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A carreira de um corrupto

31 Out

Começou por se inscrever num partido (no PS ou no PSD, evidentemente). Ou tinha influência, própria ou da família, ou conseguiu arranjar um “protector” (um empresário, um advogado, alguém com prestígio ou com dinheiro) para se promover a presidente da concelhia ou a qualquer cargo de importância. Daí passou para a administração central, para a Câmara do sítio ou, com muita sorte, para uma empresa pública. Com o tempo chegou a uma situação em que podia “pagar” os “favores” que até ali recebera e fazer novos “favores”, em que já participava como sócio. Entretanto conhecia mais gente e alargava pouco a pouco os seus “negócios”. Se punha o pé fora da legalidade, punha com cuidado, bem protegido por amigos de confiança e pretextos plausíveis.

Um dia, por fidelidade ao chefe, “trabalho” no partido (financiamento directo ou indirecto) e recomendação de interesses “nacionais”, foi chamado ao governo: a secretário de Estado, normalmente. No governo, proibiu ou permitiu conforme lhe convinha ou lhe mandavam e convenceu outro secretário de Estado ou mesmo um ministro mais “versado” ou “ingénuo” a colaborar na sua “obra”. Torcendo uma regra aqui, explorando uma ambiguidade ali, a sua reputação cresceu. Não precisava agora de se mexer. Era, como se diz no calão da tribo, um “facilitador”. A iniciativa privada gostava dele, o “sector público” gostava dele, o alto funcionalismo (a quem, de quando em quando, dava uma gorjeta) gostava dele. Ninguém lhe tocava. O corrupto ascendia à respeitabilidade. E anda, por aí, no meio de nós.

Vasco Pulido Valente no Público

A corrupção é um imposto e é o mais alto de todos. Não é preciso ir a Angola, basta olhar à nossa volta.