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A história repete-se ou por que razão não se inventa a história?

14 Out

Na verdade, o que é que Ulisses poderia ter dito a Clarisse?
Ficara calado porque ela tinha despertado nele um estranho desejo de pronunciar a palavra Deus. O que queria dizer era mais ou menos: Deus não encara o mundo literalmente, para Ele o mundo é uma imagem, uma analogia, uma figura de que precisa de se servir por razões insondáveis, naturalmente sempre de forma insuficiente. Não podemos tomá-Lo à letra, nós é que temos de encontrar a solução para o problema que Ele nos coloca. Perguntava-se se Clarisse estaria disposta a aceitar isto como um jogo de polícias e ladrões ou de índios e cowboys. Com certeza. Se alguém desse o primeiro passo, ela segui-lo-ia, atenta, como uma loba.
Mas tinha ainda outra coisa na ponta da língua, a propósito de certos problemas matemáticos que não permitem uma solução geral. Poderia ter acrescentado que via o problema da vida humana como sendo deste tipo. Aquilo a que se chama uma época – sem sabermos se estamos a falar de séculos, de milénios ou do espaço entre a escola e os netos -, esse rio largo e incontrolado de circunstãncias múltiplas, significaria então apenas uma sequência desordenada de tentativas de solução parciais, insuficientes e isoladamente falsas, das quais resultaria, se e quando a humanidade fosse capaz de as fundir, a solução correcta e total.

“O Homem sem Qualidades” de Robert Musil