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“Odeio as viagens e os exploradores”

4 Nov

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Claude Lévi-Strauss, que agora faleceu com 100 anos, constitui um bom exemplo de que cada vez mais se celebra nomes e etiquetas, em detrimento do pensamento que está por trás deles. Sarkozy, um dos novos modelos de primeiro-ministro que circulam por essa europa fora, deslocou-se ao seu apartamento para lhe soprar as velas do 100º aniversário e o ministro dos negócios estrangeiros, solícito, financiou seminários com o seu nome em locais tão distantes como a Islândia ou a Índia. Lévi-Strauss foi um personagem complexo que se presta mal a apropriações seja de quem for, mas o despudor repete-se por todo o lado.

Surpreendentemente pouco empenhado durante a II Guerra Mundial, apesar da actividade anterior no movimento socialista francês, canalizou o seu entusiasmo para a antropologia. A humilhação da queda da França e a perseguição aos judeus durante o governo de Vichy, a que se somaram a desilusão com a filosofia e a arte, não terão sido alheias ao seu percurso posterior.

Em 1955 escreve “Tristes Trópicos”, um livro de antropologia cultural que é, ao mesmo tempo, tanto um livro de viagens quanto um itinerário iniciático, um registo autobiográfico e uma obra literária que se pode filiar em Montaigne e Rousseau, ou em Conrad, e marca uma viragem na sua carreira e no reconhecimento do seu trabalho. Neste ensaio, baseado nos dados recolhidos junto dos Ameríndios cuja complexidade o deliciava, fornece exemplos como o do mito sobre as origens do porco-selvagem que se relaciona quer com as regras do casamento, quer com um outro mito acerca dos benefícios de cozinhar os alimentos, procurando estabelecer o mito como a palavra estruturante que sobrevive ao tempo e assegura a continuidade do grupo e da espécie.

Do seu ponto de vista, o pensamento humano seria governado pela capacidade de estruturação do cérebro humano, mas não poderia explicar-se por ela e, a esta luz, os mitos seriam registos da verdadeira história dos principais esforços filosóficos da humanidade. Esta tese é fácil de compreender à luz das lendas heróicas e dos contos gauleses transcritos no séc. XIV a partir da tradição oral e vertidos no Mabinogion e até, para bater de novo num tema recente, no Velho Testamento.

O seu olhar “etnográfico” conduziu ao rompimento definitivo com a esquerda radical no Maio de 68, no decorrer do qual, chocado com o corte de árvores para se fazerem barricadas, com as universidades transformadas em lixeiras, com o trabalho intelectual paralisado, manifesta o seu juízo de valor sobre os acontecimentos, na frase “uma vez passado o primeiro momento de curiosidade e cansado de brincadeiras, o Maio de 68, repugnou-me”.

A par do humor incómodo expresso no cabeçalho deste post, a sua aura de ecologista granjeada na afirmação da necessidade de respeito pelos equilíbrios existentes, a sua atitude céptica perante a arte e o papel individual do artista, o seu confronto filosófico com intelectuais como Sartre, são marcas de um pensamento que mudou algo na nossa forma de vêr o terceiro-mundo, a natureza, a linguagem e o papel e importância da antropologia. Devo-lhe a minha primeira opção académica e o decorrente fascínio pela antropologia.

O homem é a medida de todas as coisas *

21 Out

A expressão “tempo é dinheiro” tornou-se aceitável, mas na verdade não o é.
A obsessão pelo tempo enche-nos o dia no acto de contar, medir, pesar e reduzir valores não quantificáveis a outros que o sejam. Tudo o que parece calculável, rigoroso ou científico, de facto raramente o é, mas repercute-se num progressivo abandono do humano, limita a vida em largura e empobrece algo que, por natureza, não é renovável.

Sem compreendermos e defendermos que a vida própria é, em si, uma ocupação, uma tarefa que ninguém pode fazer por nós, não logramos sequer alcançar a liberdade de a viver, bem ou mal.

* Protágoras

Desactivar o Facebook

1 Out

Uma das definições de sabedoria que mais me agrada, é a de conseguir “participar de” ou atingir uma espécie de quietude em si mesmo. Um tipo de quietude eventualmente emanada de Deus, mas em todo o caso auto-referencial. Uma quietude qualificada como uma vida, em oposição à formulação de Santo Agostinho de uma vida condenada à inquietude: “in experimentis volvimur”, de prova em prova.

“Todo o Ser no conjunto do mundo é um Tempo separado num contínuo. E dado que o Ser é Tempo, eu sou o meu Ser-Tempo”

A ideia, expressa nesta citação de Eihei Dogen, no séc. XII, postulava que a substância e o eu são postos em causa pelo movimento, mas não podia antecipar que, nove séculos mais tarde, num tempo em que era suposto não sentirmos a angústia do aborrecimento ela se amplia todos os dias através da circulação da informação.
Sem sequer nos apercebermos, está em marcha um mecanismo que torna cada vez mais impraticável a quietude e o desfrute, indistinguível a amizade de um mero contacto. Parece não existir qualquer possibilidade de nos escondermos do movimento e não resta nenhuma circunstância que o detenha no seu acto de transformar tudo na sua aparência, reduzindo a pessoa ao “avatar” que desfila numa cada vez mais longa lista.
Quando a velha fómula de Heidegger de “estar-no-mundo” como “estar-na-complexidade” se amplia até o “estar-no-caos” ou pior, até este insubstancial movimento hipnótico colectivo através do qual confirmamos o pedido de amizade de alguém, reduz-se o significado e pouco nos restitui o exercício de prestar atenção ou pensar. Com amigos verdadeiros no mundo real, só temos de escolher o que fazemos com o nosso “Ser-Tempo” e “desactivarmo-nos”, salvaguardando, na medida do possível, o nosso espaço privado no mundo “off-line”. Foi o que fiz hoje.

Daniel Dennett e Darwin

27 Jun

Ou de como um bom design não requer um designer inteligente.

21 Gramas

26 Jun

As grandes religiões encaram a morte com tristeza, embora alimentem a ideia de uma vida para além dela. A ciência, por sua vez, não provou a improcedência desta crença. Na nossa cultura, lidamos todos com o doloroso facto de algo nos ser tirado com a morte de alguém que nos é querido, e somos afinal, crentes ou não, cépticos com a “outra vida” ou pelo menos com a bondade da mesma.
A ideia de uma alma separada do corpo, é uma idéia socrática mas está tão profundamente inscrita em nós que se confunde com aquilo que realmente a Bíblia diz. Sócrates baseava a indestrutibilidade da alma na sua natureza una e imaterial, uma idéia poderosa que influenciou os pensadores cristãos e chegou, numa forma modificada pela doutrina da igreja, até nós. Mas o que o Velho Testamento realmente afirma é a convicção de que Deus nos fará regressar à vida após a morte. Estas duas noções são bastante distintas, sendo que a da Bíblia requer imenso espaço. Na acepção do filósofo uma alma imortal, não carece de ressureição. Na de S. Paulo, nada resta de nós após a morte e a esperança reside na hipótese de que Deus, à semelhança do que fez com o Filho, nos ressuscite atribuindo-nos uma vida eterna.
21 gramas é aparentemente, e socorrendo-me do belíssimo filme de Iñarrito, o peso que perdemos instantâneamente quando morremos. Um maço de tabaco. MacDougall afirma esta teoria da alma que se solta, enquanto os desmancha-prazeres reduzem o fenómeno a uma perda de água que resulta da subida de temperatura corporal no momento em que o fluxo sanguíneo cessa de ser arrefecido pelos pulmões, imagem plausível, mas muito menos atraente.
21 é também o nosso século. Há muito que sabemos ser “feitos da matéria das estrelas” e esta convicção sugere uma abordagem tão científica quanto poética de como a nossa vida continua e alimenta um perpétuo círculo que se reinicia no momento em que somos pais e se prolonga quando, de uma forma ou outra, incorporamos a natureza com a nossa matéria. Se transportamos a nossa informação (as nossas memórias) essa é outra questão. Gosto de pensar que sim. Mas a morte, essa, não há meio de nos surgir como algo que dá valor e beleza à vida tomada como oportunidade e adquire ainda significado como etapa, como um necessário dar lugar, como um ponto final que, numa frase, torne o grande livro mais inteligível.