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Liberdade artística

14 Nov

Não acredito na liberdade total do artista. Deixem-no sózinho, livre de fazer o que quiser, ele começará a não fazer absolutamente nada. Se há coisa perigosa para um artista, é precisamente essa história da liberdade total de estar à espera da inspiração e por aí fora. Toda essa retórica romântica. A produção de “8 1/2” foi uma grande lição. Durante dois meses, estive a trabalhar no argumento com o Flaiano e o Pinelli, mas não chegava a um resultado convincente porque eu não conseguia decidir quem havia de pôr no papel do protagonista – um dia era um escritor, noutro um jornalista, um advogado… Acabei por decidir recomeçar tudo. O meu produtor, o Angelo Rizzoli, deu-me o controlo total da produção, fiando-se no meu sucesso anterior com La Dolce Vita. Pedi para me fazerem um quinta, desenhei os personagens, telefonei a toda a gente, mas ainda não era capaz de me decidir. Sentia-me enlouquecer, estava prestes a abandonar o projecto. Mas mandei começar. Era o momento, porque alguém ou alguma coisa interviria para me forçar, para me obrigar a fazer aquele filme. O simples facto de não ser capaz de dizer à minha leal equipa que ia abandonar um filme do qual não sabia fosse o que fosse acabou por fornecer o assunto: um realizador que não sabe que filme quer fazer

Federico Felini in Sou um grande mentiroso (2001)

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Valsa de Bashir

5 Out

A consciência e a coragem de um realizador israelita, Ari Folman, que com 6 ilustradores e um orçamento diminuto, desenterra a história das profundezas da sua/nossa memória trágica e criminosamente selectiva e faz um filme de uma terrível beleza sobre a natureza da memória e da negação que permite que estas coisas aconteçam e se repitam.

Pela acção de apagamento poupamo-nos a um olhar para além do horizonte da sobrevivência e repousamos no simulacro em que aparentemente já expulsamos a violência, o mal, a negatividade e até a morte do nosso sistema de valores, como se cada um de nós não soubesse, no plano público e privado, que é precisamente a história que mais magoa.

Quase tão significativo como a exposição deste modus vivendi perverso, é o facto deste ser um filme israelita que denuncia um massacre onde, embora com a cumplicidade de Israel no terreno, os autores são cristãos libaneses. Não há lados bons neste conflito sem raízes históricas anteriores ao séc. XX, um século recheado de perseguições e violência mútuas. A existir um caminho para as conter seria este, mas quem são os que querem percorrê-lo?

Excerto da sequência do pomar, com “Arioso” de Bach em fundo. Inesquecível.

O Barco Ébrio

26 Ago

lone man
“As I descended into impassable rivers, I no longer felt guided by the ferryman.”

Abertura de “Limits of Control” de Jim Jarmusch

A chave de leitura, que constitui simultaneamente um convite a quem vê o filme, cita o poema de Rimbaud, “O Barco Ébrio” que fala de si próprio e largado à deriva num rio, se perde por tempestades e visões, atracando melancolicamente, cansado, desiludido e desejando para si apenas “uma poça escura e fria”. A metáfora de uma desordem intencional dos sentidos e da percepção, percorre todo o filme.

Ou se aceita o convite, ou se sai da sala, porque este é um filme para quem não tem pressa. Pede imenso de quem vê, mas retribui na mesma moeda.

A escolha do título do ensaio de William Burroughs, “Limits of Control” que afirma a palavra como mecanismo de controlo, fornece outra das muitas camadas de leitura que o filme vai destapando nas suas referências ao cinema, à arte, à filosofia do conhecimento, à música. Christopher Doyle, com o depuramento estético que deixou associado a algumas das mais profícuas colaborações do cinema com Wong Kar-Wai em “Disponível para Amar”, “2046” ou no fabuloso e agora reeditado “As Cinzas do Tempo” e com Gus Van Sant em por exemplo “Paranoid Park”, fornece o registo contemplativo em que a tensão se acumula mesmo se nada se passa, e acrescenta ao filme uma beleza que nos faz render detalhe após detalhe.

Lone Man, uma espécie de Samurai que não se desconcentra e não fala (a primeira forma de iludir o controlo), conduz-nos pela sua missão sem sabermos se permanecemos no domínio da realidade ou se entramos no do sonho, uma vez que não dorme. Focando cada quadro que visita no Raínha Sofia e nada mais à volta, observa tudo o resto como observa o quadro à medida que percorre um “universo sem arestas” marcado pela arquitectura das Torres Blancas (como é que nunca as vi antes?). Sequências filmadas de forma intencional sobre superfícies que reflectem, molduras dentro de molduras, objectos enquadrados por portas e janelas que constituem outros quadros, confundem-nos deliberadamente a percepção do que é exterior ou interior e fazem avançar um jogo em que para poder continuar e seguir a próxima pista, é a realidade que compete confirmar a arte.

Seria diminuir o filme, centrá-lo no facto de constituir um dos mais desapiedados ataques ao capitalismo que vi desde há muito. Mas seria distracção ignorar os sinais que percorrem inequivocamente um filme que é político até aos ossos. Bill Murray (o americano) na espantosa cena em que atira a cabeleira para a caveira pousada na secretária, define o capitalismo de ficção e prossegue falando de como a nossa mente se encontra poluída por filmes, música, ciência, boémios e alucinogéneos, numa espécie de epifania dos temas que todos os personagens anteriores haviam convocado. Quando, ainda incrédulo, pergunta “Como chegou até aqui?”, obtém a resposta “Com a imaginação”.

Jim Jarmusch poderia ter escolhido como titulo “no limits, no control”, uma adequada afirmação do seu próprio paradigma, já que este filme de duas horas é, na minha opinião, um dos mais importantes que se fizeram nos últimos anos.

Jacques Brel e um bom dia

29 Maio

Recordei-me de o ter visto no extraordinário filme de Carlos Reygadas, Luz Silenciosa, e apeteceu-me partilhar algo genuíno e feliz. Brel era genial.