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Bach de rua

27 Out

David McGee, o homem que se levanta todos os sábados, às 5 da manhã, para trazer de bicicleta o seu violoncelo e com ele encher o mercado de Minneapolis oferece, praticamente sob a forma de um poema, uma história inspiradora do compromisso de mais de 10 anos para com os outros e para com aquilo que mais gosta de fazer.

Não consigo deixar de associar esta peça de Bach à ponte do Rialto, num fim de tarde, em Veneza. Deu-se o caso de a ouvir ontem ser interpretada por uma rapariga muito jovem que parecia vinda de outro século. Tocava de tal forma compenetrada que lhe era praticamente indiferente se as pessoas deixavam ou não cair uma moeda, ou tão pouco se detinham, na rua, a ouvi-la.

Todos, de uma forma ou de outra, somos tocados pela música e é diferente, extraordinariamente diferente, a memória que temos de um sítio e da sua atmosfera se alguém tem a generosidade de lhe somar a música.


Prelúdio da Premiere Suite 1007 para Violoncelo

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O grande-escritor, visto de frente

22 Out

“Meu caro amigo” composta por Francis Hime para Chico Buarque, aqui num inspirado arranjo de Eduardo Jordão

A verdadeira dificuldade na vida de um grande escritor surge apenas quando age como homem de negócios na vida intelectual, mas, por tradição, de forma idealista;
(…)
O homem de negócios ambicioso encontra-se hoje numa situação difícil. Se quiser estar à altura das antigas forças do ser, tem de articular a sua actividade com grandes ideias. Acontece que hoje já não existem grandes ideias em que se acredite sem contradições, pois este nosso presente céptico não acredita, nem em Deus, nem na humanidade, nem em coroas nem na moralidade – ou então acredita em tudo isso ao mesmo tempo, o que vem dar ao mesmo. Assim sendo, o homem de negócios, que não está disposto a abdicar de grandes ideias que lhe sirvam de bússola, teve de recorrer à estratégia democrática de substituir o incomensurável efeito da grandeza pela grandeza mensurável dos efeitos.

“O Homem sem Qualidades” de Robert Musil

Vídeo via A Barriga de um Arquitecto

Ideografia do canto das aves

7 Out

de Malcolm Sutherland (2005)

Nós falamos, cantamos e até gritamos uns para os outros. Tal como eles.
Que dizem? Malcolm Sutherland parece saber alguma coisa e transcreve as mensagens que cada um dos pássaros das redondezas lhe deixa no atendedor de chamadas. Depois, a escrita emancipa-se da mão, flui ao ritmo do canto e enche páginas que escurecem em mares de tinta a acompanhar a noite ou clareiam ao definir as formas da cidade no alvorecer. Como tantas vezes acontece, sem agradecermos como deve ser ou corrermos a anotar-lhes a voz.

Uma linguagem para falar com Deus

22 Ago

Lisa Gerrard, dos extintos Dead Can Dance, canta numa linguagem inventada por si, aos 12 anos, através da qual fala com Deus. Quem, ouvindo-a, pode duvidar?

250 anos de Bach

1 Ago

Frederico II da Prússia, fez de Potsdam um local de harmonia e cultura. Encontrando-se um dia Bach, que contava já com 62 anos, nas imediações do palácio *, foi chamado à presença do rei. Frederico que, ao saber da presença de Bach, havia desistido do concerto de flauta que ia interpretar, convidou-o a experimentar os seus piano-fortes recém adquiridos a Silbermann.
Bach, desafiado a improvisar, pediu a Frederico um tema a partir do qual executasse uma fuga. Este forneceu-o e, impressionado com a forma como o seu tema havia sido desenvolvido, expressou o desejo de ouvir uma nova fuga, mas desta vez com seis vozes de obligato.
Após regressar a Leipzig, Bach compôs o tema em três e seis vozes, acrescentou passagens e editou-o sob o título “Oferenda Musical”, dedicando-lho.

Para que se tenha uma ideia do carácter extraordinário de uma fuga a 6 vozes, em todo o Cravo Bem Temperado, esta contém 48 prelúdios e fugas, 2 apenas têm 5 vozes e não existe outro exemplo de composição desta complexidades: a tarefa de improvisar uma fuga de 6 vozes pode ser comparada, provavelmente, à de jogar, com os olhos vendados, 60 partidas simultâneas de xadrez e vencê-las todas.

Fonte: “Godel, Escher, Bach – Laços Eternos” – Gradiva (um extraordinário livro sobre o paradoxo)

O excerto aqui apresentado diz respeito ao Concerto de Brandeburgo no. 5, allegro. A audição deste trecho, passados quase 300 anos, passa-nos a sensação de ter sido composto por alguém nosso contemporâneo.

(*) Actualmente em restauro, recomenda-se uma visita complementada pela dos jardins de Sanssouci. Fica apenas a 45 minutos de Berlim.

Estilhaços do som que aprendemos a ouvir

29 Jun


“No princípio, A Sagração é sedutoramente frágil. O fagote trémulo, tocando no registo mais alto (parece um clarinete rachado), evoca uma velha melodia folclórica lituana. Para o ouvido inocente, esta melopeia cadenciada soa como uma promessa calorosa. O Inverno acabou. (…) Em escassos segundos, as floreadas melodias do fagote são abafadas por um ritmo epiléptico, com as trompas a colidir assimetricamente contra o ostinato. (…) A tensão sobe, sobe, sobe, mas não tem por onde escapar, o ímpeto irregular é tão desapiedado como a banda sonora de um apocalipse, e o ritmo cresce, até um fortíssimo fatal.
Foi aqui que o público da estreia desatou a vaiar. A Sagração tinha dado origem a um motim. Uma vez começadas, as vaias e os apupos nunca mais pararam. (…) A dissonância musical foi suplantada pela dissonância real. (…) Diaghilev ligava e desligava freneticamente as luzes. O efeito intermitente não fez mais do que aumentar a loucura. Vaslav Nijinsky, o coreógrafo do bailado, estava ao lado do palco, empoleirado numa cadeira a gritar o ritmo para os bailarinos. Eles não o podiam ouvir, mas não tinha importância. Ao fim e ao cabo, esta dança era sobre a ausência de ordem. Como a música, a coreografia de Nijinsky era uma rejeição autoconsciente da sua arte (…) o público via apenas perfis dos bailarinos, os corpos curvados para a frente, as pernas penduradas, os pés virados para dentro a martelar no palco de madeira.
(…) Apesar da multidão presente na estreia presumir que a beleza era imutável – havia apenas alguns acordes mais agradáveis do que outros – Stravinsky sabia que não era assim. (…) apercebeu-se de que a nossa noção de beleza é maleável e que as harmonias que adoramos e o os acordes em que confiamos não são sagrados. Nada é sagrado. A natureza é barulho. A música não é mais do que um estilhaço do som que aprendemos a ouvir.

Jonah Leher in Proust era um Neurocientista

Deadline

24 Jun

Girls – Dedicado às Crianças

1 Jun

Takagi Masakatsu com o meu obrigado a quem me revelou esta e tantas outras coisas sem as quais o meu mundo seria mais pobre e menos vagoroso.

Jacques Brel e um bom dia

29 Maio

Recordei-me de o ter visto no extraordinário filme de Carlos Reygadas, Luz Silenciosa, e apeteceu-me partilhar algo genuíno e feliz. Brel era genial.

Saudades da casinha… Remix

28 Maio

Gostam da nova vocalista dos Xutos?

Andrew Bird, Theatro Circo, 26 Maio

23 Maio

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