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Regresso às Aulas

9 Set

Notável este trabalho em giz de Lucinda Schreiber. Um filme que constitui simultaneamente uma aula de animação que se serve da exposição do próprio processo.

Sem Plano Tecnológico, quadros electrónicos, ou um Magalhães para amostra, estes australianos, que ainda vivem na pré-história das metodologias da educação, contentam-se com umas salitas atarrecadas, quadros de lousa, giz, talento q.b. e imaginação. Custo zero. Bem-vindos à poesia.

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O mercado dos livros escolares explicado a Totós como eu (II)

20 Ago

Um cartaz de campanha da CDU reivindica manuais escolares gratuítos para todos. Surpreendido, (o que tem de bom esta campanha, é que me surpreende todos os dias), dei-me ao trabalho de ler a argumentação do PCP que, valha a verdade, não esconde em defesa desta tese quanto custa a proposta a preços de 2006. Seria um esforço orçamental superior a 65 milhões de euros o que, passo a citar, “representa apenas 1% do orçamento do Ministério da Educação”.

Como não há manuais gratuítos e a questão é, tendo alguém de os pagar, quem deve fazê-lo, não só não tomo como bom o argumento de que já que se “gastam 7.000 milhões de euros com o ensino, dever-se-iam tornar os livros gratuítos”, como se me afigura imoral e demagógico propô-lo.

Porque não avaliamos soluções diferentes:

Empréstimo dos manuais escolares pela escola, mediante uma espécie de depósito de caução que também financiaria a sua aquisição? No final de cada ano, a escola avaliaria o seu estado e devolveria a caução tornando o uso dos livros gratuíto para quem os estimasse, e imputando os custos caso houvesse dano nos livros, envolvendo e responsabilizando os alunos.

– Realizar, no início do ano escolar e atempadamente, nas escolas, feiras do livro nas quais pais e alunos possam vender livros que já não servem e comprar os que necessitam a alunos que já não precisam deles? Livros em pior estado seriam vendidos a preços mais baixos, valorizando o factor conservação. Menos regulada, esta prática pode não ajustar de modo perfeito a oferta e a procura, mas tem um impacto positivo.

Fazer a recolha dos livros usados, que o ano passado, creio que por iniciativa da CGD e levada a cabo com o nome “Livrão” foi, até por razões ecológicas, uma boa ideia. Porque não ser o ministério e/ou as escolas a fazê-lo, seleccionando os livros e integrando-os na biblioteca da escola para reutilização de quem careça deles.

Propostas simples que, como quaisquer outras que visem prolongar a vida de um manual escolar, necessitam de contornar o obstáculo de os livros serem concebidos e desenhados com zonas destinadas a preenchimento, substituindo-as pela transcrição dos exercícios para os cadernos. Alunos que desejassem livros “brand new” ou tivessem o hábito de estudo de os sublinhar ou colocar apontamentos, assumiriam esse tipo de utilização, adquirindo-os.

Optar por uma lógica diferente, não será um questão de bom-senso? Ou será ingenuidade pensar que alguém, incluindo editoras, pais, alunos e professores deste pobre país rico, deseja isto?

O mercado dos livros escolares explicado a Totós como eu (I)

20 Ago

Recolhi a lista de livros do meu filho e escolhi aleatoriamente o manual para a disciplina de Inglês, “Easy Biz 11”, um livro de 240 páginas e 25,15€ de custo (este preciosismo nos cêntimos dá um ar credível à coisa) que, com o caderno de exercícios, sobe a 34,38€. Esse valor aproxima-se do custo de um livro de design com uma tiragem reduzida e pormenores de impressão de grande qualidade. Ia dizer que isso me surpreende, quando me dei conta de que, na realidade, me indigna.

Conhecendo o mercado gráfico, a primeira dificuldade de estabelecer comparações prende-se com algo que não deixa de ser curioso. Não existe uma informação habitual em qualquer livro comum, a tiragem. Sem grande rigor, e fazendo cálculos para perceber quanto custaria imprimir, digamos, 3.000 exemplares de um livro idêntico, teremos um valor próximo dos 8/9 euros e, partindo do princípio de que a tiragem se poderá aproximar dos 30.000 exemplares, os custos baixam até 4/5 euros. A editora não produz stock para os vários anos lectivos em que o livro será o adoptado, mas sabe-se que os custos de pré-impressão oneram apenas a 1ª edição. Aplicando percentagens conhecidas para autores, designers e ilustradores (acreditem que conheço valores miseráveis), concluir-se-à que andando alguém a ganhar muito dinheiro, nos restam dois suspeitos, editoras escolares e distribuição.

Somos um dos poucos países que certifica os manuais escolares e, apesar disso, mesmo com a atenuante disso ser antes do mais um reflexo dos conteúdos programáticos definidos pelo ME, o resultado é o lixo que nos costuma chegar às mãos. Maus conteúdos, mau aspecto gráfico, pouca clareza e sobretudo um “erro no design de concepção” que não deixa de espantar: livros que contêm zonas de resolução de exercícios, aumentando o número de páginas e inutilizando-os seja para emprestar a irmãos mais novos ou a quaisquer outros miúdos, seja no caso, improvável no actual esquema de avaliação, do aluno ser forçado a repetir o ano lectivo.

Porque se continuam a desenhar livros dessa forma se não para impossibilitar a sua reutilização? Achando-se necessária a inclusão dos exercícios no manual, porque são “vivamente recomendados” os cadernos de exercícios editados à parte? A panaceia do “Magalhães” distribuído massivamente no ensino básico, não poderia ser acompanhada por um esforço de elaboração de conteúdos, eliminando consumo de papel, baixando dramaticamente os custos e gerando provavelmente mais-valias educativas?

Caso a transmissão de conhecimento ainda seja o objectivo do sistema educativo e se sobreponha à entropia reinante, parece pacífico que o livro pode ser dispensável em certas ocasiões. Ou o professor debita o livro, empobrecendo a sua função, ou o livro estabelece “guide-lines” e conteúdos que o professor enriquece e adapta aos alunos e isso torna o livro um acessório educativo, importante mas não necessariamente omnipresente.

Sinto-me, perante este cenário, como aqueles leitores da Maria que perguntam inocentemente, “será que isto é o que parece?“.

Estado sólido, Estado líquido e Estado gasoso

12 Jul

As vagas para o ensino superior público, crescem este ano, mas atendendo a que, “A Universidade do Porto se rege pelo direito privado, nomeadamente no que respeita à sua gestão financeira, patrimonial e de pessoal”, e é, com os seus 29 000 alunos, a maior do país, a que universidades se refere esta notícia?

As Universidades de Aveiro e do Porto, mudaram de regime jurídico, sendo agora Fundações. Não é segredo, mas parece. Fundação UP – DR

O debate sobre a constitucionalidade desta alteração e, sobretudo, sobre as suas consequências, não existiu ou não foi visivel fora da universidade. A questão foi votada e aprovada nas duas universidades e Mariano Gago estará satisfeito com a inexistência de visibilidade, de polémica e de desgaste. Não vi as posições dos partidos sobre a matéria e não haverá debate político ou atenção suficiente dos media num país a banhos. Os portugueses, até porque desconhecem a alteração, vão começar a preocupar-se com isto no momento de pagar as propinas do próximo ano lectivo (dados da UA apontam para aumentos superiores a 100%), sendo que a questão do valor a pagar, embora com um impacto imediato nas famílias, está longe de ser a mais importante.

Questiono-me sobre as razões que impediriam a autonomia universitária no quadro do ensino público e não as descortino. A Universidade é uma instituição demasiado importante para passar à margem do interesse do público e dos media mas poucos são os interessados em perceber as consequências do princípio do fim do ensino público e isso inclui docentes, alunos e pais. O siléncio dos docentes, que também desconhecem os termos da legislação, é assegurado pela manutenção dos direitos existentes. Se desejar saber porque é que uma garantia deste tipo não vale o papel em que está escrita, bastará recordar que não há vínculos que sobrevivam às instituições e que estas dependerão agora também de critérios de rentabilidade. Se as fundações têm, as más e as boas, uma imagem pouco transparente para o exterior, a forma como esta medida foi implementada nas costas da opinião pública, sugere que é por este caminho que se está a seguir.

Saber porque é que, neste cenário de desmaterialização do estado, devemos pagar impostos e onde vão eles parar, é uma outra questão. Há debates que são mesmo urgentes.

Manuel Pinho decide “investir”

2 Jul

Manuel Pinho faz chifres para bancada do PCP. Público

A infantilização da política atingiu novo máximo histórico. É do bom-senso, se restar algum, que o ministro da economia ou não está bem de saúde, ou não tem a menor noção do que é um parlamento ou, uma vez que esta imagem vai correr mundo, decidiu destruir, de uma assentada, a estratégia de promoção da imagem de Portugal. Seja qual for o motivo, perdeu todas as condições para continuar no cargo e para representar o país nas instâncias internacionais. Uma vez que esta peça da descredibilização da nossa democracia, será a notícia de abertura dos telejornais por todo o lado, espera-se, em nome da dignidade do estado, que o ministro se antecipe e apresente a demissão para não causar mais prejuízos ao país e ao governo desnorteado que integra.

Esperar pelo melhor – Joachim Posada

16 Jun

Poder-se-ia substituir aqui a ideia de sucesso pela de felicidade e a de receita pela de reflexão. Há algo no imediato que impede um sentido e uma satisfação maiores.

O M(in)istério da Educação

28 Maio

A DREN do Ministério da Educação, lá vai oscilando entre a inclinação para a poesia de algibeira e o despotismo burocrático, sem lograr sair do ridículo.
Uma professora de ciências do ensino básico que obteve uma decisão positiva sobre a passagem à reforma, foi impedida de dar aulas a partir de 31 de Maio, embora tenha manifestado a vontade de o fazer até finalizar o ano lectivo.
A “revolução” de que tem falado Vital Moreira, outro grande poeta vivo, não passa de mais papéis, incompetência e falta de respeito. As suas manifestações no quotidiano da DREN são tão más que, soubesse Margarida Moreira escrever, ninguém me tirava da cabeça que trabalha para a oposição.
Se ainda há alguém com vontade de defender Maria de Lurdes Rodrigues, o seu ministério e a sua direcção regional do norte, faça favor.

NO

18 Maio

O programa NO – Novas Oportunidades é um sucesso em termos de participação e de mobilização de expectativas. Conheço duas pessoas com mais de 40 anos, que se encontram nele inscritas e revelam entusiasmo, empenho e gratidão por poderem obter um grau académico que, de outra forma, não teriam possibilidade de acondicionar com a sua vida profissional, e isso é valioso. Ambas optaram pela elaboração do seu portfólio como proposta de validação do seu saber adquirido.
Portugal tinha, de acordo com os dados de 2005, 485.000 jovens entre os 18 e os 24 anos (45% do total) a trabalhar sem terem concluído o 12º ano. Destes, 266.000 não tinham concluído o 9º ano.
Este programa, destina-se a “adultos maiores de 18 anos” e afirma no seu referencial visar, entre outros objectivos, o reconhecimento formal dos “saberes e competências adquiridos ao longo da vida”. O acesso a adultos ao Ensino Superior fora das condições gerais de acesso, está vedado a menores de 23 anos, mas o programa Novas Oportunidades, confere diplomas válidos, segundo fonte do ME.

Ficam as perguntas:
– Este programa constitui ou não, para os jovens dos 18 aos 24 anos, um incentivo ao abandono, uma vez que podem obter o diploma do 12º sem frequentar a escola?
– Assim sendo, que motivação podemos fornecer aos jovens que procuram fazer a sua formação, frequentando o ensino secundário e submetendo os seus conhecimentos a exame nacional se o podem fazer de forma bem mais simples?
– Conferindo o diploma das NO, todos os direitos aos seus detentores, como é que se enquadra o acesso aos cursos superiores com as respectivas disciplinas e notas míminas de acesso?
– Será sério pretender que a elaboração e reflexão sobre o curriculum profissional e de vida de um adulto, constitua aptidão suficiente para a concessão do diploma ou estamos a criar ilusões perigosas?
– Sendo a definição das “áreas de competência-chave” suficientemente subjectiva para enquadrar no facilitismo que nos caracteriza e baseando-se se este programa numa directiva europeia nesse sentido, qual será o resultado efectivo na elevação do nível de formação das pessoas?
– No final deste programa, as estatísticas serão certamente outras, mas a realidade mudou?

Em conversa, um amigo que fez um comentário desfavorável ao post sobre o Manual do Aplicador (que por razões técnicas do wordpress ainda não consegui publicar) dizia que o maior problema da nossa democracia é a justiça. Eu creio que é a relação com a realidade.

Manual do Aplicador

17 Maio

Em “A rapariga de Monday”, Hal Hartley constrói a ficção de um mundo governado por uma agência de publicidade, numa ditadura de consumo. Os opositores, quando detidos, são condenados à função de … professores e limitam-se a vigiar alunos ligados a computadores. Quando vi o filme, achei que a prazo isso iria ser o quotidiano. Tenho dito a muitos amigos professores que o objectivo é dispensar a existência do professor como mediador. As pessoas não me levam a sério.
Li, no Público de hoje, as instruções do ME para as provas do 1º e 2º ciclo do ensino básico, de que anexo o pdf. Ocorreu-me a semelhança com os manuais de bricolage distribuídos gratuítamente nas grandes superfícies mas não havia comparação possível. Os manuais de bricolage incentivam a procura de soluções que revelem um toque pessoal na aplicação, na escolha das tintas, dos materiais, etc,.

“Não procure decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhe são apresentadas ao longo deste manual”.

Manual do Aplicador pdf

Assim sendo, porque não recorrer a uma empresa de segurança privada para alimentar mais um negócio de um amigo de partido, aos funcionários auxilares das escolas ou, porque não, a um sistema de transmissão vídeo em simultâneo, complementado pelas indispensáveis câmaras de vigilância?

Alguém aceita isto na sua profissão? Se este estado de coisas não define um regime autoritário, o que é preciso que aconteça para as pessoas se indignarem? A prepotência e o desprezo pelos cidadãos, espalha-se assustadoramente. Parafraseando o manual, “uma coisa que tenho para lhe dizer” Sra. Ministra é que ou anda muito mal assessorada ou o seu tempo não é este.

Mais um mandato e teremos o manual do inquisidor. Ou será ainda neste?

Reformar ou substituir o sistema de ensino?

12 Maio

Uma contribuição para o debate

De que falamos quando falamos de educação?

12 Maio

Quando um povo atinge um certo grau civilizacional, procura conservar e transmitir as suas características, o seu saber e até os seus objectivos como comunidade. E fá-lo através da educação.
É este sentido da educação, como forma de preservar e propagar uma existência social e espiritual através dos meios pelos quais a criamos historicamente, ou seja, por meio da vontade consciente e da razão, que de alguma forma se está a perder.
Esquecemos, algures, que não se trata apenas de melhorar a existência humana, mas da nossa preservação como sociedade. Esquecemos que o espírito humano tende à descoberta de si próprio e que, nesse processo, encontra o sentido da vida, razão pela qual a educação tem funcionado como a força criadora que nos impele para a ideia clássica de que o sentido da vida reside na busca de sentido e esta força assume-se sempre como a pergunta que nos faz avançar como seres e como espécie.
É por isso que o esquecimento desta ideia matricial por razões até de sobrevivência, nos desestrutura como sociedade, e nos coloca perante o paradoxo da Alice quando coloca a questão de que caminho seguir e obtém a resposta óbvia – “qualquer um, desde que andes o suficiente”. É por isso que talvez seja necessário pedir que falemos de educação.
Porque se tem existido uma “inclinação”, por assim dizer, da sociedade para a educação, e nada parece revelar mais a nossa evolução do que esta inclinação para o esforço constante de o fazer em conformidade com o sentir de cada sociedade e de cada nova geração ao longo de milhares de anos, não é menos verdade que a educação retribui sempre, participando da vida e do crescimento da sociedade, no seu destino, no seu desenvolvimento espiritual, na sua felicidade.
A educação depende da consciência dos valores que orientam a vida humana e a sua história está essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada tempo. Da sua dissolução, da sua debilidade advém a impossibilidade de qualquer acção educativa e creio que é aí que estamos chegados e que isso nos remete para dois temas indissociáveis: a implosão da família nas condições modernas da sua existência e a necessidade de uma utopia social como condição de agregação de uma sociedade que perdeu a noção de si e do local em que se encontra.
Se separamos a educação de tudo o resto, perdemos a noção da educação como objectivo último da comunidade e caminhamos para o suicídio como civilização, porque é precisamente o objectivo último da educação que a define.