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Le coeur est un métronome

7 Nov

Então não é?

Sentado num cadeirão, emigrante de si mesmo

18 Out

Um português de 62 anos, morreu, há dois anos, em sua casa, nos arredores de Paris. Só na passada segunda-feira foi encontrado. Mesmo sabendo incorrer num raciocínio perigoso, não me abandona a imagem da pele que, sob o desgosto e a dor, encolhe e mumifica como a deste homem. Creio que estes casos deixarão de ser notícia à medida que se tornarem cada vez mais frequentes.

A imprensa francesa referiu-se, a este propósito, à grande solidão das sociedades modernas. A portuguesa, ouviu uma das filhas que não encontra explicações “para uma situação destas” e se pergunta como é possível nos tempos de hoje, ninguém se ter apercebido. A mesma indignação mostrou a sobrinha à porta da casa que José construiu e, no momento em que leio este parágrafo, penso se este emigrante terá sonhado instalar-se por França e apenas construir aqui a casa que testemunhasse perante os seus, o esforço de uma vida, sabendo intimamente que nunca regressaria.

Desconheço e não são para aqui chamadas as suas circunstâncias pessoais e familiares mas, ao contrário da filha e da sobrinha, sei que nunca foi tão possível, como nos dias de hoje, uma coisa destas acontecer. Seja porque razão for, a família próxima, filhos, irmãos e ex-mulher, estiveram ausentes do processo tendo, ao longo destes dois anos, vivido apenas “a sua vida” sem dar seguimento a questões que despoletassem as diligências necessárias a saber o que se passava.

A figura de um pai, no seu esforço como modelo de vida e instância moral, costumava viver pela passagem do testemunho. Havia até, em certas sociedades, um mito segundo o qual, quando um pai morria o filho recebia uma marca da sua mão, passando-lhe desta forma e num último acto de interiorização, a autoridade.

Apáticos, precocemente cansados da vida, limitados à busca do conforto e da segurança, vai-se afastando das nossas vidas a possibilidade de ligações, sejam de que natureza for. Chegamos aparentemente a um ponto em que são maiores os riscos para aqueles em quem vive a memória, seres incómodos que atraem a si a censura dos que vivem para se esquecerem, uma estranha opção.

Talvez não possamos saber o que se quebrou para se instalar esta “solidão total”, mas fica a questão de saber em que consiste isto de viver como nos compete.

De como o mostrar se tornou a pornografia do nosso tempo

6 Out

Imagem 1

Quando ouvi falar do projecto “Days with my father”, a história da relação de um filho com um pai em fim de vida, senti-me incomodado com a pergunta “Porque é que alguém decide pôr uma coisa tão íntima na net” e decidi visitar o site. Com uma construção inteligente, um grafismo elegante e algumas imagens boas, tocantes e íntimas, demasiado íntimas, conduz-nos a um último ecran que contém a frase “please notify me when the book comes out”. Chocante. Confirmavam-se os receios iniciais e o desconforto que se sentia com o despudor “soft” de algumas imagens e comentários laterais. Um pai, uma história, uma suposta homenagem, montados para vender emoções, reduzidos a uma acção de marketing tanto mais condenável quanto mais elaborada.

A literatura está carregada de referências à figura do pai, algumas das quais constituem vinganças tardias. Mas a que me veio à memória, pelas melhores razões e pelo contraste, foi a de Laurence Stern, em “A vida e opiniões de Tristan Shandy”:

“Apesar dos muitos retratos que eu já fiz do meu pai, e por muita parecença que tenham com ele nos seus diferentes ares e posturas, nem um, ou todos juntos, poderão ajudar o leitor a fazer a mínima ideia de como o meu pai pensava, falava ou agia em quaisquer novas circunstâncias ou ocorrências da vida. Havia nele uma tal infinidade de singularidades, e de acasos que as acompanhavam, que saber por que rabo é que ele agarraria numa coisa, desconcertaria, Senhor, todas as conjecturas. A verdade é que a sua estrada se afastava a tal ponto daquela por onde a maior parte dos homens viajava, que cada objecto se apresentava ao olhar dele com uma superfície e uma secção inteiramente diferentes do plano e do corte com que o resto da humanidade o via. Por outras palavras, era um objecto diferente, e consequentemente era visto de maneira diferente.”

Será preciso sublinhar as diferenças? A avaliar pelos comentários incluídos no site e pela forma como se confundem as coisas, sim.

O mercado dos livros escolares explicado a Totós como eu (II)

20 Ago

Um cartaz de campanha da CDU reivindica manuais escolares gratuítos para todos. Surpreendido, (o que tem de bom esta campanha, é que me surpreende todos os dias), dei-me ao trabalho de ler a argumentação do PCP que, valha a verdade, não esconde em defesa desta tese quanto custa a proposta a preços de 2006. Seria um esforço orçamental superior a 65 milhões de euros o que, passo a citar, “representa apenas 1% do orçamento do Ministério da Educação”.

Como não há manuais gratuítos e a questão é, tendo alguém de os pagar, quem deve fazê-lo, não só não tomo como bom o argumento de que já que se “gastam 7.000 milhões de euros com o ensino, dever-se-iam tornar os livros gratuítos”, como se me afigura imoral e demagógico propô-lo.

Porque não avaliamos soluções diferentes:

Empréstimo dos manuais escolares pela escola, mediante uma espécie de depósito de caução que também financiaria a sua aquisição? No final de cada ano, a escola avaliaria o seu estado e devolveria a caução tornando o uso dos livros gratuíto para quem os estimasse, e imputando os custos caso houvesse dano nos livros, envolvendo e responsabilizando os alunos.

– Realizar, no início do ano escolar e atempadamente, nas escolas, feiras do livro nas quais pais e alunos possam vender livros que já não servem e comprar os que necessitam a alunos que já não precisam deles? Livros em pior estado seriam vendidos a preços mais baixos, valorizando o factor conservação. Menos regulada, esta prática pode não ajustar de modo perfeito a oferta e a procura, mas tem um impacto positivo.

Fazer a recolha dos livros usados, que o ano passado, creio que por iniciativa da CGD e levada a cabo com o nome “Livrão” foi, até por razões ecológicas, uma boa ideia. Porque não ser o ministério e/ou as escolas a fazê-lo, seleccionando os livros e integrando-os na biblioteca da escola para reutilização de quem careça deles.

Propostas simples que, como quaisquer outras que visem prolongar a vida de um manual escolar, necessitam de contornar o obstáculo de os livros serem concebidos e desenhados com zonas destinadas a preenchimento, substituindo-as pela transcrição dos exercícios para os cadernos. Alunos que desejassem livros “brand new” ou tivessem o hábito de estudo de os sublinhar ou colocar apontamentos, assumiriam esse tipo de utilização, adquirindo-os.

Optar por uma lógica diferente, não será um questão de bom-senso? Ou será ingenuidade pensar que alguém, incluindo editoras, pais, alunos e professores deste pobre país rico, deseja isto?

O mercado dos livros escolares explicado a Totós como eu (I)

20 Ago

Recolhi a lista de livros do meu filho e escolhi aleatoriamente o manual para a disciplina de Inglês, “Easy Biz 11”, um livro de 240 páginas e 25,15€ de custo (este preciosismo nos cêntimos dá um ar credível à coisa) que, com o caderno de exercícios, sobe a 34,38€. Esse valor aproxima-se do custo de um livro de design com uma tiragem reduzida e pormenores de impressão de grande qualidade. Ia dizer que isso me surpreende, quando me dei conta de que, na realidade, me indigna.

Conhecendo o mercado gráfico, a primeira dificuldade de estabelecer comparações prende-se com algo que não deixa de ser curioso. Não existe uma informação habitual em qualquer livro comum, a tiragem. Sem grande rigor, e fazendo cálculos para perceber quanto custaria imprimir, digamos, 3.000 exemplares de um livro idêntico, teremos um valor próximo dos 8/9 euros e, partindo do princípio de que a tiragem se poderá aproximar dos 30.000 exemplares, os custos baixam até 4/5 euros. A editora não produz stock para os vários anos lectivos em que o livro será o adoptado, mas sabe-se que os custos de pré-impressão oneram apenas a 1ª edição. Aplicando percentagens conhecidas para autores, designers e ilustradores (acreditem que conheço valores miseráveis), concluir-se-à que andando alguém a ganhar muito dinheiro, nos restam dois suspeitos, editoras escolares e distribuição.

Somos um dos poucos países que certifica os manuais escolares e, apesar disso, mesmo com a atenuante disso ser antes do mais um reflexo dos conteúdos programáticos definidos pelo ME, o resultado é o lixo que nos costuma chegar às mãos. Maus conteúdos, mau aspecto gráfico, pouca clareza e sobretudo um “erro no design de concepção” que não deixa de espantar: livros que contêm zonas de resolução de exercícios, aumentando o número de páginas e inutilizando-os seja para emprestar a irmãos mais novos ou a quaisquer outros miúdos, seja no caso, improvável no actual esquema de avaliação, do aluno ser forçado a repetir o ano lectivo.

Porque se continuam a desenhar livros dessa forma se não para impossibilitar a sua reutilização? Achando-se necessária a inclusão dos exercícios no manual, porque são “vivamente recomendados” os cadernos de exercícios editados à parte? A panaceia do “Magalhães” distribuído massivamente no ensino básico, não poderia ser acompanhada por um esforço de elaboração de conteúdos, eliminando consumo de papel, baixando dramaticamente os custos e gerando provavelmente mais-valias educativas?

Caso a transmissão de conhecimento ainda seja o objectivo do sistema educativo e se sobreponha à entropia reinante, parece pacífico que o livro pode ser dispensável em certas ocasiões. Ou o professor debita o livro, empobrecendo a sua função, ou o livro estabelece “guide-lines” e conteúdos que o professor enriquece e adapta aos alunos e isso torna o livro um acessório educativo, importante mas não necessariamente omnipresente.

Sinto-me, perante este cenário, como aqueles leitores da Maria que perguntam inocentemente, “será que isto é o que parece?“.

Crianças, a mania da segurança

28 Jun

Por GeverTulley

Fale com os seus filhos…

15 Jun

antes que a publicidade o faça!

Wait for Me

31 Maio

Histórias de 3 minutos. Ross Kauffman.

Que é aquilo?

6 Maio

Com o meu obrigado à amiga que me revelou este lindíssimo filme e me fez pensar que não há retroactivos em matéria de pais.

Os nossos filhos

6 Maio

Os teus filhos não são os teus filhos.
São os filhos e as filhas do desejo da Vida por si própria.
Vêm através de ti mas não de ti,
E embora estejam contigo, não te pertencem.
Podes dar-lhes o teu amor, mas não os teus pensamentos,
Porque eles têm os seus próprios pensamentos.
Podes alojar-lhes os corpos mas não as almas,
Porque as almas deles vivem na casa do amanhã, que tu não podes visitar, nem sequer em sonhos.
Podes lutar por ser como eles, mas não tentes fazê-los ser como tu.
Porque a vida não anda para trás nem espera pelo passado
Tu és o arco a partir do qual são disparados os teus filhos como setas vivas.
O arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e arqueia-te com a Sua força para que a Sua flecha possa ir longe e veloz.
Deixa que o teu arquear às mãos do arqueiro seja de satisfação;
Porque assim como Ele ama a seta que voa, ama também o arco que é firme.

Kahlil Gibran, ensaísta, filósofo, escritor e pintor libanês (1883-1931)