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O grande-escritor, visto de frente

22 Out

“Meu caro amigo” composta por Francis Hime para Chico Buarque, aqui num inspirado arranjo de Eduardo Jordão

A verdadeira dificuldade na vida de um grande escritor surge apenas quando age como homem de negócios na vida intelectual, mas, por tradição, de forma idealista;
(…)
O homem de negócios ambicioso encontra-se hoje numa situação difícil. Se quiser estar à altura das antigas forças do ser, tem de articular a sua actividade com grandes ideias. Acontece que hoje já não existem grandes ideias em que se acredite sem contradições, pois este nosso presente céptico não acredita, nem em Deus, nem na humanidade, nem em coroas nem na moralidade – ou então acredita em tudo isso ao mesmo tempo, o que vem dar ao mesmo. Assim sendo, o homem de negócios, que não está disposto a abdicar de grandes ideias que lhe sirvam de bússola, teve de recorrer à estratégia democrática de substituir o incomensurável efeito da grandeza pela grandeza mensurável dos efeitos.

“O Homem sem Qualidades” de Robert Musil

Vídeo via A Barriga de um Arquitecto

O mau costume de se falar do que não se entende

20 Out

Uma religião é como a língua em que nascemos. Estamos nela, queiramos ou não, em casa. O primeiro passo para interpretar a Bíblia, passa portanto por reconhecer que o carácter historicamente limitado da nossa situação nos coloca na posição de não existir maneira de falar que esteja fora da nossa língua natural. Disso mesmo é testemunho a triste frase de Saramago, “a Bíblia é um manual de maus costumes e um catálogo do pior da natureza humana”, através da qual não consegue escapar ao referencial Judaico-Cristão. Vale a pena determo-nos nesta afirmação pela gravíssima ignorância, desonestidade intelectual e arrogância em que persiste.

À época de Moisés existiam 2000 anos de especulações e meditações sobre códigos e tradições milenares que se manifestam, por exemplo, nas grandes diferenças entre a teologia da Lei de Moisés e a da benção e da promessa de Abraão. Partindo da súmula do conhecimento antigo dos Egípcios e dos Sumérios, textos como os Provérbios, os Salmos, o Eclesiastes e Job, são percorridos por uma forte tensão entre a cultura judaica, a persa e a helenística, podendo e devendo ser lidos em contraponto com os escritos de Homero, Hesíodo e os pré-socráticos.

É à luz dessa narrativa histórica, necessariamente violenta, que o povo judaico se compreende a si mesmo. Mas, muito para além disso, a Bíblia é um livro plural e complexo onde, por mais estranho que possa soar a muita gente, e Saramago escamoteia este facto, podemos visitar a expressão amorosa e erótica na corte de Salomão, no Cântico dos Cânticos, coisa que descobri com Herberto Hélder na “Poesia Toda”, bem antes de me interessar pela matéria agora em questão. Da mesma forma, num livro como o de Job, não nos sentimos longe de Melville (o Leviatã como Moby Dick). Para o realizar, esta extraordinária compilação de textos usa o que tinha à sua disposição para se explanar num registo de sabedoria largamente dissimulado sob uma narrativa que, como em quase todas as obras clássicas, nos diz apenas algo que destapa sucessivos níveis interpretativos, inesgotáveis de significados.

A Biblia não celebra de facto um Deus compassivo, até porque muitas das suas histórias são experiências mitigadas. O Livro de Job, onde não mora qualquer conforto, e que lido na sua justa dimensão se revela como uma forma de aquisição da consciência de si próprio, um homem com a casa em ruínas, os filhos assassinados e o corpo coberto de chagas, ouve da mulher a pergunta “Persistes ainda na tua integridade? Amaldiçoa Deus e morre”. Neste, como em outros extraordinários pedaços de literatura, mora a história de um Deus ausente, na mesma medida em que não possuímos uma linguagem para falar com Ele e nos ausentamos Dele ou, se se quiser, de nós próprios. Dito de outra forma, Saramago ignora o facto de a “fera” morar no próprio poema, grande demais para ele porque, do cimo de uma confrangedora ingratidão e leviandade, leva para esta leitura a reduzida bagagem de que dispõe e ostenta, realizando-a de modo idêntico ao das pessoas que regularmente me batem à porta para me “falarem” da Bíblia.

É na qualidade de agnóstico que me pronuncio sabendo, apesar de tudo, que a consciência moral nos fala de mais longe do que nós e que isso constitui a nossa definição civilizacional. É relevante dizê-lo porque, tendo pensado, durante anos, ser tão clara a natureza cruel do Deus do Antigo Testamento, quanto a sua oposição ao Deus a que Jesus se referia como Pai, acredito hoje podermos estar gratos à Igreja por ter rejeitado a proposta de Marcião de Sinope, para quem a novidade do cristianismo seria tal, que podia dispensar o seu suporte prévio, rejeitando o Antigo Testamento.

Simplificando a coisa ao nível de Saramago, temos então para acabar que, não sendo a Bíblia apenas o legado do Cristianismo, um Cristão acredita, um Judeu confia e um Muçulmano obedece. Saramago não virá, certamente, a pousar os olhos no Talmude, trabalho sério a partir do qual poderia aceder à compreensão de que existem, ao longo da história, inúmeros processos cumulativos de interpretação e questionamento da Bíblia. Resta perguntar se decidirá algum dia atalhar desta forma no trabalho interpretativo do normativo do Corão, ou se irá continuar na via rentável e segura, contrariando as quedas de vendas e escondendo-se daquilo que pretensamente o revolta.

PS! Recomenda-se a leitura do comentário de Richard Zimler a este respeito