uma vez que não posso acumular votos não utilizados para gastar nas próximas autárquicas, devia haver maneira de um gajo votar em alguém que gostasse. Sei lá, noutra terra qualquer, por exemplo.

Um abraço do teu velhíssimo amigo,

A importância de se chamar Stefan

2 Out

Conferência TED com Stefan Sagmeister. Jul 2009.

Stefan Sagmeister encerra a cada 7 anos o seu estúdio de Nova Iorque para um ano sabático. De acordo com a apresentação, retirou 5 anos ao momento da reforma e tenciona utilizá-los em 5 momentos da sua vida profissional, pensando e rejuvenescendo o seu trabalho. Nem todos podemos fazê-lo, mas merece crédito o argumento de que este período off se reflecte em mais qualidade e logo em trabalhos mais bem pagos, compensando a prazo.

Embora convencido das virtualidades e aplicações potencialmente inesgotáveis da solução de Sagmeister, interessantíssima do ponto de vista teórico, inicialmente achei o projecto de comunicação da Casa da Música de díficil sustentação ao longo do tempo, fosse pela exigência da interpretação criativa por parte dos designers locais, fosse sobretudo pelas limitações da fonte “SIMPLE”, desenvolvida para a identidade e sinalética do aeroporto de Bona, onde efectivamente é adequada. O excelente trabalho da equipa que faz a execução local das peças gráficas, dissipou muitas das dúvidas do momento inicial, ultrapassou as expectativas, mas não gorou dar mais durabilidade à fonte escolhida.

O case study da Casa da Música, nomeadamente no que respeita ao software que aplica as cores dos temas ao logo, constitui o elemento mais interessante e convincente da conferência. Isto se ignorarmos as vicissitudes do processo de escolha do designer e não quisermos reabrir a questão do diletantismo de, em apenas 4 anos, se mudar 3 vezes o logotipo de uma instituição. Mas disso, o Sagmeister não tem culpa nenhuma.

Rui Rio, o seu a seu dono

27 Jun

Foi pela mão de Rui Rio, que se soube que dos 11 mil milhões de euros do QREN destinados à Região Norte do país, mais de 1,5 mil milhões já foram canalizados pelo Governo para financiar projectos de Lisboa e Vale do Tejo. Estes dados obtidos por via judicial, junto do Tribunal das Comunidades da União Europeia, revelam que ao abrigo da norma de excepção inscrita pelo Governo no QREN- o “spill over effect”, foram aplicados , 300 milhões de euros para a modernização administrativa da PSP de Lisboa, do Instituto de Reabilitação Urbana e da PJ; 31 milhões para o Instituto de Registos e Notariado; 23 milhões no Gabinete de Estatística do Ministério da Educação; 20 milhões para a qualificação profissional da Administração Central, além de uma verba não quantificada para o Website da PSP de Lisboa. Tudo projectos com enorme impacto difusor a nível nacional como é fácil constatar.

Desenvolvimento da notícia no Público

Oponho-me firmemente ao presidente da CMP e à sua lógica política, mas registo o mérito de Rui Rio na denúncia desta situação. Não me move qualquer critério regionalista. Oponho-me à cultura de subsídio da sociedade portuguesa e nada sei da bondade do critério de distribuição regional de verbas. Esta é uma questão puramente ética e fornece uma clara imagem de gente que faz batota quando não está ninguém a olhar. Se a si lhe acontecer sentar-se ao lado de um membro do governo, aproveite para solicitar uma aula de contabilidade criativa e descentralização. Estará de certo entregue a um especialista, mas guarde bem a carteira.

Um simplório chamado Rui Rio

23 Jun

Foi inaugurado, a poente do Parque da Cidade, um equipamento denominado Sea-Life com 2.200 m2. Abriu sem licenciamento da Direcção Geral de Veterinária e do Instituto de Conservação da Natureza. Na fachada um agressivo lettering a vermelho contrasta com o parque tranquilo, mas conjuga-se com a entulheira que se amontua nas traseiras da obra mal terminada. Cartazes promocionais validam a iniciativa com o logotipo da Câmara Municipal do Porto numa estranha associação institucional. O povo corresponde em longas bichas (lamento mas sempre disse bichas), secando ao sol no exterior do acanhado edifício. Junto ao mar, estendem-se tendas gigantescas que albergam restaurantes ou feiras ou qualquer outra coisa, ignoro-o e, mesmo em frente, jaz, abandonado, o ex-edifício do CLIP.
Na envolvente do parque, por todo o lado, distribuem-se “rails” de protecção para o “Grande Prémio do Porto” e umas mais que precárias bancadas cujo suporte faz temer pela segurança. Nada melhor para envolver um parque natural ligado suavemente ao mar num notável exercício de paisagismo, que uma corrida de automóveis. Na cultura vigente, é necessário colocar “atracções no local”. É necessário barulho, movimento, “animação”. A fruição da natureza não basta. É chata. É a lógica de encarar os espaços verdes de qualidade como parques de diversões, desvirtuando-lhes a razão de ser.
A poucas centenas de metros, um equipamento público de investigação e conservação marinha, estiola encerrado. A intervenção serena nos passeios à beira-mar, vandalizada por todo o lado, caminha para a inutilização e não colhe a simpatia de muitos utentes. Abre-se o jornal e lê-se um comentário da arquitecta que projectou o excelente Parque da Pasteleira. Sem conhecimento da projectista, a Câmara avança para a cedência de instalações do parque para uso de uma empresa privada, a Port Aventura. A baixa do Porto e algumas das suas praças há muito que mais não são que feiras permanentes autorizadas pela autarquia.

A minha cidade é tão bela. A minha cidade é serena, digna, boa de disfrutar. A minha cidade tem rio e tem mar. A minha cidade oferece alguns dos mais notáveis jardins românticos que é possível encontrar na europa. A minha cidade continua a cair aos bocados e cai mais depressa do que são recuperados a meia-dúzia de edifícios eternamente embrulhados em grandes panos desbotados a publicitar, alguns em inglês, a preocupação da autarquia com o património. A minha cidade tinha edifícios industriais extraordinários. A minha cidade tem hoje 60% da população que tinha em 1974 e será, eventualmente, apenas a 5ª cidade do país em termos demográficos.
O presidente da Câmara do Porto, que fez uma estranha e perigosa declaração recente de desprezo pelos livros, adora, em contrapartida, animação e feiras. Promove “eventos de encher o olho”, de retorno duvidoso mas é, no essencial, um imobilista que parte do desconhecimento da cidade em que vive e da sua história. A Rui Rui é natural a transformação de um mercado como o Bolhão num centro comercial ou a concessão de facilidades a La Féria outorgando-lhe a exploração de um dos mais nobres espaços da cidade, o Rivoli, porque não tem outro entendimento da cultura e do património. O seu conceito de modernidade manifesta-se na, lamento dizê-lo, péssima e igualmente provinciana intervenção de Siza Vieira na baixa (e seus sucessivos remendos e formas de utilização), ou na inacreditável cascata de S. João. Rui Rio é alguém que vai ganhar as próximas eleições porque não precisa senão de pôr a nú o oportunismo da dupla candidatura de Elisa Ferreira que, por sua vez, nada acrescentaria à cidade.

A minha cidade é apenas uma recordação de postal ilustrado e parece haver pouca gente que se indigne por termos descido tão baixo. O problema está mais nos portuenses que lhe voltaram as costas que na existência de figuras como Rui Rio, reflexo medíocre da falta de merecimento do legado tão rico que outros construiram para nós.