Arquivo | Eleições RSS feed for this section

O último a sair que feche a porta

12 Out

A expressão “vitória de Pirro” teve origem na frase do general grego que, terminada a batalha de Ásculo contra Roma, e ao confrontar-se com o número de baixas que a vitória lhe havia custado, terá dito “Mais uma vitória como esta, e estou perdido”. Traduz-se numa vitória obtida a alto preço que, potencialmente, acarreta prejuízos irreparáveis.

Evolução da importância demográfica do Porto e cidades limítrofes (1981-2008)

grafico

Num estudo sobre competitividade das 18 capitais de distrito do continente, que reunia 21 indicadores, distribuídos em quatro sub-índices: demográfico, laboral, empresarial e conforto, Évora encontrava-se em 1º lugar, Lisboa em 2º e o Porto em 18º, ou seja, em último. Em 2011, o Porto não terá mais de 200 mil habitantes, um número próximo do que tinha há um século atrás e, de acordo com as curvas reveladas nos gráficos, quase todas as cidades limítrofes o terão ultrapassado por essa altura.

Com 67% dos abandonos da cidade a ter como destino os concelhos de Gaia, Maia e Gondomar, continuando 51% dessas pessoas a trabalhar ou estudar no Porto, os números parecem demonstrar que há boas razões para viver nas cidades periféricas. Adicionalmente o Porto tem vindo a perder grande parte do protagonismo político e económico que tinha amealhado ao longo da sua história, em favor de Lisboa, vendo escaparem-se-lhe bancos, empresas e cérebros.

Rui Rio não é o único responsável por esta situação, mas o resultado dos seus imperdoáveis 8 anos à frente da autarquia é espelhado por estes números. Gostava de, democraticamente, poder felicitá-lo pela maioria absoluta, mas ontem vi um homem eufórico nos festejos da sua gestão de uma pesada, inoperante e caríssima câmara de uma pequena cidade que já foi grande. A recondução muito mediatizada do presidente da Câmara do Porto foi, por muito que lhe custe, comparada com a do seu colega Filipe Menezes, uma vitória de Pirro.

Grelha comparativa dos programas autárquicos em Lisboa

9 Out

Para os que acham importante saber o que distingue as candidaturas para além dos rostos e das bandeiras, um trabalho útil, elaborado por Bernardino Aranda e Rosa Felix. Tornar a coisa efectivamente séria passaria pela quantificação e escalonamento destas propostas e das suas implicações para além das declarações de intenção.

E o Porto, carago?

8 Out

Compadre,

Estou tão baralhado que, não sabendo por onde começar, a única coisa que posso tentar fazer em resposta ao teu pedido, é uma descrição aproximada do ponto a que as coisas chegaram, o que leva um montão de tempo.

Imagina que tens um candidato que não gosta de nada, mas mesmo nada, que seja daqui. Do clube, dos museus, da música, do património, das pontes, dos eléctricos, de coisa alguma que faça sombra à Câmara, Torre dos Clérigos incluída. Agora põe-lhe um chapéu de dois bicos, soma-lhe as decisões estratégicas erradas e diz-me se, com aquela ideia fixa de vergar a cidade ou de no mínimo a esvaziar, não te faz lembrar aquele gajo baixinho que veio cá, há 200 anos, roubar as pratas.
Supõe que, num momento de lucidez, até se lembra de pedir a um antigo ministro que lhe escreva o programa e que este, não o querendo deixar fazer figuras tristes, redige aquilo mas não é candidato a nada. Liberto dessas maçadas, o candidato-napoleão mete-se no autocarro de dois pisos e, não chovendo, enceta a campanha distribuindo abraços à francesa, confundindo todos os que vê com apoiantes convictos. Diz-se que chega a fazer fé nas vendedeiras do bolhão, as mais antigas aderentes do sistema de bandeiras tipo semáforo, aquele que acciona sempre a cor do partido que lá vai comprar os legumes.
Bem sabes que o homem, pouco dado a leituras, quando alguém lhe vier fazer um resumo do que está no programa, vai ter uma apoplexia e que, por essa e outras razões, bom seria que a campanha de assinaturas contra a destruição dos Jardins do Palácio fosse bem sucedida, assegurando-lhe a meditação no local aprazível que ele não se importa de retirar aos outros. Claro que ideal seria que o escolhessem para chefiar o partido desorientado, acabando por ter de abalar para Lisboa, porque para os Açores não to ia mandar, que diabo!

Depois, há aquela senhora que, achando que mulher prevenida vale por duas, se candidata a dois lugares distantes. Reunindo uma lista de apoios que parece o número especial da “Caras”, não se terá dado ainda conta de que um apoio é uma bengala, dois uma canadiana, três um andarilho e acima disso tem de pagar tantas ajudas que vai ficar pregada ao chão só de olhar para a factura. Passeia pela ruas arrastando a corte e chegou, não sei por alma de quem, a ser recebida pelo Pinto da Costa no Dragão. Este que, por sua vez, tem vindo a adoptar o estilo “Alberto João”, o melhor que lhe ocorreu após a vitória do FCP na liga dos campeões, foi agradecer ao teu clube a contratação de um jogador, em vez de se ocupar com o meu e dele, que até fez um jogo decente.

Sabendo tu que um ministro das finanças, um presidente da câmara e uma candidata a presidente, unidos por uma certa grosseria e mau domínio da língua e de muitas outras matérias, têm em comum o facto de terem sido docentes da Faculdade de Economia do Porto, terás de reconhecer que, neste caso, o mercado funcionou e a universidade deve já respirar outro ar.

O outro candidato que, chegado a esta idade, a única coisa que provavelmente conhece da cidade é o caminho para a Faculdade de Letras – aquele edifício horrível que, coincidência das coincidências, tem a forma de uma praça de touros, nunca alimentou ou acolheu uma ideia que fizesse carreira. Diz-se que, como professor, costumava ter um conceito do mérito inversamente proporcional à saia das alunas e que agora se propõe tirar a maioria àquele que pediu ao amigo para lhe redigir o programa, o que nem é difícil atendendo a que se trata de roubar o tipo mais imobilista que por cá passou nos últimos 900 anos. Orgulha-se de ser homem que nunca se coligou com ninguém, mas suspeita-se que não hajam sido muitas as oportunidades e que nem com ele próprio a coisa venha a ser pacífica.

Bem queria animar-te, e poder dizer-te que nos resta aquele engenheiro nosso amigo. Uma jóia de rapaz, conhecedor da cidade, benfiquista embora honesto ao ponto de, conhecendo-nos a ambos há séculos, ainda se dar ao trabalho de nos cumprimentar. Só que ninguém me tira que uma pessoa que andou mais de 20 anos nos bairros e os conseguiu entregar direitinhos ao mau-da-fita, tem um problema de vocação. Palavra de honra que um dia, prevendo a entrega do ouro ao bandido, lhe disse que aquilo que ele fazia não era nem política, nem engenharia. Era assistência social. Quem se ficou a rir foi o homem-ingrato a quem ele permitiu o primeiro mandato, findo o qual e sem necessidade de apoios, o descartou, retirando-lhe qualquer pelouro de importância e acusando-o de incompetência. O que não deixa de ser verdade, em termos políticos.

Depois da estopada a que te submeti, custa-me estar a mexer nos rendimentos desta nossa longa amizade mas, atendendo a que cumpri o difícil prazo que me estabeleceste, ouso pedir-te um favor:
– Expus-te as razões porque, enquanto cidadão do Porto, não tenho em quem votar. Votar em branco reforça a maioria do mau-da-fita. Ando cabisbaixo e, confesso, um pouco envergonhado e sem ânimo para fazer uma campanha insidiosa como deve ser. Hás-de concordar que é gente a mais para se ser contra.
– Não arranjas maneira de me recenseares aí na ilha? É que, para casos desesperados como o meu, e uma vez que não posso acumular votos não utilizados para gastar nas próximas autárquicas, devia haver maneira de um gajo votar em alguém que gostasse. Sei lá, noutra terra qualquer, por exemplo.

Um abraço do teu velhíssimo amigo,

Em que ficamos?

3 Out

logo bloco

Ana Cristina Ribeiro, a única autarca do Bloco de Esquerda, afirma no Público não saber “se o Bloco de Esquerda será contra as corridas de touros mas pelo menos não é apoiante das corridas de touros. Penso que isto em nada impede de que o bloco de esquerda tenha um concelho que é Salvaterra de Magos e que a sua presidente seja uma aficcionada.”

A tourada horroriza-me, mas não é apenas isso que dá sentido a este post.

O Bloco de Esquerda acaba de eleger 16 deputados com base num programa e num conjunto de compromissos com o eleitorado. A pág. 75 do programa, diz o seguinte:

PROMOÇÃO DO RESPEITO PELOS ANIMAIS
“A alteração dos padrões de comportamento em relação a outras espécies animais é dos factores mais importantes de modernização necessária. A responsabilização dos seres humanos pelas suas relações com outras espécies animais não pode ser nem antropocêntrica (considerando apenas interesses de forma parcial e especista), nem fetichista pelo sofrimento dos animais (chegando a ignorar a exploração dos próprios humanos).
(…)
Da parte do governo só existe indiferença pelo tema. Tem protelado a prometida lei de protecção dos animais que puna actos de violência injustificada. (…) De resto tem havido total inoperância e cumplicidade na manutenção das terríveis condições em que animais são usados e abusados todos os dias.
(…)
ANIMAIS NO ENTRETENIMENTO
“Apoiar a requalificação de praças de touros fixas com pouca ou nenhuma utilização em espaços culturais. Fim de rodeos, de touradas de morte ou à vara.”

Ao contrário do que deduz Ana Cristina Ribeiro, há pelo menos uma coisa que devia impedir o Bloco de Esquerda de a apoiar: o compromisso que assumiu com os eleitores que nele votaram. Este tema já chateia, mas como passei a campanha a ouvir falar nas centenas de milhares de pessoas que fizeram download do programa do bloco, é chegado o tempo de perceber se alguém o leu, ou se alguma coisa que lá está é para levar a sério.
Mau começo de um partido para o qual não devia ser assim tão importante manter um autarca em detrimento dos princípios que anuncia e que, pelos vistos, não aprendeu nada com o percurso de Sá Fernandes em Lisboa.
Para manter as tradições, já tinhamos os partidos que habitualmente nos governam e se esquecem rapidamente do que prometem.

PS! Posteriormente à publicação deste post, tomei conhecimento de que Ana Cristina Ribeiro foi constituída arguida num processo em que é acusada de peculato, desaparecimento de contas e livros de actas, saque de cheques, corrupção em concursos e conspiração para afastamento de adversários políticos. Com esta curiosa concepção ética, fico a tentar descobrir as diferenças desta situação relativamente às de Valentim Loureiro, Isaltino Morais ou Fátima Felgueiras, os chamados “candidatos-bandido”, mas compreendi melhor o gosto da candidata do bloco por touradas.

Renovar a confiança

28 Set

Era uma vez um tratador de macacos que, de tão perspicaz, os entendia e se fazia compreender por eles. Dada a sua habilidade, o tratador gozava de prestígio entre os ajudantes a quem entregava as tarefas menos bem aceites pelos bichos. Mas as coisas começaram a correr mal e o tratador lá teve de explicar que este ou aquele ajudante haviam cometido excessos, algumas injustiças e, sobretudo, revelado pouca capacidade de explicar o que, a bem de todos, tinha mesmo de ser feito.
O terreno em que habitava possuía várias bananeiras mas o tratador, que sonhava com outros voos e gastava razoavelmente mal o que tinha, cedeu à tentação de as vender no mercado e até chegou a distribuir algumas pelos amigos mais próximos. Embora fosse dizendo que não havia de faltar comida e que, atendendo ao facto de as árvores produzirem cada vez menos bananas e do mercado já não ser o que era dantes, estava a fazer o melhor que podia, o desgoverno era tanto que um dia se tornou evidente que a quantidade de comida disponível não duraria muito mais.
Isto gerou inquietação e, não podendo deixar ficar mal os amigos de quem dependia por muitas razões, só lhe restava endurecer o discurso junto dos bichos:
– Daqui em diante – disse-lhes – cada um terá três bananas de manhã e quatro à tarde. Acham bem?
Os macacos não gostaram nada e, furiosos com as novas restrições, chegaram a levantar-se. Mas ele, seguro de si, afirmou sorridente:
– Compreendo o vosso descontentamento. Os tempos estão difíceis e há que saber ouvir. Creio que devia mudar alguns dos meus ajudantes e, como prova da minha sensibilidade aos vossos problemas, cada um terá quatro bananas de manhã e três à tarde. Que pensam disto?
Satisfeitos por ele ter aceite o seu protesto, os macacos recostaram-se muito contentes.

Que fazer?

23 Set

Reciclo o título de Lenine em contraponto com Eduardo Lourenço para sublinhar um paradoxo. À luz do que tem sido a prática governativa do PS e a oposição à sua esquerda, tornou-se extraordinariamente difícil definir um voto porque sei antecipadamente que, seja qual for o resultado de domingo, a minha ideia de esquerda já perdeu e perdeu com uma extensão assustadora, mesmo que os partidos que dela se reclamam venham a somar uma confortável maioria.

“Não se pode ganhar uma partida de xadrez sem que o adversário cometa erros. Esta máxima não é apenas verdadeira para o mais subtil e cruel dos jogos que os homens inventaram. Se neste momento a Esquerda europeia está, ou parece estar, numa situação particularmente melindrosa, é talvez por ter imaginado que os erros e pecados políticos, sociais e económicos só podiam ser cometidos pela Direita ou, talvez melhor, que a Direita era a expressão, nessa ordem, da História como pecado. Consciente e convicta – não sem fundas razões, que convém repensar – de representar a consciência aguda da injustiça, da opressão, do privilégio inaceitável, a Esquerda viveu-se durante os quase dois séculos da sua manifestação histórica – justamente aquela que se manifestou na Convenção como primeiro movimento revolucionário moderno – como se estivesse imune, por princípio, ao erro, ao desvio, à desfiguração, ou até à traição ao ideário transparente com que se definiu.
(…)
O único inimigo que a Esquerda tem, nas suas diversas modalidades, é ela mesma enquanto inconsequente, enquanto esquecimento da sua própria aventura, que nunca foi fácil nem mãe de facilidades, mas exigente, dura, contraditória, enigmática, até porque a Direita, quer dizer, a tentação do poderio, a ilusão de deter com a verdade que tem a Verdade toda, com a cultura que é, o monopólio da cultura, está também aninhada no seu coração. A luta pela Esquerda é também a luta contra essa Direita em nós. A outra, a que nos combate por ser essa a sua fatalidade, por mais sinistra ou sedutora que se apresente, nem sequer devia ser o objecto principal das nossas ocupações e preocupações. Nesse sentido, e profundamente, como da Igreja disse um dia João XXIII, a Esquerda não tem inimigos. Ela é o lugar histórico da tolerância, a vitória lenta mas constante do diálogo imposto aos que não querem ou não precisam de dialogar, ela é ou deve ser o lugar da máxima transparência de que uma sociedade é capaz e se, por graça dos deuses, aqueles que se dizem de Direita ou são de Direita partilham deste espaço de diálogo, são também, saibam-no ou não, povo de Esquerda. Mas isso é problema dela e não nosso. O nosso, aqui, de homens assumidamente de Esquerda democrática, num tempo na aparência pouco propício, é o de lembrar que esse espaço de diálogo intra-humano é o da esperança, não apenas meramente conjuntural e política, mas de uma esperança histórica, de uma solução plausível para um mundo de paz armado até às estrelas, para uma humanidade dividida em duas pela presença numa delas dos espectros medievais da fome, da ignorância e da repressão, e na outra pelo triunfo de uma Disneylândia de pacotilha, onde já não distinguimos com um mínimo de senso o que nos perde e o que nos salva.”

Eduardo Lourenço (1996)

A política divertida chega a ser muito chata

18 Set

Alguém disse que Louçã perde em ser conhecido. Concordo inteiramente.
Ricardo Araújo Pereira e Louçã conhecem-se pessoalmente. Tratam-se por tu, mas não na televisão. Como não há pior condicionamento do que o que impomos a nós próprios, o resultado foi a pior de todas as entrevistas realizadas pelos “gatos” até ao momento. Forçada, arrastada, previsível, chata, sem política, sem ritmo, sem surpresa e sem televisão. Tivesse chegado de outro lugar sem nada saber da política nacional e seria levado a concluir pelo tom, pela linguagem e pelo discurso, que o representante do Bloco era um político idoso, situado ao centro. Ninguém antes havia mostrado tanto medo das suas próprias propostas, estado tão preso da imagem e revelado tanto conservadorismo de pose e de discurso. Foram batidos records de roupagem não ideológica, e o BE como opção ou é ideológica ou nunca fará diferença nenhuma.

Autenticidade, atrevimento, irreverência, menos de zero. Polimento e cuidados, mil. Tranquilizantes para a classe média, servidos com um “se for eleito, acha que poderei manter este fato?”, lugar comum tão gasto que dificilmente vale um sorriso, reforçados com referências repetidas a essas desconhecidas do programa do Bloco, as empresas (sim, eu também li o programa do Bloco, encontrei lá a palavra, e não fiquei inteiramente convencido de que o BE saiba realmente o que é uma empresa). Um trocadilho com a ideia da abolição dos benefícios fiscais, para não ter mesmo de a explicar. Drogas, nem sim nem não, antes pelo contrário, não me comprometas, isso diz respeito a cada um. Transgénicos misturados com transsexuais e com transportes, “há no nosso programa muitos trans”, como se tudo valesse o mesmo. Cheguei a ouvir o RAP dizer “mas oh Francisco… um transsexual não é um autocarro”, mas foi imaginação minha.
É por estas e por outras que, sem me alongar na análise do tal programa de que se fizeram centenas de milhares de downloads e espero que esteja a ser lido, se discorre mais sobre direitos dos animais (em estado de suspensão em Salvaterra de Magos) do que sobre agricultura.

Talvez esta postura renda alguns deputados adicionais, mas serão daqueles para quem o importante é estar em palco, mesmo que tenham de andar a correr atrás do spot. Se a intenção era passar a ideia de que o BE não constitui uma ameaça, Louçã conseguiu-o plenamente mas, do meu ponto de vista, ser inofensivo, era a pior coisa que podia acontecer ao BE.

Ficou-me a azia habitual daqueles jantares em que, a meio, um comensal pega num tema sério e logo alguém aplica um dissolvente de ironia que dissipa a conversa e a faz regressar ao nada, aos lugares comuns, às frases e temas do costume. E de que se fala quando não se fala de nada? Da Joana Amaral Dias, a fofinha que deu uma tampa aos outros.

O Berlusconi ensinou-o a abotoar-se…

16 Set

Já fazia falta um manual de deixas para entrevistas favoráveis. O Ricardo Araújo Pereira só começou a escrevê-lo ontem, mas promete. O registo educadinho, tão educadinho que as melhores piadas vieram de Sócrates, as provocações que não o foram e abriam a deixa para o Primeiro-Ministro, o registo reverencial e inofensivo, não ajudaram a esmiuçar nada.
Humor, se o houve, partiu de Sócrates quando, depois de recordar a condição de pai atento (que a avaliar pelas repetidas referências, deve ser recente), se sai com esta pérola premonitória: “Pensei que esse seu passado estalinista fosse já passado. O Ricardo Araújo Pereira está já numa idade em que se tornará um bom social democrata rapidamente”. Nem eu diria melhor.

Nunca faltou sentido de humor aos políticos, pelo que foi de mestre fazer o programa em plena campanha, compensando o esgotamento dos “gatos” e recolhendo audiências decentes. Quanto a ti RAP, quem sou eu que ando tão falho de criatividade para falar da tua. Visto daqui, não é que a entrevista te tenha corrido mal. Mas bem, mesmo mesmo bem, correu ao Sócrates. Tão bem, tão encaixadinha que, se fosse um jogo de futebol, coisas como aquela do magalhães pareciam benefício do infractor. Ainda te mandei umas perguntas para o mail, mas não deves ter visto. Olha… fica para a próxima. Entretanto deixo-te aqui uma ou duas dicas, por descargo de consciência e porque não quero que fiques sem respostas ou pareça que andas para aí a fazer fretes.

Então ficamos a saber que o Sócrates aprendeu com o alfaiate Berlusconni a abotoar-se e tu deixas passar uma dessas em claro? Também já sabiamos que outro dos amigos do Sócrates era o Chavez e tu tornas a perder a oportunidade, quando podias aproveitar para exportar os “gatos” junto com o magalhães?
Olha lá… aquela do “manter o seu emprego” à medida da resposta “sabe, isto não é um emprego”, não foi combinada na reunião com os acessores, pois não? É que podias ter introduzido o tema, lembrando que o homem que despediu os 15 ministros em directo, podia perfeitamente ter despedido também os secretários de estado, mas poupou-os porque sempre são mais de 600.

Uma vez que o vosso humor já não é o que era, não achas que era tempo de ires fazendo umas economias com os trocados que tens amealhado e enquanto dura aquela porcaria dos anúncios da Meo? É que havendo a hipótese de Sócrates vir a ser “vítima da ingratidão dos portugueses” perdendo as eleições, aproveitavas para lhe cravar um projectozinho como os que assinou há uns tempos, para aquelas casas todas catitas forradas a azulejos, lembras-te? Mas tens de ser rápido, não vá ele saltar para a presidência de uma empresa espanhola, como aquele que é militante do PS mas gosta do programa do PSD. Palavra que tenho o nome debaixo da língua mas só me vem à cabeça aquela música dos “dois amores”. Ufh…estava a ver que não me lembrava, o Joaquim!

Se tivesses feito uma entrevista de jeito, terminavas em beleza e até perguntavas se podias esperar manter o lugar ou se tinhas de rever a tua forma de esmiuçar primeiros-ministros. Tudo com a maior elevação. Assim, levaste com a sugestão de aproveitar a oportunidade para conhecer melhor a Clara. Ficou toda a gente a saber das tuas inclinações. Pela forma como te tramou, acho que aprendeu mais do que parece com o Sarkozy e o Berlusconi. Têm-lhe dado traquejo, as amizades…

Quanto ao resto, sempre que precisares, já sabes. E muda o nome a isso. Se calhar já existe, mas ocorreu-me “Yes, Minister!”? Que achas?

Sócrates, Manuela e os monstros.

13 Set

Sócrates e Ferreira Leite não têm a bonomia dos personagens deste pequeno filme, embora ambos alimentem e escondam atrás da porta, monstros bem menos fofinhos, igualmente incontroláveis e de um apetite que não se satisfaz com cenouras- os respectivos partidos, clientelas e interesses. Aquele que perder será devorado pelo seu monstro privado e substituído na chefia do respectivo partido.
A audiência média dos debates terá rondado um milhão de espectadores, o que parece indicar que a abstenção talvez seja, em grande medida, mais um reflexo da ausência de alternativas em que as pessoas se revejam do que do desinteresse dos portugueses pela coisa pública.
No debate a que assisti, independentemente de saber quem ganhou, e penso que ambos o ganharam para os respectivos eleitorados fixando-os, a opinião pública viu veiculadas pela jornalista Clara de Sousa perguntas incómodas que qualquer português fará a si próprio, não poupando os antagonistas sem nunca cair num registo menos correcto. Ficou, para mim, bastante claro que ambos têm no curriculum pesadas responsabilidades na actual situação e, pese embora o quase desprezo que nutrem um pelo outro, a sua visão da economia, da sociedade e sobretudo do estado, coloca-os como militantes do mesmo partido, o dos negócios, na condição de representantes temporários de duas facções, a rosa e a laranja. Novidades, só mesmo pela boca do primeiro-ministro quando despediu em directo todo o elenco do governo, provavelmente sem aviso prévio, com a frase “novo governo, novos ministros”.
Se fosse permitido tirar uma conclusão do debate, a minha viria em forma de pergunta. Alguém ficou a acreditar que algum deles tem soluções, credibilidade, e a visão e atitude de que o país precisa? Pior, este modelo em que ambos se revêem, não foi o responsável pela situação a que chegamos em Portugal e no mundo? É que se a notícia da morte do sistema financeiro foi um exagero, a da cura é uma ingenuidade.

Sócrates em registo pessoal

12 Set

Não se desse o caso de Sócrates citar de “memória” Ricardo Reis numa resposta com todo o ar de espontânea, teria andado todos estes anos a fazer mau juízo do homem e da sua relação com a cultura, passando ao lado da faceta poética, do apego à literatura e, porque não dizê-lo, desumanizando-o injustamente.

Mesmo assim não me livrei de um arrepio quando, ao usar o trevo das 4 folhas numa estranha analogia, me ocorreu que pudesse, de novo traído pela memória, acabar a citar outro poema de Álvaro de Campos, “Opiário”, aquele em que se diz “Eu fingi que estudei engenharia”, mas a coisa prosseguiu e eu sosseguei.

PS! Só agora me dei conta que o título do post deveria ter sido “O ano da morte de Sócrates”. Politicamente, entenda-se.

Pinóquio arranja amiguinha

17 Ago

Silly Season é um raio de um nome bem escolhido para a época… Depois de ver esta entrevista, passei a achar que Medina Carreira é um optimista.

Carolina Patrocínio, começa por explicar a sua estratégia para se “afastar das figuras públicas de Portugal” sobre um pano de fundo de nús envergonhados a fazer lembrar a decoração da cabine de um camião de longo curso. A mandatária do PS para os jovens diz ter “uma relação com o anjinho da guarda” de que não se pode duvidar e descobriu que “não gostava nada de ser homem. Os homens não têm nada coisas giras pra fazer”. Que falta de imaginação, rapariga. Vamos ao futebol, andamos aos murros uns aos outros e coleccionamos posters teus.

Sonha ser pedida em casamento de forma espectacular. “Jantamos, depois no fim, ele tem de se levantar, fazer o discurso e pedir a minha mão ao meu pai” e prossegue dizendo dela própria ser “de bom nascimento”. Como que para o provar, vai dizendo que “Odeio os caroços nas frutas. Só como cerejas quando a minha empregada tira os caroços. (…) e uvas sem graínhas… é uma trabalheira…” e que detesta “esperar pelas bagagens no aeroporto”. Tudo coisas de gente bem nascida. Já Luís XIV, aquele que não se conseguia vestir sózinho, tinha a frase “Eu quase que esperei”, referindo-se às carruagens que chegavam sempre a horas.

A menina, que não tem nada na cabeça, acaba em forma e embalada num sorriso, a dizer com toda a naturalidade “Sou muito competitiva. Odeio perder. Prefiro fazer batota do que perder”. Plenamente explicada a sintonia com Sócrates, resta-nos a dificuldade em vislumbrar onde se poderia arranjar melhor mandatária para os jovens.

Quando, a terminar a entrevista, lhe é perguntado: “O que é que te falta?”, responde solícita, “Viver!”.
Podes crer, filha.

Tempos houve em que se matavam os mensageiros quando as notícias eram más

13 Ago


Este é o 1º de 5 vídeos da mesma entrevista.

Afasto-me substancialmente da visão política de Medina Carreira e não compreendo que não se tenha tornado ainda claro que a natureza e modo de operação do investimento estrangeiro, seja em Portugal ou na Irlanda, não o recomendam como solução dos nossos problemas, comportando até uma componente de risco proporcional à dimensão dos projectos como se viu com o impacto da falência da Qimonda na balança comercial. A crise internacional esconde a profunda deteoração de uma economia nacional que cresceu nesta década a um ritmo nulo, tornando impossível a prazo a satisfação das responsabilidades sociais do estado no domínio das pensões, da saúde, etc.

Medina Carreira é, com a sua visão das coisas, um homem corajoso que denuncia uma forma de fazer política, um espectro partidário e uma corrupção que conhece. Fala da absoluta necessidade de criarmos riqueza como única forma de sair da situação em que nos encontramos, em oposição a investimentos loucos suportados nas teorias keynesianas que justificam o TGV, o Aeroporto de Lisboa e as auto-estradas que estão para vir, porque como afirmou, numa anterior entrevista a Mário Crespo, o dinheiro posto a circular vai comprar bacalhau da noruega, fruta de espanha ou israel, automóveis alemães, telefones finlandeses, gerando mais endividamento na medida em que nada produzirmos para consumir e exportar. Parece evidente, mas há quem ache que não é assim e o país parece de facto aturdido numa crise com contornos que lembram os últimos anos da monarquia e os primeiros da república.

Deixamos aos nossos filhos um país empobrecido, inconsciente e irresponsável, com um serviço da dívida que em apenas 13 anos, de 1995 a 2008, passou de 10 para 100% do PIB, no que representa um encargo anual só para satisfação de juros de 5.000 milhões de euros, equivalente, num termo simples de comparação, a toda a receita de turismo do país.

Poucos saberiam dizer tão desassombradamente as razões que movem as personagens de opereta que nos governam e as que nos oferece o outro partido que pode formar governo, como o fez Medina Carreira. Seria bom que o ouvíssemos e que esta entrevista tivesse tido lugar em canal aberto, nomeadamente no canal público.

“Vive decentemente para poder morir tranquilamente”

24 Jul

Resposta de Jíri Menzel à pergunta que lhe foi feita no Vanguardia “¿Qué merece la pena en la vida?

Saramago recebeu a Casa dos Bicos para a instalação da sua fundação em Lisboa e um subsídio de 30 000 euros para a produção de um documentário provisória e tristemente intitulado “União Ibérica”, cuja pertinência se pode adivinhar atendendo à escolha do tema- o romance entre Saramago e Pilar. Manifestou o seu apoio à candidatura de António Costa a semana passada.

Miguel Vale de Almeida, apoiante do Bloco, activista da causa do casamento entre pessoas do mesmo sexo *, depois de um post publicado a 11 de Julho, intitulado “Talvez não sejamos muitos e muitas”, conduz-nos por premissas que tornam absurda a conclusão final na qual anuncia que “sem qualquer intenção de aderir de novo, enquanto filiado, a um partido, votarei pela primeira vez na vida no PS”. Passados 12 dias, integra em 7º lugar, a lista do PS por Lisboa às legislativas.

O Público anuncia hoje que Inês Medeiros, ocupa o 3º lugar da mesma lista. Embora ninguém tenha dado por isso, foi a mandatária de Vital Moreira nas Europeias.

O PS elegeu 24 deputados por Lisboa nas últimas legislativas.

(*) Nada me move contra as pessoas que querem casar. Apenas registo que os direitos das pessoas que vivem há mais de dois anos em união de facto, são assegurados pela lei que, em 2001, baixou de 5 para 2, o número de anos necessário ao reconhecimento legal e aboliu a discriminação de sexo. À primeira vista, a lei vai onde não chega uma reivindicação que, no essencial, visa assegurar a união jurídica.
Batam-me à vontade, mas que tema fracturante é este?

Parecem bandos de pardais…

19 Jul

No Porto, um homem habituado a ganhar, Pinto da Costa, apoia uma candidatura perdedora, a de Elisa Ferreira. Fá-lo em coerência com o que sempre afirmou sobre Rui Rio, mas não altera o peso nos pratos de uma balança já excessivamente inclinada, sendo que, mesmo numa perspectiva pessoal, não o faz na melhor altura.

Em Lisboa, a candidatura de Antóno Costa tudo abrange, reunindo apoios que vão de Helena Roseta a Carlos do Carmo, que se presta à triste figura de mandatário sénior, seja lá isso o que for. Somam-se notícias não desmentidas de que houve negociação prévia dos lugares atribuídos. Eu, que sou dado a desconfiar de unanimismos, fico a pensar que afinal o conceito de cidade de que se reclamam Helena Roseta, Sá Fernandes e António Costa, tem bastante em comum e Lisboa não perde nada de especial porque esse processo se iniciou no momento em que estes possíveis candidatos se começaram a aproximar da política real. Metem pena, mas é assim.

Só que ainda há pessoas que me surpreendem tanto como Eunice Muñoz no dia em que, há muito tempo, declarou o seu apoio a Cavaco Silva. Como alguém dizia noutro blog, há gente vinda da esquerda que quando começa a virar nunca se sabe quando pára. Eu acrescentava que se tornou tão voraz que já nem se envergonha de alinhar em jogos de beneficiência, como este do deplorável apoio do mesmo Saramago que, lá de Lanzarotte, tinha apelado ao voto em branco nas legislativas anteriores.

Pedro Santana Lopes não é um grande candidato, mas para quem acabasse de chegar e assistisse a este perfilar das tropas à esquerda, a agigantá-lo como se fosse uma ameaça, tudo levaria a crer que sim.

O Glutão

8 Jun

resultados

4,6% Votos em Branco

8 Jun

“No tempo dos reis, dizia-se ao súbdito: Dantes eras súbdito do rei A, agora o rei A morreu e eis que passas a ser súbdito do rei B. Depois veio a democracia e foi pela primeira vez apresentada uma escolha ao súbdito: Queres (colectivamente) ser governado pelo Cidadão A ou pelo Cidadão B?
O Súbdito é sempre posto perante o facto consumado: no primeiro caso com o facto da sua sujeição, no segundo com o facto da escolha. A forma da escolha não está aberta a discussão. O boletim de voto não diz: Quer A ou B ou nem um nem outro? E seguramente nunca diz: Quer A ou B ou ninguém? O cidadão que exprime a sua insatisfação com a forma de escolha que lhe é oferecida da única maneira que está ao seu alcance – não votar, ou inutilizar o boletim de voto – não é pura e simplesmente contado, ou seja, é desprezado, ignorado.
Confrontada com uma escolha entre A e B, tendo em conta a espécie de A e a espécie de B que habitualmente chegam aos boletins de voto, a maioria das pessoas, pessoas vulgares, sente-se no íntimo inclinada a não escolher nenhum deles. Mas isso é apenas uma inclinação, e o Estado não trata de inclinações.J.M. Coetzee in Diário de Um Mau Ano.

Não publiquei este texto antes das eleições por não querer confundir uma reflexão sobre a imperfeição do sistema com um apelo à não participação. As eleições realizaram-se e, pela primeira vez na nossa história eleitoral, 164 874 dos votos expressos, são brancos. E estes votos que não podem ser confundidos com abstenção, não aparecem nos “pie-chart” da distribuição das escolhas dos eleitores, nem há nenhum político a pronunciar-se sobre eles no discurso de balanço eleitoral.
164 874 eleitores que se deram ao trabalho de ir às urnas, e exercer cidadania, são ignorados e misturados no saco “outros” que alberga os pequenos partidos e soma mais de 11% dos votos.
E que dizer do péssimo serviço prestado à cidadania pelos “media”? Pode aduzir-se que o voto em branco não exprime uma corrente de opinião una, mas não se pode continuar a ignorar o seu significado de recusa a este modo de fazer política.

Democracia

3 Jun

A participação diz-se de muitas maneiras, mas é uma condição sine qua non para aqueles que consideram que a democracia é uma forma de governo sob a qual é bom viver. Produz, ao contrário do que afirma a tese da abstenção, uma obrigação política, um contrato, mas, acima de tudo implica-nos nas decisões, compromete-nos com a sociedade e os problemas comuns, cria-nos uma memória.
Conhecemos a democracia por intuição e muitas vezes por aquilo que não é. Mas a democracia é a utopia de que não podemos prescindir e se, encostados à passividade, à apatia e desafectação generalizada, esquecermos o que é público e nos limitarmos a constatar o desfasamento entre “o contrato” que celebram connosco e a realidade como justificação válida, não chegamos a compreender que a entrega da decisão aos outros, exprime a ilusão de que se pode formar uma pequena sociedade para uso particular abandonando a sociedade em geral a si mesma, desresponsabilizando-nos das consequências.
O problema é que, em última análise, o esquecimento voluntário da coisa pública, ou seja dos outros, o fechamento sobre si próprio, não só não é uma solução para o problema individual de como viver melhor ou uma resposta à corrupção do sistema político, como se revela, na prática, um desvio da auto-estima que, como pessoas e cidadãos, nos devemos.
Permitir que alguém decida por nós, é uma doença do nosso tempo e é, de certa forma, uma doença inoculada. A falta de interesse pelos assuntos públicos, a insensibilidade em relação à pobreza, o descuido em relação ao ambiente, a despreocupação inconsciente, não se justifica no facto de a política ser cada vez menos serviço público e cada vez mais o exercício dos interesses, mas é, ao invés, a escassa cidadania que explica aquilo em que a prática política se vai transformando sem controlo.
Se não fizermos o esforço de nos envolvermos, de todas as formas, numa circunstância mais ampla que a do nosso cenário particular, perdemos a noção de que muito do que nos afirma como indivíduos, é precisamente a escolha.

Confusos?

29 Maio

Se pensa que uma denominação de origem não pode ascender a categoria política, está redondamente enganado. Tinhamos o cão-de-água ibérico (do Obama), o “macho” ibérico (Luís Figo, segundo a imprensa espanhola) e temos agora um candidato tão ibérico como o “jamon”- Durão Barroso.

Três dirigentes da social-democracia europeia, Zapatero, Sócrates e Gordon Brown, defendem a continuidade de quem chegou à presidência da Comissão pela mão de Aznar, Blair e indirectamente G. Bush, e fazem-no em consonância com a esperada maioria do grupo parlamentar do Partido Popular Europeu. É um enlevo vê-los a falar a mesma linguagem, participar nos comícios uns dos outros, mostrar aos respectivos eleitorados que ainda não integraram a ideia de uma europa política e não diplomática e que pensam, na realidade, que os interesses dos respectivos países serão melhor representados por “um dos nossos”, que por alguém que partilhe o mesmo projecto político. Assim sendo, e para clarificar as opções, porque não colocam Durão Barroso nos respectivos cartazes? As pessoas começavam a perceber melhor que aquilo que os distingue é muito menos do que aquilo que os une.

Aquilo que nunca perceberiam, se em política houvesse memória, era que aquilo que é verdade hoje, é mentira amanhã e, ao contrário do que foi repetidamente afirmado na campanha do PS para as últimas legislativas, afinal a queda do XV governo com a ida de Durão Barroso para Bruxelas não foi uma fuga mas uma decisão tão clarividente quanto, passados 5 anos, as mesmas pessoas que o criticavam passaram a achar que Durão Barroso deve suceder a ele próprio.

A parte boa da história é que, graças a eles, podemos encontrar dois dos heróis da cimeira dos Açores, Blair e Barroso, em plena disputa da liderança da UE na época de Obama. Blair é o candidato de Sarkozy.

Miguel Portas defende voto aos 16 anos

26 Maio

“Se aos 16 anos um jovem tem idade para trabalhar, porque não há-de ter idade para votar?” in Público.

Embora legal, o trabalho aos 16 anos não é a regra. E não o é porque aos 16 anos, um jovem deve estar a estudar, a crescer e a disfrutar. A consciência social que é suposto adquirir e vir a traduzir-se numa opção política, forma-se na vivência do processo de autonomia de um jovem. Numa sociedade mais evoluída, não seria bem aceite a ideia desta idade mínima para trabalhar, nem a do abandono do sistema de ensino que a opção pelo trabalho normalmente acarreta.

Não é a primeira vez que vejo na boca da extrema-esquerda, argumentos de extrema-direita e o aqui usado não se limita a ser demagógico. É extremamente grave porque se encontra perigosamente perto dos argumentos que têm justificado a utilização de menores nas empresas. Dito de uma forma mais directa, parece uma frase de patrão do Vale do Ave, daqueles que não custa imaginar que pronunciem a mesma frase de trás para a frente.

E tu Miguel, não tens idade para ter juízo?

É giro, fica bem e é uma vergonha este episódio da saga da ditadura do consumo.

25 Maio

piratas

O Partido Pirata sueco tem quase garantido assento no Parlamento Europeu, ao posicionar-se actualmente como a terceira força política da Suécia. Esta formação defende o fim das restrições no uso da Internet, o que inclui a livre partilha de ficheiros, mesmo que estes estejam sujeitos ao pagamento de direitos de autor” in PÚBLICO.

O assunto é  sério e merece reflexão. O programa é omisso quanto à forma de acautelar os interesses dos artistas, músicos, escritores, fotógrafos, designers, arquitectos e autores em geral e não explica como se vai financiar a investigação retirando aos laboratórios o exercício das patentes. Também não esclarece a actual forma de financiamento do site piratebay.

Na declaração de princípios dos piratas (uma contradição nos termos), afirma-se que “todo o uso não comercial (para utilização própria) deve ser gratuíto e encorajado uma vez que o valor da cultura e do conhecimento aumentam com a sua partilha”. Se tinha descoberto isso mais cedo, fazia uma tiragem de 100 000 exemplares de um meu trabalho e ia oferecê-lo para a esquina.

Supõe-se que, uma vez colocados na instituição Parlamento Europeu, mudem o nome, passando a chamar-se Partido dos Corsários e a arregimentar criativos raptados para trabalhar nas galeras oficialmente reconhecidas. Ansiamos pela elaboração de um programa mais ambicioso que aplique o “princípio” aos restantes bens de consumo.

Era bom que, de uma vez por todas, as pessoas começassem a ser informadas sobre os custos de produção, as margens da distribuição e sobre direitos de autor. Que entendessem qual o investimento envolvido por exemplo na produção de um filme, na remuneração da sua equipa e na sua promoção. Que se questionassem sobre quem fará o investimento na produção e divulgação se fecharem as editoras e sobre o tipo de cultura que teríamos sem elas.

Roubar os produtos das prateleiras torna-se, à luz da mesma ética e argumentação, aceitável, mas não tenho ilusões de que a única coisa que vai continuar a ser roubada sem problemas de consciência, são os bens culturais. Quando um laboratório chegar à cura de uma dessas doenças que desejamos ver erradicadas do planeta, damos uma palmada nas costas do investigador e dizemos “Obrigadinho, pá!”. Alguém ainda tinha dúvidas de que fazer política, nos tempos que correm, é dizer às pessoas o que elas querem ouvir?