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Good Vibrations

5 Nov

Temos a liberdade de tudo ver e também a de escapar a nos ligarmos ou responsabilizarmos por algo. A consequência de viver assim, recorrendo a uma expressão da contabilidade, é uma espécie de “lucro cessante”, através do qual perdemos por deixar de fazer algo (por exemplo, ter um andar para alugar e não o alugar). Viver como espectador tem essa consequência. A perda está precisamente no que podíamos ter feito e não fizemos, porque tudo serve para nos entreter mas sem nos implicar.

Este trabalho de Jérémy Clapin, realizado para o Responsibility Project, uma comunidade on-line que troca experiências e divulga material diverso,encorajando a responsabilidade para com os outros, ilustra-o com humor e realismo.

O grande-escritor, visto de frente

22 Out

“Meu caro amigo” composta por Francis Hime para Chico Buarque, aqui num inspirado arranjo de Eduardo Jordão

A verdadeira dificuldade na vida de um grande escritor surge apenas quando age como homem de negócios na vida intelectual, mas, por tradição, de forma idealista;
(…)
O homem de negócios ambicioso encontra-se hoje numa situação difícil. Se quiser estar à altura das antigas forças do ser, tem de articular a sua actividade com grandes ideias. Acontece que hoje já não existem grandes ideias em que se acredite sem contradições, pois este nosso presente céptico não acredita, nem em Deus, nem na humanidade, nem em coroas nem na moralidade – ou então acredita em tudo isso ao mesmo tempo, o que vem dar ao mesmo. Assim sendo, o homem de negócios, que não está disposto a abdicar de grandes ideias que lhe sirvam de bússola, teve de recorrer à estratégia democrática de substituir o incomensurável efeito da grandeza pela grandeza mensurável dos efeitos.

“O Homem sem Qualidades” de Robert Musil

Vídeo via A Barriga de um Arquitecto

Sentado num cadeirão, emigrante de si mesmo

18 Out

Um português de 62 anos, morreu, há dois anos, em sua casa, nos arredores de Paris. Só na passada segunda-feira foi encontrado. Mesmo sabendo incorrer num raciocínio perigoso, não me abandona a imagem da pele que, sob o desgosto e a dor, encolhe e mumifica como a deste homem. Creio que estes casos deixarão de ser notícia à medida que se tornarem cada vez mais frequentes.

A imprensa francesa referiu-se, a este propósito, à grande solidão das sociedades modernas. A portuguesa, ouviu uma das filhas que não encontra explicações “para uma situação destas” e se pergunta como é possível nos tempos de hoje, ninguém se ter apercebido. A mesma indignação mostrou a sobrinha à porta da casa que José construiu e, no momento em que leio este parágrafo, penso se este emigrante terá sonhado instalar-se por França e apenas construir aqui a casa que testemunhasse perante os seus, o esforço de uma vida, sabendo intimamente que nunca regressaria.

Desconheço e não são para aqui chamadas as suas circunstâncias pessoais e familiares mas, ao contrário da filha e da sobrinha, sei que nunca foi tão possível, como nos dias de hoje, uma coisa destas acontecer. Seja porque razão for, a família próxima, filhos, irmãos e ex-mulher, estiveram ausentes do processo tendo, ao longo destes dois anos, vivido apenas “a sua vida” sem dar seguimento a questões que despoletassem as diligências necessárias a saber o que se passava.

A figura de um pai, no seu esforço como modelo de vida e instância moral, costumava viver pela passagem do testemunho. Havia até, em certas sociedades, um mito segundo o qual, quando um pai morria o filho recebia uma marca da sua mão, passando-lhe desta forma e num último acto de interiorização, a autoridade.

Apáticos, precocemente cansados da vida, limitados à busca do conforto e da segurança, vai-se afastando das nossas vidas a possibilidade de ligações, sejam de que natureza for. Chegamos aparentemente a um ponto em que são maiores os riscos para aqueles em quem vive a memória, seres incómodos que atraem a si a censura dos que vivem para se esquecerem, uma estranha opção.

Talvez não possamos saber o que se quebrou para se instalar esta “solidão total”, mas fica a questão de saber em que consiste isto de viver como nos compete.

Surface

13 Out

Por TU+// Varathit Uthaisri

Há um graffiti no chão da montra de uma galeria no Porto que, com muito humor, diz “visto daqui, já era tempo de mudares de roupa interior”. Não vou usar mais analogias sobre superfícies e opacidade. Mas é mesmo para não estragar este vídeo. Acabou o Prós e Contras. Péssimo jornalismo, péssima presidência e péssimo governo. Não haverá maneira de lavar este dossier? Desculpem o comentário, mas fica-se enjoado. Usufruam este filme se faz favor.

Cacafónico, mas genial

10 Out

Como fazer com que subir degrau a degrau seja tão divertido que preferimos fazê-lo a tomar a escada-rolante?

TheFunTheory, uma iniciativa da Volkswagen. À atenção de quem enfrenta a necessidade de induzir mudanças comportamentais, nomeadamente em núcleos urbanos. Recomendação para o Metro do Porto, estação Casa da Música. É mais fácil se o esforço que pedimos diverte as pessoas.

Via Susana Alpalhão

Valsa de Bashir

5 Out

A consciência e a coragem de um realizador israelita, Ari Folman, que com 6 ilustradores e um orçamento diminuto, desenterra a história das profundezas da sua/nossa memória trágica e criminosamente selectiva e faz um filme de uma terrível beleza sobre a natureza da memória e da negação que permite que estas coisas aconteçam e se repitam.

Pela acção de apagamento poupamo-nos a um olhar para além do horizonte da sobrevivência e repousamos no simulacro em que aparentemente já expulsamos a violência, o mal, a negatividade e até a morte do nosso sistema de valores, como se cada um de nós não soubesse, no plano público e privado, que é precisamente a história que mais magoa.

Quase tão significativo como a exposição deste modus vivendi perverso, é o facto deste ser um filme israelita que denuncia um massacre onde, embora com a cumplicidade de Israel no terreno, os autores são cristãos libaneses. Não há lados bons neste conflito sem raízes históricas anteriores ao séc. XX, um século recheado de perseguições e violência mútuas. A existir um caminho para as conter seria este, mas quem são os que querem percorrê-lo?

Excerto da sequência do pomar, com “Arioso” de Bach em fundo. Inesquecível.

Desactivar o Facebook

1 Out

Uma das definições de sabedoria que mais me agrada, é a de conseguir “participar de” ou atingir uma espécie de quietude em si mesmo. Um tipo de quietude eventualmente emanada de Deus, mas em todo o caso auto-referencial. Uma quietude qualificada como uma vida, em oposição à formulação de Santo Agostinho de uma vida condenada à inquietude: “in experimentis volvimur”, de prova em prova.

“Todo o Ser no conjunto do mundo é um Tempo separado num contínuo. E dado que o Ser é Tempo, eu sou o meu Ser-Tempo”

A ideia, expressa nesta citação de Eihei Dogen, no séc. XII, postulava que a substância e o eu são postos em causa pelo movimento, mas não podia antecipar que, nove séculos mais tarde, num tempo em que era suposto não sentirmos a angústia do aborrecimento ela se amplia todos os dias através da circulação da informação.
Sem sequer nos apercebermos, está em marcha um mecanismo que torna cada vez mais impraticável a quietude e o desfrute, indistinguível a amizade de um mero contacto. Parece não existir qualquer possibilidade de nos escondermos do movimento e não resta nenhuma circunstância que o detenha no seu acto de transformar tudo na sua aparência, reduzindo a pessoa ao “avatar” que desfila numa cada vez mais longa lista.
Quando a velha fómula de Heidegger de “estar-no-mundo” como “estar-na-complexidade” se amplia até o “estar-no-caos” ou pior, até este insubstancial movimento hipnótico colectivo através do qual confirmamos o pedido de amizade de alguém, reduz-se o significado e pouco nos restitui o exercício de prestar atenção ou pensar. Com amigos verdadeiros no mundo real, só temos de escolher o que fazemos com o nosso “Ser-Tempo” e “desactivarmo-nos”, salvaguardando, na medida do possível, o nosso espaço privado no mundo “off-line”. Foi o que fiz hoje.

Lost in Translation

24 Set

Luís Amado, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Sócrates, deu instruções ao embaixador português na UNESCO, Manuel Maria Carrilho, para votar no candidato egípcio a secretário-geral da UNESCO, Farouk Hosny, que apoiado pela Liga Árabe, pela Organização da Conferência Islâmica e pela Organização da Unidade Africana, conseguiu cativar o voto da Itália de Berlusconi e o estranho apoio do Brasil, cujo Presidente Lula da Silva, outro pragmático homem de negócios, se recusou a patrocinar a candidatura do seu compatriota Márcio Brabosa, actual director adjunto da UNESCO.

Colocando a consciência acima da norma, Manuel Maria Carrilho desobedeceu, mas não levou a atitude, que aqui elogio, até à sua última e única consequência, a demissão. Hosny, pintor e ministro da Cultura do Egipto desde 1987, pratica abertamente a censura de filmes, livros e concertos no seu país e afirmou recentemente que queimaria pessoalmente todos os livros israelitas que encontrasse na Biblioteca de Alexandria, cidade onde nasceu. Debaixo da sua tutela, nenhum trabalho intelectual pôde ser tornado público sem licença das autoridades censoras religiosas do Instituto Teológico islâmico al-Azhar, elaborou-se a lei que prevê a pena de prisão em “caso de utilização abusiva da Internet” e três dos seus colaboradores directos, bem como o seu ex-chefe de gabinete, foram recentemente implicados no tráfico de tesouros arqueológicos egípcios.


Penso que Portugal, que terá votado como moeda de troca do apoio Egipcío à nossa entrada como membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, anda de facto na companhia de gente pouco recomendável. No passado 1 de Setembro, Luís Amado assistiu em Tripoli às comemorações do 40º aniversário da chegada ao poder de Muammar Khadafi, e levou consigo a Força Aérea Portuguesa para participar no desfile comemorativo. Mais uma deplorável demonstração da falta de princípios da nossa política externa.

Farouk Hosny perdeu felizmente a eleição e Irina Gueorguieva Bokova, embaixadora da Bulgária em França foi eleita.

11’09”01

11 Set

O 11 de Setembro de 2001 foi algo que não nos atreveríamos nunca a imaginar. Em tempo real, imagens da catástrofe em toda a sua violência, atingiram-nos nas nossas casas. De um golpe, a aflição tornou-se universal.
(…) Evocar o eco planetário deste evento de outra forma que não a destas imagens terríveis, impôs-nos rapidamente um dever de reflexão. Uma reflexão que não poderia apenas cingir-se ao presente mas ser orientada ao futuro e fosse capaz de mudar de lugar, de viajar. Que respondesse às imagens com outras imagens.
Pedi assim a 11 conhecidos realizadores um olhar que partisse das suas culturas, das suas memórias, das suas histórias, da sua linguagem. O objectivo definido era “criar um filme de onze minutos, nove segundos e um frame – 11’09’’01 – em torno dos eventos do 11 de Setembro e das suas consequências” – Declaração do produtor.

Destaque para a forma como o olhar doce e triste de Sean Penn, o único americano que integra este trabalho, revela a capacidade de se rever ao espelho e consegue inspirar um respeito profundo. No comovente pano de fundo da tragédia pessoal e do alheamento daquele homem de idade, a representação da queda da torre através do percurso da luz que volta a iluminar o interior do apartamento, é uma imagem difícil de esquecer.
Ken Loach fala de outro 11 de Setembro no seu filme, o do Chile, onde na mesma data se cumprem 36 anos sobre o golpe de estado que, financiado e aprovado por Nixon e Kissinger, derrubou Salvador Allende através do assassinato e abriu caminho a uma ditadura sangrenta.

Vale a pena reflectir no horror do 11 de Setembro e naqueles a que se assistimos um pouco por todo o mundo. O memorial que este conjunto de filmes constitui, é um convite oportuno.

Bom é aquilo que nos dizem que é

9 Set

Este vídeo está na net há algum tempo. O “Washington Post” decidiu lançar um debate sobre valor, contexto e arte. Convidou Joshua Bell, um dos mais importantes violinistas do mundo, a interpretar num Stradivarius de 1713, a mesma peça que havia tocado dias antes no Symphony Hall de Boston, com lugares a 100 dólares.
Bell desceu humildemente na estação do metro de Washington vestindo jeans, camisa e boné, encostou-se próximo da entrada, tirou o violino da caixa e começou a tocar para a multidão que por ali passava na hora de ponta. Durante 45 minutos foi apenas reconhecido por uma mulher e ignorado pelos restantes homens e mulheres apressados, copo de café na mão, telemóvel no ouvido, indiferentes ao violino.

Ainda há pouco falava disto a propósito de Juan Muñoz cujas esculturas ao ar livre continuam a ser ignoradas e vandalizadas na cidade do Porto, embora a sua exposição recente em Serralves haja sido um sucesso de afluência. Bom, é aquilo que nos dizem que é, o que foi validado e tem a moldura de uma instituição ou é tema nos media. Bem-vindos ao mundo da aparência e da representação.

A Itália já não existe. Resta um estado de espírito indiferente a tudo.

24 Ago

O diário da Conferência Episcopal, o Avvenire, em editorial na primeira página sob o título “Indiferença tranquila”, comenta a morte dos 73 imigrantes ignorados por uma dezena de barcos que passaram por eles, nestes termos:

Quando hoje lemos sobre as deportações dos judeus sob o nazismo perguntamo-nos: seguramente as populações não sabiam. Mas estes comboios cheios, as vozes, os gritos nas estações, ninguém os via nem ouvia? Na época era o totalitarismo e o terror que faziam fechar os olhos. Hoje não. Uma indiferença tranquila, resignada, talvez mesmo uma aversão ao Mediterrâneo. O Ocidente tem os olhos fechados

O jornal católico prossegue dizendo que, “nenhuma política de controlo de imigração permite que a comunidade internacional deixe um barco carregado de náufragos entregue ao seu destino”. “Há uma lei do mar, bem mais antiga do que a codificada pelos tratados. Ela ordena: no mar, socorre-se”, sublinha, notando que, “pelo contrário”, este barco parece falar de uma outra lei: “Não parar, continuar”. Violar essa “antiga” lei “ameaça as nossas raízes fundamentais, a ideia do que é um homem e de como ele é precioso”.

Esta era uma tragédia anunciada que vem na sequência da lei denunciada pelo Manifesto dos Intelectuais Italianos a favor dos imigrantes. que afirma que “em virtude de uma decisão política, vinda de uma maioria efémera, as crianças nascidas de mulheres estrangeiras em situação irregular serão durante toda as suas vidas filhos de ninguém. Elas serão tiradas de suas mães e colocadas nas mãos do Estado. Nem o fascismo foi tão longe. As leis raciais instauradas por esse regime em 1938 não privavam as mães judias de seus filhos, nem as obrigava a abortar para evitar que tenham confiscadas suas crianças pelo Estado.”

O Senado italiano aprovou a lei que cria o delito de imigração clandestina passível de uma multa de até 10 mil euros além da expulsão imediata. A lei apela à denúncia das pessoas nesta condição e cria a base legal da sua perseguição. Na sequência da sua aprovação, surgiram os “City Angels”, brigadas que percorrem as ruas em busca de pessoas nesta situação, traduzindo o clima de intimidação, violência e delação, mas sobretudo revelando o país moribundo, alienado e sem valores que tolera Berlusconi.

Os emigrantes mortos eram originários da Eritreia, uma ex-colónia italiana que corresponde sensivelmente à antiga Abissínia. Portugal tem com esta região uma antiga relação nascida no contacto e apoio de D. João II ao reino cristão de Prestes João, que incluía na altura a Abissínia.

Para além do mal

23 Ago

A propósito da pintura de Paul Klee “Angelus Novus” que mostra um anjo cujo rosto parece virar-se para o passado, Walter Benjamim, disse

Onde nós percebemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê somente uma catástrofe única, que lança e acumula sem cessar aos seus pés escombros sobre escombros. O anjo gostaria de ficar, despertar os mortos, e reparar o que foi destruído. Mas do paraíso sopra uma tempestade, que lhe apanha as asas com tal violência que não pode voltar a fechá-las. A tempestade impele-o irresistivelmente na direcção do futuro para o qual está de costas voltadas, enquanto o amontoado de ruínas cresce à altura do céu. Esta tempestade é aquilo a que chamamos progresso

Este extraordinário filme promocional da Philips, representa como banalidade espectacular uma orgia de morte. Transporta-nos como voyeurs de uma cena congelada no sentido histórico e literal, mas percorre-a extensamente, fazendo-nos participantes da pornografia do nosso tempo, a visibilidade total e o poder experimentável, num jogo de vídeo ao qual sujeitamos os sentidos a um caos absoluto.

Nesta pulsão/constrangimento que faz perder a quem a experimenta a possibilidade da classificação, desorienta-se a nossa relação com a representação que temos do bem e do mal. Separados do princípio da realidade e, face à imposição da fruição da violência brutal, nenhuma liberdade nos resta para além de lhe resistirmos.
Esvaziada a narrativa e retirada a espessura que um motivo lhe daria, a fruição do excesso mostrado em suspenção e a nossa atracção e tolerância à cena são eloquentes símbolos pós-modernos.

Civilização e Humanidade

21 Ago

É isto!

Contra a opinião dos EUA e do governo Inglês, a Escócia acendeu uma luz de civilização e humanidade, difícil de digerir pelas famílias das vítimas, mas encerrando, de facto, um sentido profundo e cada vez mais raro num mundo insano. Aprendemos todos com esta declaração.

Profundamente perturbador

21 Ago

Estupidamente insensível e insano é isto.

Mesmo não se podendo apurar inteiramente a responsabilidade directa de Abdelbaset al-Megrahi, no atentado de Lockerbie, no qual morreram 249 pessoas de 21 países na explosão do avião e 11 pessoas no solo, Kadhafi, ao assumir sem remorso a responsabilidade do estado líbio, não deixou lugar a dúvidas sobre a autoria real desse atentado. Por esta razão, a Líbia indemnizou as famílias das 270 pessoas mortas em 2.7 biliões de dólares, qualquer coisa como 10 milhões de dólares por vítima. Nesse quadro, estas imagens definem o obsceno.

Doa a quem doer, esta é a diferença entre o governo escocês e o líbio. A superioridade de um Estado de Direito que aplica a Carta dos Direitos do Homem sobre um regime como o Líbio e quaisquer outros cuja concepção do mundo não passe por aí. E é precisamente aqui que se delimitam os campos.

Tempos houve em que se matavam os mensageiros quando as notícias eram más

13 Ago


Este é o 1º de 5 vídeos da mesma entrevista.

Afasto-me substancialmente da visão política de Medina Carreira e não compreendo que não se tenha tornado ainda claro que a natureza e modo de operação do investimento estrangeiro, seja em Portugal ou na Irlanda, não o recomendam como solução dos nossos problemas, comportando até uma componente de risco proporcional à dimensão dos projectos como se viu com o impacto da falência da Qimonda na balança comercial. A crise internacional esconde a profunda deteoração de uma economia nacional que cresceu nesta década a um ritmo nulo, tornando impossível a prazo a satisfação das responsabilidades sociais do estado no domínio das pensões, da saúde, etc.

Medina Carreira é, com a sua visão das coisas, um homem corajoso que denuncia uma forma de fazer política, um espectro partidário e uma corrupção que conhece. Fala da absoluta necessidade de criarmos riqueza como única forma de sair da situação em que nos encontramos, em oposição a investimentos loucos suportados nas teorias keynesianas que justificam o TGV, o Aeroporto de Lisboa e as auto-estradas que estão para vir, porque como afirmou, numa anterior entrevista a Mário Crespo, o dinheiro posto a circular vai comprar bacalhau da noruega, fruta de espanha ou israel, automóveis alemães, telefones finlandeses, gerando mais endividamento na medida em que nada produzirmos para consumir e exportar. Parece evidente, mas há quem ache que não é assim e o país parece de facto aturdido numa crise com contornos que lembram os últimos anos da monarquia e os primeiros da república.

Deixamos aos nossos filhos um país empobrecido, inconsciente e irresponsável, com um serviço da dívida que em apenas 13 anos, de 1995 a 2008, passou de 10 para 100% do PIB, no que representa um encargo anual só para satisfação de juros de 5.000 milhões de euros, equivalente, num termo simples de comparação, a toda a receita de turismo do país.

Poucos saberiam dizer tão desassombradamente as razões que movem as personagens de opereta que nos governam e as que nos oferece o outro partido que pode formar governo, como o fez Medina Carreira. Seria bom que o ouvíssemos e que esta entrevista tivesse tido lugar em canal aberto, nomeadamente no canal público.

“Vive decentemente para poder morir tranquilamente”

24 Jul

Resposta de Jíri Menzel à pergunta que lhe foi feita no Vanguardia “¿Qué merece la pena en la vida?

Saramago recebeu a Casa dos Bicos para a instalação da sua fundação em Lisboa e um subsídio de 30 000 euros para a produção de um documentário provisória e tristemente intitulado “União Ibérica”, cuja pertinência se pode adivinhar atendendo à escolha do tema- o romance entre Saramago e Pilar. Manifestou o seu apoio à candidatura de António Costa a semana passada.

Miguel Vale de Almeida, apoiante do Bloco, activista da causa do casamento entre pessoas do mesmo sexo *, depois de um post publicado a 11 de Julho, intitulado “Talvez não sejamos muitos e muitas”, conduz-nos por premissas que tornam absurda a conclusão final na qual anuncia que “sem qualquer intenção de aderir de novo, enquanto filiado, a um partido, votarei pela primeira vez na vida no PS”. Passados 12 dias, integra em 7º lugar, a lista do PS por Lisboa às legislativas.

O Público anuncia hoje que Inês Medeiros, ocupa o 3º lugar da mesma lista. Embora ninguém tenha dado por isso, foi a mandatária de Vital Moreira nas Europeias.

O PS elegeu 24 deputados por Lisboa nas últimas legislativas.

(*) Nada me move contra as pessoas que querem casar. Apenas registo que os direitos das pessoas que vivem há mais de dois anos em união de facto, são assegurados pela lei que, em 2001, baixou de 5 para 2, o número de anos necessário ao reconhecimento legal e aboliu a discriminação de sexo. À primeira vista, a lei vai onde não chega uma reivindicação que, no essencial, visa assegurar a união jurídica.
Batam-me à vontade, mas que tema fracturante é este?

Cristiano ainda julga ser jogador de futebol

1 Jul

Sobre a agressão a uma miúda de 17 anos no i. Elogio de Ferguson no Público.

1 – “um indivíduo que (…) já conhecia de o ter visto dias a fio à porta de minha casa, alimentando-se de iogurtes e de câmara na mão, (…) causou um tal estado de perturbação e de aflição na minha mãe que me vi forçado a parar o meu carro para tentar convencê-los a deixarem-nos em paz”. Cristiano Ronaldo decidiu fazê-lo a pontapé, partindo o vidro da frente do carro com a miúda lá dentro.
2- Cristiano afirmou, referindo-se aos adeptos do Manchester, que “o ódio deles até me sabe bem”. Em resposta, Ferguson disse “Cristiano foi um jogador maravilhoso (…) o seu talento, capacidade de entretenimento e personalidade contagiaram fãs em todo o mundo (…) todos aqui lhe desejamos sorte para o futuro”. Uma chávena de chá fora do alcance de Cristiano.
3- Cristiano, um miúdo simpático com um olhar ingénuo e um sorriso bonito, com alegria e encanto a jogar a bola, define o fotógrafo que o importunou como alguém que se alimenta de iogurtes, mas não percebe que é a sua vida privada que lhe inflacionou o passe até aos 97 milhões de euros e o ordenado mensal até ao milhão. Esse investimento não é pago em golos mas em “merchandising”, que vende tanto mais quanto tudo o que lhe disser respeito for do domínio público e alimentar a imprensa. É precisamente por lhe ter comprado os direitos de imagem, que o presidente do Real “gostava de o ver casado”. Duvido que, não tendo entendido isso e não sabendo lidar com a pressão, Cristiano acabe bem. “O Real é como a Walt Disney, mas ainda está por explorar” disse, um dia, Florentino Flores que podia ganhar campeonatos sem os mitos, mas “comprou” Figo, Zidane e Ronaldo. Pensar assim seria não compreender que Manchester e Real são marcas do showbusiness.
4- Os adeptos do futebol (nos quais me incluo), têm uma lealdade que não depende dos resultados porque pagam para viver na fantasia, num tempo em que se sobrevive. São uma espécie de duplo, feito de uma criança que se implica no jogo como se aquilo fosse decisivo, e de um adulto distante e autocomplacente para com os excessos decorrentes.
Quando ocorre um “jogo grande”, as cidades ficam desertas, as empresas e os parlamentos páram, o funcionamento das urgências é afectado. A realidade é suspensa para que o “reallity-show”, forneça uma imitação da vida (com medo, aventura, vitória, injustiça, “uma guerra por outros meios”), e que faça a reelaboração infantil da realidade para a tornar suportável sem nos implicar nela. Em troca apenas temos de dar um eu em miniatura, que vibre com uma coisa que injecta prazer e esquecimento por 90 minutos.
5- Cristiano é um miúdo trágico que não sabe bem o que lhe aconteceu. Enche revistas do mundo inteiro com peripécias da sua vida privada, tornando-se, logo após Obama, a figura mais mediática do planeta, para uma indústria que fornece ilusões, vivências por interposta pessoa, mudanças de identidade através da mudança de aparência. O futebol infantiliza os adeptos, mas também os actores, e vive do facto de a trivialidade, na cultura pós-moderna, nem sequer envergonhar. Era favor dizerem-lhe isto.

Tão felizes que nós somos!

29 Jun

Estudo do ISCTE divulgado pelo Público.

1,8 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar de pobreza e isso traduz-se no facto de 32% não conseguirem manter a casa aquecida no inverno, 57% terem um rendimento familiar abaixo dos 900 euros mensais (o custo declarado da intervenção no BPN, 2.500 milhões de euros, equivale ao rendimento anual de 231.481 famílias destas), 62% não conseguirem gozar uma semana de férias, 8% acumularem mais de um emprego e 56% afirmarem não ter tempo para estar ou brincar com os filhos. É sem surpresa que declaram ter falta de tempo para si, para os outros e para actividades sociais.
Mesmo assim, numa escala de 1 a 10, 6,6 é o grau de satisfação dos portugueses com a vida que levam e maior é ainda a felicidade que sentem: 7,3 na mesma escala.

A reportagem que acompanha o estudo, incide numa mulher de 33 anos. Deita-se diariamente “à meia-noite, uma da manhã” e levanta-se às “seis, seis e meia”, recebendo pelo seu trabalho 462 euros. Garante 200 euros adicionais ajudando a mãe no café que esta explora. Sempre quis trabalhar com crianças e trabalha, de facto, num infantário. Passa no café da mãe antes de ir para o emprego, trata da casa e das galinhas depois de sair dele. Regressa ao café para ajudar até às 22:30h. Tem uma filha de 15 anos para a qual não pode ter tempo, que ainda não sabe se transita do 7ª ano, quando em circunstâncias normais estaria a passar para o 11º.
Vai, para o mês que vem, a Fátima com a mãe, talvez porque espere um milagre ou porque, no fundo, sente que tem de agradecer a sorte que tem. No desmedido santuário não faltará consolo e exemplos de que podia ser pior.

Conformados porque podia ser pior, alheados porque já basta a vida que têm, espertos porque toda a gente se safa, e 73% felizes, os portugueses deviam exportar baixas expectativas, inconsciência e desfasamento com a realidade.

Fátima, Fado, Futebol e que se F**a. Já são 4 os nossos éfes.

PS! O estudo não revela que parte desta realidade é artificialmente contida pelo rendimento mínimo e afins. É também omisso em relação ao contraste entre a forma como os portugueses se vêem e o recente alerta do Infarmed sobre consumo de antidepressivos em Portugal, que nos coloca em 2º lugar na Europa a 27, com um crescimento de 45% nos últimos 5 anos.

De como as pessoas, para permanecerem sãs, preferem não saber

27 Jun

“A visão do mundo do Partido impunha-se com maior sucesso às pessoas incapazes de compreendê-la. Elas podiam ser levadas a aceitar as mais flagrantes violações da realidade porque nunca haviam compreendido plenamente a abominação do que lhes era pedido e não estavam suficientemente interessadas em eventos públicos para observar o que estava a acontecer. Por falta de compreensão, elas permaneciam sãs. Simplesmente engoliam tudo, e o que engoliam não lhes fazia nenhum mal porque não deixava resíduo, assim como um grão de milho passa indigerido através do corpo de uma ave”.

George Orwell (Eric Arthur Blair) in 1984

No fundo é a maneira como evitamos o sofrimento que nos faz sofrer. É assim que, ao tentar sobreviver evitando saber, perdemos a sanidade que julgamos estar a proteger. E foi assim também que acontecerem os grandes desastres da humanidade, como o holocausto. Apenas porque as pessoas preferiram não saber, uma vez que reconhecer o que se estava a passar podia destruir o equilíbrio a que haviam chegado.

O Paradoxo da Escolha

25 Jun