Arquivo | Economia RSS feed for this section

Pois é…

8 Nov

Se designo o homem como “valor de troca”, a expressão implica já que as condições sociais o transformaram em “coisa”. Se o trato como “força produtiva”, coloco no lugar do sujeito real um outro sujeito, substituo o homem por um outro agente, e a partir daí o homem já só existe como causa da riqueza. A sociedade humana, toda ela, passa a ser uma máquina destinada a criar riqueza. A causa não é de modo algum superior ao efeito. O efeito passa a ser apenas a causa abertamente manifestada.

Crítica do Nacionalismo Económico de Karl Marx

O sistema financeiro visto pelo Barclays

11 Out

O Barclays nunca deixará de ser aquele banco que deu nome a uma cor para uns azul, para outros verde, mas sempre “barclays”. Pois bem, é, preto-no-branco, sobre um falso cenário que se debruça este anúncio brilhante, fornecendo uma das melhores, mais sugestivas e sinceras imagens do sistema financeiro, que já se criou. Pena é que as pessoas não acreditem que esta é a realidade e o resto, a ficção.

A avaliar pelas valorizações bolsistas a que, ainda esta semana, Joseph Stiglitz chama “exuberantemente irracionais”, isso não está para breve. As pessoas comuns parecem imaginar que regressamos à normalidade, os especuladores que a ficção é para sempre. A consequência vísivel é o facto de a confiança não se ter quebrado e as pessoas não terem corrido a levantar as economias a bancos que não as poderiam reembolsar mas, sem qualquer pedagogia visível, qualquer relação do sistema financeiro com a economia é, mais do que nunca, mera coincidência. Uma regra básica afirma que, um dia, o mercado corrige estas valorizações de 30%.

Mas este é um sistema autista, incorrigível e não reformável.

Para entender a “lavoura”

8 Set

As Chiquitas com o seu autocolante, são grandes, amarelas, não têm nódoas negras ou outros sinais de violência doméstica mas dificilmente poderiam ser parentes, mesmo que afastadas, das bananas da Madeira. É uma questão de gosto. Uma peça de fruta comida a partir de uma árvore sabe a fruta. Uma laranja comprada num supermercado tem o tamanho e a côr certos, tem até uma etiqueta e se calhar um molde de cartão prensado que a acomoda, mas sabe sobretudo a água e provêm por exemplo da Andaluzia, onde imensos lençois de plástico escondem “pomares” regados com água do Tejo e do Douro que percorre centenas de Kms em envazes para regar aquele solo.

Os frutos, no nosso clima ou noutro qualquer, têm uma época, mas os supermercados preferem contrariar a natureza a aborrecer-nos e vão comprá-los um pouco por todo o mundo, montando uma logística sofisticada, através da qual frutos oriundos de países de outros continentes são colhidos, embalados, transportados e postos nas nossas prateleiras mesmo a tempo de não lhes sentirmos a falta. Como esquecemos com facilidade aquilo que os nossos pais e avós sabiam, agarramo-nos à peregrina ideia de que os produtos frescos têm de estar disponíveis todo o ano e ter uma aparência semelhante à dos alimentos embalados pelo que escolhemos o que não presta mas tem bom aspecto, criando essa miragem de fruta e vegetais com tamanho e peso certos, tudo coisas que a mãe-natureza não pode nem deve oferecer-nos. E é assim que as peras importadas pelo Reino Unido têm um peso cuja tolerância máxima é de 14 gramas relativamente ao peso padrão e o feijão verde que entra em França deve ser direito e medir 10 cm.

Os produtores fazem entregas diárias de alimentos que chegam a viajar 15.000 kms, desenvolvem variedades mais resistentes de frutos e vegetais, encurtam o tempo de amadurecimento. Os supermercados, que são nossos amigos e não gostam de nos sobrecarregar com custos adicionais, passam a pressão para a produção que, por sua vez, “deslocaliza” para regiões mais favoráveis do ponto de vista climático e laboral, “absorvendo” os custos de transporte através de salários muito baixos, porque afinal alguém tem de os pagar. Um atraso significa a perda de um cliente e as grandes propriedades orientadas para exportação, seguem uma prática de sobreplantação que lhes fornece uma margem de segurança da qual resultam sobras obscenas. Como a pressão nos preços é contínua, produtores com uma lógica global como a Chiquita e a Dole, duas empresas americanas, são donas de metade do comércio mundial de bananas, e quando digo de bananas é porque é mesmo de bananas.

Não é por ser patriota e prezar a saúde, por gostar de coisas boas e defender a sustentabilidade, por ser um perito em economia que acabou de descobrir que há mais viabilidade numa produção de proximidade e à nossa escala, ou sequer por me passar pela cabeça que devíamos avaliar os contras de deixar de produzir localmente o que comemos, fosse porque acredito que o mundo não acaba em 2012, fosse por prever que se os camionistas decidem fazer uma greve, as prateleiras do sistema “just-in-time” vão ficar tão brancas como um armário de hospital.
É que neste divertido sistema em que os supermercados não pagam os custos do transporte, nós não pagamos preços altos mas também não comemos fruta fruta, e a “lavoura” (como diz o Paulo Portas) deita fora a produção de batata que não consegue vender aos supermercados, os nossos campos, à falta de melhor uso, podiam ser transformados em campos de golfe, um desporto (?) que requer imensa água o que, a prazo e com discrição, nos haveria de permitir usar a água dos nossos rios ou melhor ainda, desviá-la daquela porcaria das estufas plásticas espanholas onde se produzem as coisas que vão entregar ao Pingo-Doce, o sítio onde costumo esforçar-me por encontrar um simples pêssego português como aqueles da árvore que um dia plantei sem querer, colocando o primeiro visto no checklist do que deveria fazer de mim um homem mas não fez.

Os supermercados lá vão cumprindo a lei e informando a origem dos produtos. O que não conseguem é ter lá fruta, porque a fruta, como as pessoas, tem formatos, pesos e aparências diversas e uma vezes é verdadeira, outras não. Portanto, ou continuamos a levar para casa as “Barbies” insípidas à venda nos supermercados ou optamos pelas portuguesas que, embora mais pequenas e por vezes mal vestidas, sabem e cheiram muito, mas muito melhor.

Tempos houve em que se matavam os mensageiros quando as notícias eram más

13 Ago


Este é o 1º de 5 vídeos da mesma entrevista.

Afasto-me substancialmente da visão política de Medina Carreira e não compreendo que não se tenha tornado ainda claro que a natureza e modo de operação do investimento estrangeiro, seja em Portugal ou na Irlanda, não o recomendam como solução dos nossos problemas, comportando até uma componente de risco proporcional à dimensão dos projectos como se viu com o impacto da falência da Qimonda na balança comercial. A crise internacional esconde a profunda deteoração de uma economia nacional que cresceu nesta década a um ritmo nulo, tornando impossível a prazo a satisfação das responsabilidades sociais do estado no domínio das pensões, da saúde, etc.

Medina Carreira é, com a sua visão das coisas, um homem corajoso que denuncia uma forma de fazer política, um espectro partidário e uma corrupção que conhece. Fala da absoluta necessidade de criarmos riqueza como única forma de sair da situação em que nos encontramos, em oposição a investimentos loucos suportados nas teorias keynesianas que justificam o TGV, o Aeroporto de Lisboa e as auto-estradas que estão para vir, porque como afirmou, numa anterior entrevista a Mário Crespo, o dinheiro posto a circular vai comprar bacalhau da noruega, fruta de espanha ou israel, automóveis alemães, telefones finlandeses, gerando mais endividamento na medida em que nada produzirmos para consumir e exportar. Parece evidente, mas há quem ache que não é assim e o país parece de facto aturdido numa crise com contornos que lembram os últimos anos da monarquia e os primeiros da república.

Deixamos aos nossos filhos um país empobrecido, inconsciente e irresponsável, com um serviço da dívida que em apenas 13 anos, de 1995 a 2008, passou de 10 para 100% do PIB, no que representa um encargo anual só para satisfação de juros de 5.000 milhões de euros, equivalente, num termo simples de comparação, a toda a receita de turismo do país.

Poucos saberiam dizer tão desassombradamente as razões que movem as personagens de opereta que nos governam e as que nos oferece o outro partido que pode formar governo, como o fez Medina Carreira. Seria bom que o ouvíssemos e que esta entrevista tivesse tido lugar em canal aberto, nomeadamente no canal público.

Manuel Pinho decide “investir”

2 Jul

Manuel Pinho faz chifres para bancada do PCP. Público

A infantilização da política atingiu novo máximo histórico. É do bom-senso, se restar algum, que o ministro da economia ou não está bem de saúde, ou não tem a menor noção do que é um parlamento ou, uma vez que esta imagem vai correr mundo, decidiu destruir, de uma assentada, a estratégia de promoção da imagem de Portugal. Seja qual for o motivo, perdeu todas as condições para continuar no cargo e para representar o país nas instâncias internacionais. Uma vez que esta peça da descredibilização da nossa democracia, será a notícia de abertura dos telejornais por todo o lado, espera-se, em nome da dignidade do estado, que o ministro se antecipe e apresente a demissão para não causar mais prejuízos ao país e ao governo desnorteado que integra.

Black Hole

10 Jun

À atenção daqueles que descobriram as delícias do sistema financeiro (o buraco negro através do qual metem a mão nas poupanças dos outros). Na esperança remota de que a ganância tenha um desfecho justo.

Lê-se e não se acredita!

22 Maio

3ffaf761-2f15-495f-a9dc-452bf3320270

A administração da Auto-Europa propõe que as semanas de trabalho sejam de quatro dias de laboração em alturas de quebra e de seis dias em picos de produção, sendo os sábados pagos como um dia normal. Parece razoável nas actuais condições.
A comissão de trabalhadores não aceita o trabalho ao sábado sem prémio e torna esse facto público. O sector automóvel está e vai continuar em retracção. Os principais exportadores portugueses eram, no final do ano, a Petrogal, a Auto-Europa e a Qimonda. Segundo dados da empresa de 2007 a VW Autoeuropa emprega 2 990 trabalhadores e os seus fornecedores 2 350 no parque industrial e 3 750 na região. Esta história parece um “remake” da da Azambuja e se não houver bom senso dos trabalhadores vai acabar exactamente da mesma forma.

Economia para Leigos

21 Maio

“Numa pequena vila e estância na costa sul da França, chove, e nada de especial acontece.
A crise sente-se.
Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dívidas.
 Subitamente, um rico turista russo, chega ao foyer do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de €100 sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.
O dono do hotel pega na nota de €100 e corre ao fornecedor de carne a quem deve €100, o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar €100 que devia há algum tempo, este por sua vez corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este por sua vez corre a entregar os €100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os €100 e corre ao hotel a quem devia €100 pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.
Neste momento o russo rico desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos €100. Recebe o dinheiro e sai.
Não houve neste movimento de dinheiro qualquer lucro ou valor acrescido.
Contudo, todos liquidaram as suas dividas e este elementos da pequena vila costeira encaram agora optimisticamente o futuro.
Dá que pensar…”

Este texto circula na net.

Esta gente não aprende nada?

20 Maio

“Os gestores do instituto público da Segurança Social responsável pelo PPR do Estado aumentaram de forma expressiva a aposta em acções no mês passado, ao mesmo tempo que reduziram o investimento em dívida pública portuguesa. Uma estratégia que permitiu tirar partido da forte valorização das bolsas neste período.
A rendibilidade nos últimos 12 meses subiu para 5,85%. O montante sob gestão é de 5,6 milhões de euros.” in Jornal de Negócios 20-05-09

O investimento em acções foi feito na bolsa americana em detrimento da dívida pública. É destas manifestações de confiança na economia portuguesa que estamos a precisar. E que dizer das aplicações de risco com o dinheiro que os outros descontam e que imaginam acautelar as suas futuras reformas?

A estúpida economia

14 Maio

Estudos recentes, mostram que a maioria dos jovens encaram, no ocidente, o compromisso que consiste no casamento, na habitação própria ou na paternidade, não como um objectivo a alcançar, mas como um perigo a evitar.
Esta visão das coisas reflecte-se no facto de, actualmente, os filhos ficarem em (ou regressarem a) casa dos pais, após as licenciaturas ou se alguma experiência de emprego correr menos bem ou for, como quase sempre é, mal remunerada.
Se por um lado esta situação traduz um “modus vivendi” confortável entre pais e filhos que não era verificável apenas há uma geração atrás, por outro espelha as condições de incerteza da vida actual e é muito grave em termos futuros.
A taxa de natalidade é inferior à da renovação geracional, os jovens não têm qualquer cenário de estabilidade financeira a prazo e os pais vivem os anos mais interessantes das suas vidas a dar o suporte necessário às vidas dos filhos.
A questão não está tanto no papel dos pais na vida dos filhos. Está sobretudo na satisfação pessoal, no sentido da vida dos jovens e nas perspectivas a prazo que se lhes oferecem. Acabada uma licenciatura, e porque a inserção na vida profissional é praticamente impossível, segue-se um mestrado que equivale, após Bolonha, ao anterior grau académico da licenciatura mas com o ónus financeiro transferido do estado para as famílias. Ao mestrado, segue-se um doutoramento, e o facto de termos doutorados sem qualquer contacto com a vida profissional não parece preocupar ninguém. É o estado das coisas e aquilo que parece concentrar a nossa preocupação é manter os jovens ocupados ou, para usar a expressão corrente, “felizes”.
E olha-se à volta e fala-se e parece cada vez mais evidente que, mesmo num cenário relativamente tranquilo e até hedonista de classe média, as pessoas (não apenas os jovens) experimentam momentos de prazer de cada vez mais curta duração e fundamentalmente vazios de significado, traduzidos naquela sensação de nunca se estar bem onde se está, em ansiedade crescente, em alheamento, em desinteresse, em desilusão e falta de motivação e sobretudo de propósito.
É apenas uma espécie de “spleen” que paira sobre a sociedade e habituamo-nos a viver com ele, tristemente rendidos à falta de soluções ou perspectiva.
Isto não nos preocupa demasiado, mas devia. Há 10 anos, a solução de tudo estava na “economia, estúpidos”. Agora parece ser a estúpida economia e a sua lógica intrínsseca de precaridade e curto prazo, o problema. Entretanto, em todo o ocidente, o dinheiro dos contribuintes, desagua nas instituições que, usando a lógica vigente, foram alegremente conduzidas à falência. Alguém consegue imaginar o impacto que o mesmo dinheiro teria se injectado na economia real? Pior, alguém nos pode explicar porque vemos tanto dinheiro ser aplicado num sistema financeiro corrupto de alto a baixo, embora tão recentemente tenham sido pedidos grandes sacrifícios em nome do controlo orçamental que entretanto deixou de ser uma meta razoável?

“Estamos a pôr a resolver a crise as mesmas pessoas que a ajudaram a criar”

9 Maio

Joseph Stiglitz, Nobel da Economia em 2001, esteve ligado à política económica de Clinton e foi, mais recentemente, conselheiro da administração Obama cujas soluções para a crise financeira, criticou fortemente.
“Estamos apenas a passar de uma queda abrupta para uma recessão profunda”, disse Stiglitz que traçou uma perpectiva negra para os tempos mais próximos. Na sua opinião, há dois cenários. No optimista, entramos na chamada “doença japonesa” com a economia estagnada e bancos “mortos-vivos”, mas demasiado grandes para falirem sem arrastarem consigo tudo o resto. No pessimista, a economia entrará de novo em queda livre porque não se resolveram os problemas que estavam na base.
Queriam boas notícias?
Este economista afirma que o problema começou no momento em que as instituições financeiras convenceram os governos a desregular os mercados. Nós diríamos que começou ainda antes, no próprio paradigma que orienta esta economia, mas é curioso como os mais credenciados economistas do sistema vêm dizer isto e, ainda mais curioso, como ninguém parece interessado em ouviu-los.
Fukyuama, o homem menos suspeito de criticar o sistema, tinha já afirmado na “Construção dos Estados”, que a desregulamentação nos iria conduzir à selvajaria e feito mea-culpa. De que se riem os participantes nas reuniões dos vários Gês, cujas imagens se passeiam pelos noticiários?

(Parte da) crise explicada

7 Maio