Arquivo | Deus RSS feed for this section

A propósito de “Caim”

1 Set

A apresentação, por Saramago, do livro “Caim” coloca uma questão incontornável: poderá um mau leitor ser um grande escritor?

Partindo da assumpção verdadeira de que realmente quase ninguém leu a bíblia, Saramago dirige aos que sobram uma afirmação espantosa mas pouco original “Quem leu a Bíblia, sobretudo o Pentateuco, percebe que tudo aquilo é absurdo e mais que absurdo, em muitos casos, criminoso”. Do estado interpretativo de Saramago, o mínimo que se pode dizer é que é insuficiente.

A Bíblia é um livro de narrativa mista no qual o narrador se não confunde com o(s) autor(es). Esse livro que constitui uma parte incontornável da herança do ocidente, seja em Isaías ou Jeremias, seja no Deuterónio, coloca-nos perante uma interpretação teológica da história, orientada para uma ética, envolvida num extraordinário poema. Nesta medida a pergunta “Que Deus é este que manda Abraão sacrificar o seu filho Isaac“ limita-se a repetir algo que Mark Twain disse com deliciosa ironia há muito tempo, e revela um leitor que não pressente uma dimensão essencial da Bíblia, a das sombras que somos e das sombras que perseguimos.

Uma vez que Saramago se apropria dos temas e da sua inesgotável plasticidade temporal, tudo recomendava que avaliasse as diversas hermenêuticas da Bíblia e assumisse que compreender um texto é compreender-se diante dele, expondo-se e recebendo dele um eu tão mais vasto quanta a capacidade que tivermos de, como leitores, correr riscos. Se a tomar no sentido literal não logra sequer uma ténue aproximação ao significado e, sem o realizar, desrespeita o extraordinário legado que constitui e coloca-se mais perto da ignorância. Flaubert conta que Santo Antão, atormentado, por 5 vezes abriu a Bíblia em busca de protecção e em todas elas as mãos lhe tremeram e o eremita a fechou, compreendendo que “o Livro é o lugar da tentação”. É exactamente por não olhar a essa dimensão que Saramago se diminui e torna evidentes algumas limitações.

Reflexo do próprio medo, necessidade de obter um efeito adicional na promoção de livros que parecem ter de sair anualmente por contrato, afirmar banalidades como: “Deus não existe, está na nossa cabeça, foi por nós inventado”, quase incorre no argumento ontológico de Santo Anselmo. A forma como Deus lhe frequenta a obra, e o postulado obsessivo de Saramago sob o tema, parecem produzir o efeito inverso, trabalhando afincadamente no sentido de ir fornecendo provas da Sua existência e ilustrando involuntariamente a ideia de que nos “tornamos escravos da nossa invenção”, incluindo-se.

A Saramago, que reconhece que os seus valores estão “empapados” de mentalidade cristã, escapou uma ideia: os cristãos só são piores porque têm obrigação de ser melhores. É que, até para qualquer agnóstico como eu, que celebre o Natal, a simples imagem de uma mãe com um bebé terá sempre o sabor do sagrado, e cada metáfora do Velho Testamento conterá sempre a sugestão da sabedoria dos seus múltiplos níveis de leitura, enriquecida da brandura que o Novo Testamento lhe contrapôs. Não gostava de pensar que este livro contorna o enigma e evita essa sensação de que, mesmo sem alcançarmos, haverá nesta história algo que vale a pena compreender. Há uma passagem da Bíblia que, em minha opinião, diz o que é importante dizer neste momento:

“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venham os dias maus, e cheguem os anos, dos quais dirás: ”Nenhum prazer tenho já neles”;
antes que escureçam o sol e a luz, a lua e as estrelas, e voltem as nuvens depois da chuva, e que os guardas da casa comecem a tremer, e então se dobrem os mais fortes;
quando as mulheres deixarem de moer, por já poucas restarem, e virem o escuro aqueles que olharem da janela;
quando a porta da rua se fechar, e enfraquecer no moinho o som da mó, quando te levantares ao cantar de um pássaro e emudecerem as canções;
antes que a altura faça medo e haja sobressaltos no caminho, e esteja em flor a amendoeira, e comece a inchar o gafanhoto, e a perder o seu sabor a alcaparra, e a encaminhar-se o homem para a sua casa eterna, e a sair à rua aqueles que o vão chorar;
antes que se rompa o fio da prata e se quebre a bacia de oiro;
antes que na fonte se quebre o cântaro, e se desenrole a roldana da cisterna;
antes que o pó volte à terra de onde veio e que o espírito volte a Deus que o concedeu.

Vaidade das vaidades – diz Cohelet – tudo é vaidade.

Daniel Dennett e Darwin

27 Jun

Ou de como um bom design não requer um designer inteligente.

21 Gramas

26 Jun

As grandes religiões encaram a morte com tristeza, embora alimentem a ideia de uma vida para além dela. A ciência, por sua vez, não provou a improcedência desta crença. Na nossa cultura, lidamos todos com o doloroso facto de algo nos ser tirado com a morte de alguém que nos é querido, e somos afinal, crentes ou não, cépticos com a “outra vida” ou pelo menos com a bondade da mesma.
A ideia de uma alma separada do corpo, é uma idéia socrática mas está tão profundamente inscrita em nós que se confunde com aquilo que realmente a Bíblia diz. Sócrates baseava a indestrutibilidade da alma na sua natureza una e imaterial, uma idéia poderosa que influenciou os pensadores cristãos e chegou, numa forma modificada pela doutrina da igreja, até nós. Mas o que o Velho Testamento realmente afirma é a convicção de que Deus nos fará regressar à vida após a morte. Estas duas noções são bastante distintas, sendo que a da Bíblia requer imenso espaço. Na acepção do filósofo uma alma imortal, não carece de ressureição. Na de S. Paulo, nada resta de nós após a morte e a esperança reside na hipótese de que Deus, à semelhança do que fez com o Filho, nos ressuscite atribuindo-nos uma vida eterna.
21 gramas é aparentemente, e socorrendo-me do belíssimo filme de Iñarrito, o peso que perdemos instantâneamente quando morremos. Um maço de tabaco. MacDougall afirma esta teoria da alma que se solta, enquanto os desmancha-prazeres reduzem o fenómeno a uma perda de água que resulta da subida de temperatura corporal no momento em que o fluxo sanguíneo cessa de ser arrefecido pelos pulmões, imagem plausível, mas muito menos atraente.
21 é também o nosso século. Há muito que sabemos ser “feitos da matéria das estrelas” e esta convicção sugere uma abordagem tão científica quanto poética de como a nossa vida continua e alimenta um perpétuo círculo que se reinicia no momento em que somos pais e se prolonga quando, de uma forma ou outra, incorporamos a natureza com a nossa matéria. Se transportamos a nossa informação (as nossas memórias) essa é outra questão. Gosto de pensar que sim. Mas a morte, essa, não há meio de nos surgir como algo que dá valor e beleza à vida tomada como oportunidade e adquire ainda significado como etapa, como um necessário dar lugar, como um ponto final que, numa frase, torne o grande livro mais inteligível.

Beatitude

24 Jun

Num artigo do blog The BEattitude é colocada a seguinte questão:
Porque acredita tanta gente em Cristo?
E deixa-nos com as seguintes estatísticas:

93% dos Americanos possuem uma Bíblia.
Apenas metade dos Americanos consegue citar o nome de um Evangelho.
A maioria dos Americanos desconhece que o Génesis é o primeiro livro da Bíblia.
60% dos evangélicos acredita que Jesus nasceu em Jerusalém e não em Belém.
22% dos universitários pensa que Moisés foi discípulo de Jesus.
Metade dos mesmos alunos pensa que Sodoma e Gomorra são um casal.
1 em cada 10 Americanos acredita que Joana d’Arc foi a esposa de Noé.
60% dos Americanos não consegue nomear 5 dos 10 mandamentos.
Um terço não identifica Mateus como um apóstolo a partir de uma lista de nomes do Novo Testamento.

Tecnologia grátis, mesmo Grátis?

15 Jun

No grau em que as coisas estão, a internet é um dos raros espaços democráticos e relativamente livres da comunicação. Contém informação, diversidade de opinião e uma quantidade de lixo inesgotáveis. Está lá “tudo”, com tudo o que isso implica.
O Gmail convida-nos a nada deitar fora, oferecendo cada vez mais espaço de armazenamento (actualmente 2,7 Gb) algo que requer um número exponencial de servidores com espaço em disco e custa muito dinheiro, sem nos pedir nada em troca.
Para distribuir o mal pelas aldeias, a Apple (a minha aldeia) com o conceito Mobile Me e o próprio desenho do Airbook, convida o utilizador a usar os servidores da empresa em detrimento do disco rígido, pondo os ficheiros pessoais à nossa disposição mesmo quando o nosso computador não o está.
O Google dará em breve, na Web 3, uma súmula das respostas a uma busca, e esta súmula surgirá à cabeça dos cinco milhões de respostas que nunca temos tempo ou paciência para consultar, o que parece uma boa idéia com um “pequeno inconveniente”: para os que apenas conhecem as delícias da net como forma de pesquisa e olham a wikipédia como a enciclopédia da humanidade, esta súmula será não uma resposta mas a resposta.
Por analogia com o valor da expressão “deu na televisão”, que toma como relevante e confiável aquilo que é veiculado pelos media, “estar na net” passou a ser critério de verdade e, mesmo sendo as suas fontes dificilmente verificáveis, a net tenderá a tornar-se o fornecedor de informação dos restantes media.
Escolhemos “servir a este Deus”, o deus tecnológico gratuíto, e dedicamos-lhe tanto mais aquiescência irracional, quanto menos tivermos crescido numa sociedade em que fomos obrigados a desconfiar da informação ou, pelo menos, a pensá-la.
O que precisamos de saber sobre tecnologia já não é como usá-la – qualquer criança o sabe sem ir à escola, mas de olhar para a maneira como a tecnologia nos usa. Isto é, precisamos mais de ensinar crianças e adultos a fazer perguntas sobre ela do que a receber as respostas que ela lhes dá.

Cartas da Terra

1 Jun

“Este é um lugar estranho, um lugar extraordinário e interessante. Não há nada que se assemelhe por aí. As pessoas são todas loucas, os outros animais são todos loucos, a terra é louca, a própria Natureza é louca.

O homem é uma curiosidade maravilhosa. Quando está no seu melhor, é uma espécie de anjo niquelado de baixa categoria; no seu pior, é inqualificável, inimaginável; e, tudo considerado e a toda a hora, é um sarcasmo. Apesar disso, intitula-se de modo lisonjeiro e com toda a sinceridade, a “mais nobre criatura de Deus”. É a verdade, isto que vos conto. E esta ideia não é novidade nele: ele tem-na discutido ao longo dos tempos e acreditado nela. Acreditado nela, e não encontrou ninguém em toda a sua raça que se risse disso.”

Carta do Arcanjo Satanás in Cartas da Terra de Mark Twain

Histórias do Bom Deus

19 Maio

Para ter pelo menos uma alegria depois de tanta desgraça, ordenara às mãos que Lhe mostrassem o homem antes de o entregarem à vida. Repetidamente perguntava, como as crianças quando jogam às escondidas: ‘Já posso?’ Mas em resposta apenas ouvia o moldar das mãos e ficava à espera: Parecia-lhe uma eternidade. E, de repente, viu algo escuro cair através do espaço como se partisse de junto de Si. Cheio de um mau pressentimento, chamou as mãos. Elas vieram, todas sujas de barro, quentes e trémulas. ‘Onde está o homem?’, gritou-lhes. Então a direita culpou a esquerda: ‘Tu é que o deixaste cair!’ ‘Ora’, disse a esquerda irritada, ‘quiseste ser tu sózinha a fazer tudo, não me deixaste intervir’. ‘Tu devias era tê-lo segurado!’ E a direita levantou-se. Mas depois caiu em si, e ambas as mãos disseram, superando-se: ‘O homem estava tão impaciente! Queria era viver. Não conseguimos fazer nada dele e, naturalmente, estamos inocentes.’

de Rainer Maria Rilke

Há um tempo para tudo

8 Maio

“Há um tempo para tudo, e cada coisa tem o seu tempo debaixo do céu.

Um tempo para nascer
e um tempo para morrer;
um tempo para plantar
e um tempo para arrancar.
Um tempo para matar
e um tempo para curar;
um tempo para destruir
e um tempo para construir.
Um tempo para chorar
e um tempo para rir;
um tempo para o lamento
e um tempo para a dança.
Um tempo para atirar pedras
e tempo para as apanhar;
um tempo para o abraço
e um tempo para o soltar.
Um tempo para buscar
e um tempo para perder;
um tempo para guardar
e um tempo para deixar.
Um tempo para o rasgão
e um tempo para o coser;
um tempo para calar
e um tempo para falar.
Um tempo para o amor
e um tempo para o ódio;
um tempo para a guerra
e um tempo para a paz.

Eclesiastes