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Os muros da vergonha

9 Nov

muro

O muro de Berlim separou, durante 28 anos, dois lados da Alemanha e representou a brutalidade como meio político. 20 anos decorridos sobre a sua queda continuam por derrubar e, nalguns casos, a ser construídos muros que um dia terão forçosamente de cair. A lógica dos muros tornou-se corrente e a celebração da queda deste parece não passar de um acto folclórico sem consequências.

O muro da Coreia marca a fronteira entre o norte e o sul e é mais um caso de separação desumana de um povo e das famílias que o constituem.
Diferentes, mas igualmente significativos como recurso político, são os muros que visam bloquear o acesso das pessoas que fogem dos seus países em busca de uma vida melhor:
– O muro de Ceuta financiado pela União Europeia, separa Marrocos de Espanha e visa impedir a imigração ilegal. Recentemente houve uma tentativa de êxodo em massa através deste muro, violentamente reprimida.
– O muro que separa os EUA do México ao longo de cerca de 1000 Kms, e o muro que separa Israel da Cisjordânia, mostram que se persiste em não intervir nas causas, fazendo as pontes que deitariam os muros abaixo.

Ou há poucas razões para celebrar ou vivemos na irrealidade total, uma vez que celebramos o fim daquilo que continuamos a erguer por todo o lado.

Esta NÃO É mais uma notícia

6 Nov

blogSpan

Um major-médico norte-americano de 39 anos, terá aberto fogo e morto 12 pessoas e ferido outras 30, no perímetro da maior base militar norte-americana, Fort Hood no Texas, depois de receber a notificação da sua mobilização para o Iraque. Este acto desesperado, uma espécie de acção terrorista mobilizada a partir de dentro do exército dos EUA, é um sinal inequívoco.

Que espécie de mundo é este no qual a única escolha disponível parece ser a passagem cega ao acto? Que liberdade de escolha é esta em que as opções são obedecer às regras ou recorrer a uma violência auto-destrutiva e sem saída ou objectivo senão o de assinalar que existe um problema e não pode continuar a ser ignorado? Donde vem e porque ocorre esta violência, no coração do aparelho militar americano?

A administração americana sabe, provavelmente, tudo sobre o mal-estar existente e sobre o problema que estava a germinar, mas não acreditou que isto pudesse acontecer. Há muito tempo que grande parte da operação americana no Iraque é assegurada por empresas de segurança privada, uma espécie de mercenários que operam à margem das estruturas regulares e mantêm os custos declarados em vidas e bens materiais, fora do escrutínio da opinião pública. A declaração de Obama, que classificou o incidente como “uma terrível explosão de violência” e acrescentou ser “terrível quando perdemos soldados no estrangeiro, mas é aterrorizador quando isso acontece em casa”, dá conta dessa tomada de consciência.

Um caso como este, em que o meio é a mensagem e a função é do domínio meta-linguístico, constitui uma espécie de “estão a ouvir-me?” que se destina a verificar se o canal está a funcionar. A pulsão de morte que este acto implica ao passar pela auto-sabotagem, opõe-se tanto ao princípio do prazer como ao da realidade e fá-lo na mesma lógica do terrorismo suicida, mas desta vez no seio da instituição que interpreta e veicula no terreno as decisões da administração.

Se esta notícia não for tratada como mais um “fait-diver” ou como nota de rodapé, é impossível não tirar conclusões sobre a que género de violência nos expõe a nossa própria violência sobre os outros. É aqui que reside a eloquência do major Hassan, para quem o quiser ouvir. Um espaço “privado de mundo” só pode desembocar numa violência sem sentido.

As ideias ou a informação?

3 Nov

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Hard Times por Matt Mason e grafismo brilhante de Nicholas Felton, da mainlogo

Portugal no mapa por boas razões

27 Out

internet

Portugal tem uma velocidade média de acesso que nos coloca entre os melhores do mundo, à frente de países como os EUA, o Canadá e a Alemanha. Tem ainda uma taxa de penetração média-baixa e um dos preços médios mais elevados.

É um bom sinal a nossa posição neste ranking e só surpreende quem nunca tiver reparado que na mesma área das tecnologias, a nossa rede multibanco, ou o sistema de registo e pagamento nas autoestradas, estiveram sempre um pouco à frente de praticamente toda a Europa.

Um contributo para a correcção da taxa de penetração, seria a descida dos preços para níveis mais aceitáveis e o investimento em zonas wi-fi nos espaços públicos geridos pelas autarquias, com um custo baixíssimo e um enorme retorno.

O sistema financeiro visto pelo Barclays

11 Out

O Barclays nunca deixará de ser aquele banco que deu nome a uma cor para uns azul, para outros verde, mas sempre “barclays”. Pois bem, é, preto-no-branco, sobre um falso cenário que se debruça este anúncio brilhante, fornecendo uma das melhores, mais sugestivas e sinceras imagens do sistema financeiro, que já se criou. Pena é que as pessoas não acreditem que esta é a realidade e o resto, a ficção.

A avaliar pelas valorizações bolsistas a que, ainda esta semana, Joseph Stiglitz chama “exuberantemente irracionais”, isso não está para breve. As pessoas comuns parecem imaginar que regressamos à normalidade, os especuladores que a ficção é para sempre. A consequência vísivel é o facto de a confiança não se ter quebrado e as pessoas não terem corrido a levantar as economias a bancos que não as poderiam reembolsar mas, sem qualquer pedagogia visível, qualquer relação do sistema financeiro com a economia é, mais do que nunca, mera coincidência. Uma regra básica afirma que, um dia, o mercado corrige estas valorizações de 30%.

Mas este é um sistema autista, incorrigível e não reformável.

Valsa de Bashir

5 Out

A consciência e a coragem de um realizador israelita, Ari Folman, que com 6 ilustradores e um orçamento diminuto, desenterra a história das profundezas da sua/nossa memória trágica e criminosamente selectiva e faz um filme de uma terrível beleza sobre a natureza da memória e da negação que permite que estas coisas aconteçam e se repitam.

Pela acção de apagamento poupamo-nos a um olhar para além do horizonte da sobrevivência e repousamos no simulacro em que aparentemente já expulsamos a violência, o mal, a negatividade e até a morte do nosso sistema de valores, como se cada um de nós não soubesse, no plano público e privado, que é precisamente a história que mais magoa.

Quase tão significativo como a exposição deste modus vivendi perverso, é o facto deste ser um filme israelita que denuncia um massacre onde, embora com a cumplicidade de Israel no terreno, os autores são cristãos libaneses. Não há lados bons neste conflito sem raízes históricas anteriores ao séc. XX, um século recheado de perseguições e violência mútuas. A existir um caminho para as conter seria este, mas quem são os que querem percorrê-lo?

Excerto da sequência do pomar, com “Arioso” de Bach em fundo. Inesquecível.

Lost in Translation

24 Set

Luís Amado, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Sócrates, deu instruções ao embaixador português na UNESCO, Manuel Maria Carrilho, para votar no candidato egípcio a secretário-geral da UNESCO, Farouk Hosny, que apoiado pela Liga Árabe, pela Organização da Conferência Islâmica e pela Organização da Unidade Africana, conseguiu cativar o voto da Itália de Berlusconi e o estranho apoio do Brasil, cujo Presidente Lula da Silva, outro pragmático homem de negócios, se recusou a patrocinar a candidatura do seu compatriota Márcio Brabosa, actual director adjunto da UNESCO.

Colocando a consciência acima da norma, Manuel Maria Carrilho desobedeceu, mas não levou a atitude, que aqui elogio, até à sua última e única consequência, a demissão. Hosny, pintor e ministro da Cultura do Egipto desde 1987, pratica abertamente a censura de filmes, livros e concertos no seu país e afirmou recentemente que queimaria pessoalmente todos os livros israelitas que encontrasse na Biblioteca de Alexandria, cidade onde nasceu. Debaixo da sua tutela, nenhum trabalho intelectual pôde ser tornado público sem licença das autoridades censoras religiosas do Instituto Teológico islâmico al-Azhar, elaborou-se a lei que prevê a pena de prisão em “caso de utilização abusiva da Internet” e três dos seus colaboradores directos, bem como o seu ex-chefe de gabinete, foram recentemente implicados no tráfico de tesouros arqueológicos egípcios.


Penso que Portugal, que terá votado como moeda de troca do apoio Egipcío à nossa entrada como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, anda de facto na companhia de gente pouco recomendável. No passado 1 de Setembro, Luís Amado assistiu em Tripoli às comemorações do 40º aniversário da chegada ao poder de Muammar Khadafi, e levou consigo a Força Aérea Portuguesa para participar no desfile comemorativo. Mais uma deplorável demonstração da falta de princípios da nossa política externa.

Farouk Hosny perdeu felizmente a eleição e Irina Gueorguieva Bokova, embaixadora da Bulgária em França foi eleita.

11’09”01

11 Set

O 11 de Setembro de 2001 foi algo que não nos atreveríamos nunca a imaginar. Em tempo real, imagens da catástrofe em toda a sua violência, atingiram-nos nas nossas casas. De um golpe, a aflição tornou-se universal.
(…) Evocar o eco planetário deste evento de outra forma que não a destas imagens terríveis, impôs-nos rapidamente um dever de reflexão. Uma reflexão que não poderia apenas cingir-se ao presente mas ser orientada ao futuro e fosse capaz de mudar de lugar, de viajar. Que respondesse às imagens com outras imagens.
Pedi assim a 11 conhecidos realizadores um olhar que partisse das suas culturas, das suas memórias, das suas histórias, da sua linguagem. O objectivo definido era “criar um filme de onze minutos, nove segundos e um frame – 11’09’’01 – em torno dos eventos do 11 de Setembro e das suas consequências” – Declaração do produtor.

Destaque para a forma como o olhar doce e triste de Sean Penn, o único americano que integra este trabalho, revela a capacidade de se rever ao espelho e consegue inspirar um respeito profundo. No comovente pano de fundo da tragédia pessoal e do alheamento daquele homem de idade, a representação da queda da torre através do percurso da luz que volta a iluminar o interior do apartamento, é uma imagem difícil de esquecer.
Ken Loach fala de outro 11 de Setembro no seu filme, o do Chile, onde na mesma data se cumprem 36 anos sobre o golpe de estado que, financiado e aprovado por Nixon e Kissinger, derrubou Salvador Allende através do assassinato e abriu caminho a uma ditadura sangrenta.

Vale a pena reflectir no horror do 11 de Setembro e naqueles a que se assistimos um pouco por todo o mundo. O memorial que este conjunto de filmes constitui, é um convite oportuno.

A Itália já não existe. Resta um estado de espírito indiferente a tudo.

24 Ago

O diário da Conferência Episcopal, o Avvenire, em editorial na primeira página sob o título “Indiferença tranquila”, comenta a morte dos 73 imigrantes ignorados por uma dezena de barcos que passaram por eles, nestes termos:

Quando hoje lemos sobre as deportações dos judeus sob o nazismo perguntamo-nos: seguramente as populações não sabiam. Mas estes comboios cheios, as vozes, os gritos nas estações, ninguém os via nem ouvia? Na época era o totalitarismo e o terror que faziam fechar os olhos. Hoje não. Uma indiferença tranquila, resignada, talvez mesmo uma aversão ao Mediterrâneo. O Ocidente tem os olhos fechados

O jornal católico prossegue dizendo que, “nenhuma política de controlo de imigração permite que a comunidade internacional deixe um barco carregado de náufragos entregue ao seu destino”. “Há uma lei do mar, bem mais antiga do que a codificada pelos tratados. Ela ordena: no mar, socorre-se”, sublinha, notando que, “pelo contrário”, este barco parece falar de uma outra lei: “Não parar, continuar”. Violar essa “antiga” lei “ameaça as nossas raízes fundamentais, a ideia do que é um homem e de como ele é precioso”.

Esta era uma tragédia anunciada que vem na sequência da lei denunciada pelo Manifesto dos Intelectuais Italianos a favor dos imigrantes. que afirma que “em virtude de uma decisão política, vinda de uma maioria efémera, as crianças nascidas de mulheres estrangeiras em situação irregular serão durante toda as suas vidas filhos de ninguém. Elas serão tiradas de suas mães e colocadas nas mãos do Estado. Nem o fascismo foi tão longe. As leis raciais instauradas por esse regime em 1938 não privavam as mães judias de seus filhos, nem as obrigava a abortar para evitar que tenham confiscadas suas crianças pelo Estado.”

O Senado italiano aprovou a lei que cria o delito de imigração clandestina passível de uma multa de até 10 mil euros além da expulsão imediata. A lei apela à denúncia das pessoas nesta condição e cria a base legal da sua perseguição. Na sequência da sua aprovação, surgiram os “City Angels”, brigadas que percorrem as ruas em busca de pessoas nesta situação, traduzindo o clima de intimidação, violência e delação, mas sobretudo revelando o país moribundo, alienado e sem valores que tolera Berlusconi.

Os emigrantes mortos eram originários da Eritreia, uma ex-colónia italiana que corresponde sensivelmente à antiga Abissínia. Portugal tem com esta região uma antiga relação nascida no contacto e apoio de D. João II ao reino cristão de Prestes João, que incluía na altura a Abissínia.

Uma linguagem para falar com Deus

22 Ago

Lisa Gerrard, dos extintos Dead Can Dance, canta numa linguagem inventada por si, aos 12 anos, através da qual fala com Deus. Quem, ouvindo-a, pode duvidar?

4.646 Kms através de um rosto que viu a China a pé

22 Ago

Informação adicional fornecida por Christoph Rehage:
– Nunca alcancei o meu objectivo original de chegar à Alemanha. Em vez disso, caminhei durante um ano e aproximadamente 4500km e, ultrapassado o deserto de Gobi, decidi parar de caminhar por agora.
– A distância entre Beijing e Ürümqi foi completada pelo bom e velho processo de ir pelo próprio pé. Há situações em que pode ver-me sentado num avião ou conduzindo um barco, mas são pausas que tive fazer na caminhada, fosse para me livrar da burocracia, fosse para cuidar de alguns haveres pessoais.
– Planeei esta viagem para um ano mesmo antes de a iniciar. Chegando tão longe quanto consegui foi uma experiência pela qual estou muito grato.
– A obtenção dos vistos necessários a uma viagem como esta não foi fácil e houve que regressar a Beijing algumas vezes para tratar desse assunto.
– As canções que uso no vídeo são: 1) Zhu Fengbo – “Olive Tree” e 2) The Kingpins – “L’aventurier” – visite o website dos Kingpins se desejar saber mais. São fixes na minha opinião.
– Este não é um “1 pic a day video” no sentido estrito, porque quis torná-lo mais vívido adicionando algum movimento. Por vezes ver-me-à a girar, outras está a acontecer algo em pano de fundo. Tentei capturar este momentos de forma a tornar o video mais interessante.
– O objectivo do projecto é de facto o meu “www.thelongestway.com” onde coloquei o meu diário de viagem, desde o 1º dia (9-Nov-2007) e descrevendo cada dia até ao final um ano mais tarde.

Profundamente perturbador

21 Ago

Estupidamente insensível e insano é isto.

Mesmo não se podendo apurar inteiramente a responsabilidade directa de Abdelbaset al-Megrahi, no atentado de Lockerbie, no qual morreram 249 pessoas de 21 países na explosão do avião e 11 pessoas no solo, Kadhafi, ao assumir sem remorso a responsabilidade do estado líbio, não deixou lugar a dúvidas sobre a autoria real desse atentado. Por esta razão, a Líbia indemnizou as famílias das 270 pessoas mortas em 2.7 biliões de dólares, qualquer coisa como 10 milhões de dólares por vítima. Nesse quadro, estas imagens definem o obsceno.

Doa a quem doer, esta é a diferença entre o governo escocês e o líbio. A superioridade de um Estado de Direito que aplica a Carta dos Direitos do Homem sobre um regime como o Líbio e quaisquer outros cuja concepção do mundo não passe por aí. E é precisamente aqui que se delimitam os campos.

Os custos escondidos da guerra

3 Jul

As guerras, embora transmitidas na TV se assemelhem muito a jogos de vídeo e possam parecer assépticas e muito tecnológicas, têm um custo real em vidas, em sofrimento, em fome, em carências, em estados traumáticos e sequelas de todo o tipo, que está ausente deste vídeo. Esta análise permite-nos apenas perceber a dimensão do custo financeiro. É quase inimaginável o que se poderia fazer, aplicando-o de outra forma.

Pois é…

2 Jul

Estados Unidos lançam ofensiva de larga escala no Afeganistão. Público

Pois é...

Gráfico Good Magazine

Bush era um resíduo anacrónico que os americanos varreram, elegendo Obama, the new american flavour. O anúncio da ofensiva, recorda a linguagem que antecedia as operações na guerra do Vietnam e cria apreensões reais. Abomino os Talliban, mas começa a pôr-se a questão de saber o que mudou realmente, sendo que esta guerra, como a do Vietnam, não pode ser ganha no terreno e os EUA tencionam aumentar de 32.000 para 68.000 o número de efectivos até ao final do ano.

PS! Curioso o apoio da Google a Obama, em contraste com o da ATT a McCain. Ambos foram generosamente apoiados pelo Lehman Brothers, que abriu falência no maior colapso da história.