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“Encontro silencioso de dois picos de montanha”

17 Nov

Podemos estar parados ou em movimento, que o essencial não é aquilo que temos à nossa frente, o que vemos, ouvimos, queremos, tocamos, dominamos. Isso é o que está aí, como horizonte, um semicírculo; mas as extremidades desse semicírculo são ligadas por uma corda, e o plano dessa corda atravessa o mundo. À frente, o rosto e as mãos olham a partir dela, as sensações e aspirações passam diante dela, e ninguém duvida de que aquilo que se faz nesse espaço é razoável, ou pelo menos possuído de paixão.

Ou seja, as circunstâncias exteriores pedem-nos para agir de uma maneira que qualquer um pode compreender; e quando nós, enredados nas paixões, fazemos coisas incompreensíveis, também isso está, à sua maneira, certo. Mas por mais perfeito, compreensível e acabado que tudo pareça ser, é sempre acompanhado pelo sentimento obscuro de se tratar apenas de uma metade. Falta qualquer coisa nesse equilíbrio, e o homem avança para não vacilar, como na corda-bamba. E ao avançar na vida e deixar atrás de si o que viveu, o que está por viver e o já vivido formam uma parede, e o seu caminho assemelha-se então ao do caruncho na madeira, que pode furar ou recuar, mas deixa sempre um espaço vazio atrás de si. E é nesta terrível sensação de um espaço cego e amputado atrás de todo o espaço cheio, nesta metade sempre em falta mesmo quando tudo é já uma totalidade, que podemos entrever aquilo a que se chama alma.

Robert Musil in O Homem sem Qualidades

Pedi que me liquidassem as contas e saí

12 Nov

– E em quem é que o senhor confia? – perguntou-lhe Morini.
– Nas pessoas que comem quando têm fome, suponho – disse o desconhecido.
Depois começou a explicar-lhe que, em tempo, tivera um trabalho numa empresa que se dedicava a fabricar canecas, só canecas, das normais e daquelas que têm um slogan escrito ou uma frase ou brincadeira, como por exemplo: Ah, ah, ah, está na hora do meu cofee-break, ou O papá gosta da mamã, ou A última do dia ou da vida, umas canecas com legendas insípidas, e que um dia, certamente devido à procura, mudou radicalmente as frases das canecas e além disso começou a incluir desenhos junto às frases, desenhos por colorir a princípio, mas depois graças ao êxito desta iniciativa, desenhos coloridos, de índole espirituosa, mas também de índole erótica.
– Até me aumentaram o salário – disse o desconhecido. – Essas canecas existem em Itália? indagou depois.
– Sim, respondeu Morini -, algumas com legendas em inglês e outras com legendas em italiano.
– Bom, corria tudo sobre rodas – prossegui o desconhecido. – Nós trabalhavamos com mais gosto. Os encarregados também trabalhavam com mais gosto e o chefe via-se que andava feliz. Mas ao fim de uns dois meses de estar a produzir essas canecas, apercebi-me de que a minha felicidade era artificial. Sentia-me feliz porque via os outros felizes e porque sabia que tinha de me sentir feliz, mas na realidade não estava feliz. Pelo contrário: sentia-me mais infeliz do que antes de me aumentarem o salário. Pensei que estava a passar uma época má e tentei não pensar nisso, mas ao fim de três meses já não consegui continuar a fingir que nada acontecia. O meu humor azedou-se, tornei-me mais violento do que antes, qualquer coisinha me aborrecia, comecei a beber. Então, enfrentei o problema cara a cara e finalmente cheguei à conclusão de que não gostava de fabricar aquele determinado tipo de canecas. Garanto-lhe que à noite sofria que eu sei lá. Achava que estava a ficar louco e que não sabia o que fazia nem o que pensava. Ainda tenho medo de alguns pensamentos daquele tempo. Um dia enfrentei um dos encarregados. Disse-lhe que estava farto de fabricar aquelas canecas idiotas. O tipo era boa pessoa, chamava-se Andy, tentava sempre dialogar com os trabalhadores. Perguntou-me se eu preferia fazer as canecas que fazíamos antes. É isso mesmo, disse-lhe eu. Estás a falar a sério, Dick? disse-me ele. Muito a sério, respondi-lhe. As canecas novas dão-te mais trabalho? De modo algum, disse-lhe, o trabalho é o mesmo, mas antes as malditas canecas não me magoavam como agora me magoam. O que é que estás a querer dizer?, perguntou Andy. Que antes as filhas da puta das canecas não me magoavam e agora estão a destroçar-me por dentro. E que raio as torna tão diferentes, tirando que agora são mais modernas?, disse Andy. Precisamente isso, respondi-lhe, antes as canecas não eram tão modernas e embora a sua intenção fosse magoarem-me não conseguiam fazê-lo, não sentia as suas alfinetadas, em contrapartida agora, as putas das canecas parecem samurais armados com aquelas espadas fodidas de samurai e estão a pôr-me maluco. Enfim, foi uma longa conversa – concluiu o desconhecido. – O encarregado ouviu-me, mas não entendeu uma única palavra. No dia seguinte, pedi que me liquidassem as contas e saí da empresa. Nunca mais voltei a trabalhar. O que é que acha?

Roberto Bolaño in 2666, um grande livro com uma capa para esquecer.

Great Ideas III: Phil Baines + David Pearson

11 Nov


Os meus tesouros da 4091979365_364aa0f94b_o

De comer e chorar por mais

11 Nov

Precisará David Pearson de ser apresentado?
Mesmo que não reconheça o nome, possívelmente reconhecerá alguns dos trabalhos da Penguin em colaboração com Phil Baines.
Quando os livros da colecção “Great Ideas” chegaram às bancas, não se assemelhavam com nada que existisse. Cada capa era única e harmonizava-se perfeitamente com a série. Usando capas finas, uma palete de cores restrita, lançavam um sorriso ao passado da Penguin, mas respeitavam profundamente o espírito dos livros e do tempo em que foram editados pela primeira vez. Estes livros estiveram à venda por algum tempo na Fnac, mas desapareceram e não foram repostos.
David Pearson, embora tenha a sua empresa, continua a colaborar com a Penguin e faz ainda capas para as Éditions Zulma e, por vezes, para a White’s Books. Além de continuar a dar-nos um enorme prazer.

A história repete-se ou por que razão não se inventa a história?

14 Out

Na verdade, o que é que Ulisses poderia ter dito a Clarisse?
Ficara calado porque ela tinha despertado nele um estranho desejo de pronunciar a palavra Deus. O que queria dizer era mais ou menos: Deus não encara o mundo literalmente, para Ele o mundo é uma imagem, uma analogia, uma figura de que precisa de se servir por razões insondáveis, naturalmente sempre de forma insuficiente. Não podemos tomá-Lo à letra, nós é que temos de encontrar a solução para o problema que Ele nos coloca. Perguntava-se se Clarisse estaria disposta a aceitar isto como um jogo de polícias e ladrões ou de índios e cowboys. Com certeza. Se alguém desse o primeiro passo, ela segui-lo-ia, atenta, como uma loba.
Mas tinha ainda outra coisa na ponta da língua, a propósito de certos problemas matemáticos que não permitem uma solução geral. Poderia ter acrescentado que via o problema da vida humana como sendo deste tipo. Aquilo a que se chama uma época – sem sabermos se estamos a falar de séculos, de milénios ou do espaço entre a escola e os netos -, esse rio largo e incontrolado de circunstãncias múltiplas, significaria então apenas uma sequência desordenada de tentativas de solução parciais, insuficientes e isoladamente falsas, das quais resultaria, se e quando a humanidade fosse capaz de as fundir, a solução correcta e total.

“O Homem sem Qualidades” de Robert Musil

Em Busca do Tempo Perdido

5 Set

Rasgo a embalagem do mini Mars protegendo os dedos. Levo-o à boca na ideia fixa de o fazer durar eternidades e o ritual abre uma cortina sobre o tesouro à minha guarda: tempo e memória.

“Durante muito tempo fui para a cama cedo”, primeira frase de “Do lado de Swan”, abre o esconderijo onde transmuda sensações em sentimentos, trabalha o fluxo e refluxo da memória tomado de ondas de desejo e ciúme ou momentos de euforia estética e sobrepôe jardins e insinua miragens de onde entram e saiem personagens de sociedade, ociosos e desocupados, cuja única actividade parece ser a de lhe fornecer as evocações.

“Mas no mesmo instante em que aquele gole, misturado com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci (…). Invadira-me um prazer delicioso, único, sem noção de causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua liberdade, tal como faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Deixei de me sentir medíocre, contingente, mortal”.
Os goles seguintes começam a perder a magia. Marcel larga a chávena e impõe-se a tarefa de analisar a sensação. “Torno a apresentar-lhe (ao espírito) o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que tenha desancorado a uma grande profundidade; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas”. Esforça-se para extrair da sensação do gosto a recordação visual do momento que estava na origem daquilo. “E de súbito a lembrança surgiu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (…) a minha tia Léonie me oferecia (…) e mal reconheci o gosto (…), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde ficava o meu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o meu jardim (…) E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia de água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se enchem de cores, se diferenciam, se tornam flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim todas as flores do nosso jardim e as do parque de M. Swann, e o nenúfares de Vivonne, e a boa gente da aldeia e as suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá.”

Proust, doente crónico de asma, passava a vida no quarto onde, vivendo na memória, ia descobrindo que deitado na cama a pensar, a natureza das coisas e de si se revelava sózinha. Assim mergulhado, perdia a noção do tempo e diluía-se na escrita, descobrindo a anatomia das coisas. É sobre a inexactidão da memória que ocorre quando a inteligência reescreve a experiência, que criamos memória sinceras mas não necessariamente reais. Consciente disso, revia continuamente tudo porque sabia que enquanto houvesse memória, as suas margens seriam modificadas para se enquadrarem naquilo que sabemos agora e, desta forma, cada parte do romance e das nossas memórias é inseparável do momento em que é recordada. Carregamos a consciência de distorcermos a memória de uma coisa para a poder recordar.

Podia dizer que isto vinha a propósito dos 100 anos do início da obra monumental de Proust, mas não. Foi este Mars. Se calhar nunca comi o chocolate antes ou talvez não existam versões mini do chocolate escondidas em armários de canto, mas ia jurar que me sentava assim, no chão frio de tijoleira, olhos postos na televisão e esperava que os restos durassem ainda no céu da minha boca. Isto quando o tempo, ele próprio, fazia sentido.

A propósito de “Caim”

1 Set

A apresentação, por Saramago, do livro “Caim” coloca uma questão incontornável: poderá um mau leitor ser um grande escritor?

Partindo da assumpção verdadeira de que realmente quase ninguém leu a bíblia, Saramago dirige aos que sobram uma afirmação espantosa mas pouco original “Quem leu a Bíblia, sobretudo o Pentateuco, percebe que tudo aquilo é absurdo e mais que absurdo, em muitos casos, criminoso”. Do estado interpretativo de Saramago, o mínimo que se pode dizer é que é insuficiente.

A Bíblia é um livro de narrativa mista no qual o narrador se não confunde com o(s) autor(es). Esse livro que constitui uma parte incontornável da herança do ocidente, seja em Isaías ou Jeremias, seja no Deuterónio, coloca-nos perante uma interpretação teológica da história, orientada para uma ética, envolvida num extraordinário poema. Nesta medida a pergunta “Que Deus é este que manda Abraão sacrificar o seu filho Isaac“ limita-se a repetir algo que Mark Twain disse com deliciosa ironia há muito tempo, e revela um leitor que não pressente uma dimensão essencial da Bíblia, a das sombras que somos e das sombras que perseguimos.

Uma vez que Saramago se apropria dos temas e da sua inesgotável plasticidade temporal, tudo recomendava que avaliasse as diversas hermenêuticas da Bíblia e assumisse que compreender um texto é compreender-se diante dele, expondo-se e recebendo dele um eu tão mais vasto quanta a capacidade que tivermos de, como leitores, correr riscos. Se a tomar no sentido literal não logra sequer uma ténue aproximação ao significado e, sem o realizar, desrespeita o extraordinário legado que constitui e coloca-se mais perto da ignorância. Flaubert conta que Santo Antão, atormentado, por 5 vezes abriu a Bíblia em busca de protecção e em todas elas as mãos lhe tremeram e o eremita a fechou, compreendendo que “o Livro é o lugar da tentação”. É exactamente por não olhar a essa dimensão que Saramago se diminui e torna evidentes algumas limitações.

Reflexo do próprio medo, necessidade de obter um efeito adicional na promoção de livros que parecem ter de sair anualmente por contrato, afirmar banalidades como: “Deus não existe, está na nossa cabeça, foi por nós inventado”, quase incorre no argumento ontológico de Santo Anselmo. A forma como Deus lhe frequenta a obra, e o postulado obsessivo de Saramago sob o tema, parecem produzir o efeito inverso, trabalhando afincadamente no sentido de ir fornecendo provas da Sua existência e ilustrando involuntariamente a ideia de que nos “tornamos escravos da nossa invenção”, incluindo-se.

A Saramago, que reconhece que os seus valores estão “empapados” de mentalidade cristã, escapou uma ideia: os cristãos só são piores porque têm obrigação de ser melhores. É que, até para qualquer agnóstico como eu, que celebre o Natal, a simples imagem de uma mãe com um bebé terá sempre o sabor do sagrado, e cada metáfora do Velho Testamento conterá sempre a sugestão da sabedoria dos seus múltiplos níveis de leitura, enriquecida da brandura que o Novo Testamento lhe contrapôs. Não gostava de pensar que este livro contorna o enigma e evita essa sensação de que, mesmo sem alcançarmos, haverá nesta história algo que vale a pena compreender. Há uma passagem da Bíblia que, em minha opinião, diz o que é importante dizer neste momento:

“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venham os dias maus, e cheguem os anos, dos quais dirás: ”Nenhum prazer tenho já neles”;
antes que escureçam o sol e a luz, a lua e as estrelas, e voltem as nuvens depois da chuva, e que os guardas da casa comecem a tremer, e então se dobrem os mais fortes;
quando as mulheres deixarem de moer, por já poucas restarem, e virem o escuro aqueles que olharem da janela;
quando a porta da rua se fechar, e enfraquecer no moinho o som da mó, quando te levantares ao cantar de um pássaro e emudecerem as canções;
antes que a altura faça medo e haja sobressaltos no caminho, e esteja em flor a amendoeira, e comece a inchar o gafanhoto, e a perder o seu sabor a alcaparra, e a encaminhar-se o homem para a sua casa eterna, e a sair à rua aqueles que o vão chorar;
antes que se rompa o fio da prata e se quebre a bacia de oiro;
antes que na fonte se quebre o cântaro, e se desenrole a roldana da cisterna;
antes que o pó volte à terra de onde veio e que o espírito volte a Deus que o concedeu.

Vaidade das vaidades – diz Cohelet – tudo é vaidade.

Segredo de Escultor

10 Jul

“Uma história contemporânea, provavelmente francesa, mostra um escultor que manda vir um grande bloco de pedra e deita mãos ao trabalho.
Uns meses mais tarde termina a escultura de um cavalo.
Uma criança que esteve a vê-lo a trabalhar, pergunta-lhe então:
Como sabias tu que havia um cavalo dentro da pedra?”

Jean-Claude Carrière in Tertúlia de Mentirosos

Estilhaços do som que aprendemos a ouvir

29 Jun


“No princípio, A Sagração é sedutoramente frágil. O fagote trémulo, tocando no registo mais alto (parece um clarinete rachado), evoca uma velha melodia folclórica lituana. Para o ouvido inocente, esta melopeia cadenciada soa como uma promessa calorosa. O Inverno acabou. (…) Em escassos segundos, as floreadas melodias do fagote são abafadas por um ritmo epiléptico, com as trompas a colidir assimetricamente contra o ostinato. (…) A tensão sobe, sobe, sobe, mas não tem por onde escapar, o ímpeto irregular é tão desapiedado como a banda sonora de um apocalipse, e o ritmo cresce, até um fortíssimo fatal.
Foi aqui que o público da estreia desatou a vaiar. A Sagração tinha dado origem a um motim. Uma vez começadas, as vaias e os apupos nunca mais pararam. (…) A dissonância musical foi suplantada pela dissonância real. (…) Diaghilev ligava e desligava freneticamente as luzes. O efeito intermitente não fez mais do que aumentar a loucura. Vaslav Nijinsky, o coreógrafo do bailado, estava ao lado do palco, empoleirado numa cadeira a gritar o ritmo para os bailarinos. Eles não o podiam ouvir, mas não tinha importância. Ao fim e ao cabo, esta dança era sobre a ausência de ordem. Como a música, a coreografia de Nijinsky era uma rejeição autoconsciente da sua arte (…) o público via apenas perfis dos bailarinos, os corpos curvados para a frente, as pernas penduradas, os pés virados para dentro a martelar no palco de madeira.
(…) Apesar da multidão presente na estreia presumir que a beleza era imutável – havia apenas alguns acordes mais agradáveis do que outros – Stravinsky sabia que não era assim. (…) apercebeu-se de que a nossa noção de beleza é maleável e que as harmonias que adoramos e o os acordes em que confiamos não são sagrados. Nada é sagrado. A natureza é barulho. A música não é mais do que um estilhaço do som que aprendemos a ouvir.

Jonah Leher in Proust era um Neurocientista

Cartas da Terra

1 Jun

“Este é um lugar estranho, um lugar extraordinário e interessante. Não há nada que se assemelhe por aí. As pessoas são todas loucas, os outros animais são todos loucos, a terra é louca, a própria Natureza é louca.

O homem é uma curiosidade maravilhosa. Quando está no seu melhor, é uma espécie de anjo niquelado de baixa categoria; no seu pior, é inqualificável, inimaginável; e, tudo considerado e a toda a hora, é um sarcasmo. Apesar disso, intitula-se de modo lisonjeiro e com toda a sinceridade, a “mais nobre criatura de Deus”. É a verdade, isto que vos conto. E esta ideia não é novidade nele: ele tem-na discutido ao longo dos tempos e acreditado nela. Acreditado nela, e não encontrou ninguém em toda a sua raça que se risse disso.”

Carta do Arcanjo Satanás in Cartas da Terra de Mark Twain

Histórias do Bom Deus

19 Maio

Para ter pelo menos uma alegria depois de tanta desgraça, ordenara às mãos que Lhe mostrassem o homem antes de o entregarem à vida. Repetidamente perguntava, como as crianças quando jogam às escondidas: ‘Já posso?’ Mas em resposta apenas ouvia o moldar das mãos e ficava à espera: Parecia-lhe uma eternidade. E, de repente, viu algo escuro cair através do espaço como se partisse de junto de Si. Cheio de um mau pressentimento, chamou as mãos. Elas vieram, todas sujas de barro, quentes e trémulas. ‘Onde está o homem?’, gritou-lhes. Então a direita culpou a esquerda: ‘Tu é que o deixaste cair!’ ‘Ora’, disse a esquerda irritada, ‘quiseste ser tu sózinha a fazer tudo, não me deixaste intervir’. ‘Tu devias era tê-lo segurado!’ E a direita levantou-se. Mas depois caiu em si, e ambas as mãos disseram, superando-se: ‘O homem estava tão impaciente! Queria era viver. Não conseguimos fazer nada dele e, naturalmente, estamos inocentes.’

de Rainer Maria Rilke

Bêbados e polícias

7 Maio

Dizes não ter religião, mas, uma ou outra noite por semana, lá voltas a telefonar à polícia para fazer queixa dos bêbados do parque. Lá estão eles outra vez. Já passa da meia-noite e eles soltam gritos incoerentes e cantam para as estrelas.
O que tu não sabes é que, sempre que os bêbedos deixam a taberna, o empregado de bar os avisa:
Vocês portem-se bem. Não queiram levar uma sova da polícia. Não se deixem apanhar!
Oh, não – dizem os bêbedos. – Deixamos lá, agora.
Todavia, chegados à rua, os bêbedos vêm as estrelas e não se contém. Contornam o lago aos bordos, cantando louvores. Como adoram o universo e os seus mistérios! Sejam quais forem as suas palavras exactas, o que cantam é sempre Obrigado!
Mal a polícia chega, os bêbedos desatam a rir. Não tentam escapar. Os polícias prendem-nos e levam-nos para a cadeia, onde os bêbedos dormem para curar a piela. Ao acordar, pagam as suas multas, vão para casa, e dormem mais um pouco.
Por fim, têm de se preparar para o trabalho. Lavam-se e fazem a barba, estes homens antes bêbedos e agora completamente sóbrios. Vestem os uniformes, ficam as pistolas e casse-têtes aos cintos. Já na estação, o sargento do turno da noite diz-lhes:
Houve mais queixas de bêbedos no parque. É preciso acabar com isto de uma vez por todas. Quando os trouxerem, não se ponham com delicadezas.
Oh, não – dizem os polícias. – Pomos lá agora.
Todavia, chegados ao parque, escutam os louvores e não se contém. Ao prenderem os bêbedos, os polícias certificam-se de que as algemas não ficam muito apertadas. Conduzem os celebrantes às suas celas como se de irmãos se tratassem.
Aos olhos desta igreja, são efectivamente irmãos. Beber e prender são os dois sacramentos da sua religião. E tu, com os teus telefonemas, és, sem saber, um membro secreto da congregação.

Bruce Holland Rogers. Informação adicional em www.livrosdeareia.com

Exercício

7 Maio

O Stan percorreu 29,3 quilómetros da sua casa em Toronto até à casa de um amigo residente num prédio em Mississauga. Antes de sair do carro, Stan coloca uma máscara cirúrgica, luvas de cabedal e óculos escuros. O Stan usa a máscara porque está preocupado com a pneumonia atípica, uma doença com uma taxa de fatalidade global entre os sete e os quinze porcento -as estimativas variam. Também está preocupado com a febre hemorrágica do Ébola, que tem uma taxa de fatalidade global de cerca de noventa por cento. Dois pacientes, quase recuperados da pneumonia atípica, encontram-se a 47,2 quilómetros do Stan, no Hospital Geral de Toronto. Os pacientes com Ébola mais próximos encontram-se em África, a 12.580 quilómetros de distância.
O Stan não está preocupado com a Sra. Imelda Foster, que limpa um apartamento no último andar do prédio. Se o Stan conhecesse a Sra. Foster, daria valor ao seu entusiasmo pela lixívia como desinfectante. Os olhos da Sra. Foster já não são  o que eram, mas ela compensa os problemas de vista esfregando a mesma superfície repetidamente.
O Stan usa luvas porque o preocupam as mordeduras das aranhas. A única aranha venenosa do Ontário é a viúva negra do norte, a Latrodectus variolus, que produz um veneno quinze vezes mais tóxico que o de uma cascavél. Embora a aranha injecte muito menos veneno do que uma cobra quando morde, quase um por cento dos ataques da L.variolus são fatais. As fatalidades concentram-se nos muito novos ou muito doentes.
O Stan tem trinta e sete anos e está em excelente forma física. Ainda assim, evita meter as mãos em sítios onde não pode ver e, pelo sim pelo não, usa luvas.
O Stan não está preocupado com Tanya Scott, a menina de quatro anos que vive no apartamento do último andar, onde a Sra. Imelda Foster faz as suas limpezas. Se Stan soubesse da existencia da pequena Tanya, daria valor à diligência com que a Sra. Foster aspira toda a casa, até a varanda. Não há uma única teia de aranha no apartamento.
O Stan usa óculos escuros. Estima-se que o Sol continue a brilhar por mais cinco mil milhões de anos, ao fim dos quais a sua luminosidade aumentará para o dobro, o que preocupa Stan.
O Stan não está preocupado com o cisne de vidro, pesando 457 gramas, que Tanya Scott tirou ontem do seu lugar na mesinha da sala, deixou no parapeito da varanda para ver cintilar ao sol, e do qual se acabou por esquecer. Quando aparece para limpar a varanda, a Sra. Foster não repara no cisne e derruba-o do parapeito com o tubo do aspirador. No instante em que o cisne inicia a sua descida, Stan encontra-se a 38 metros do ponto directamente por baixo da figurinha de vidro, e avança em linha recta nessa direcção, a uma velocidade constante de 3,2 quilómetros por hora. O objecto em queda acelera a um ritmo de aproximadamente 10 metros por segundo. O parapeito ergue-se 112 metros acima do passeio.

PERGUNTA: será que o Stan se preocupa com o que deve?

Texto retirado a partir de um PDF para download em www.livrosdeareia.com
Livro do mesmo autor: Bruce Holland Rogers, “Pequenos Mistérios”. É favor comprar.