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Liberdade artística

14 Nov

Não acredito na liberdade total do artista. Deixem-no sózinho, livre de fazer o que quiser, ele começará a não fazer absolutamente nada. Se há coisa perigosa para um artista, é precisamente essa história da liberdade total de estar à espera da inspiração e por aí fora. Toda essa retórica romântica. A produção de “8 1/2” foi uma grande lição. Durante dois meses, estive a trabalhar no argumento com o Flaiano e o Pinelli, mas não chegava a um resultado convincente porque eu não conseguia decidir quem havia de pôr no papel do protagonista – um dia era um escritor, noutro um jornalista, um advogado… Acabei por decidir recomeçar tudo. O meu produtor, o Angelo Rizzoli, deu-me o controlo total da produção, fiando-se no meu sucesso anterior com La Dolce Vita. Pedi para me fazerem um quinta, desenhei os personagens, telefonei a toda a gente, mas ainda não era capaz de me decidir. Sentia-me enlouquecer, estava prestes a abandonar o projecto. Mas mandei começar. Era o momento, porque alguém ou alguma coisa interviria para me forçar, para me obrigar a fazer aquele filme. O simples facto de não ser capaz de dizer à minha leal equipa que ia abandonar um filme do qual não sabia fosse o que fosse acabou por fornecer o assunto: um realizador que não sabe que filme quer fazer

Federico Felini in Sou um grande mentiroso (2001)

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Consumo de tinta e muito mais

10 Nov

Matt Robinson e Tom Wrigglesworth, dois estudantes graduados por Kingston, venceram o prémio “Best New Blood” com um vídeo para a HP. Realizaram ainda um curioso teste de escrita de fontes para determinar as mais efectivas em termos de consumo de tinta.

O gráfico, que aqui se reproduz com a autorização dos autores, além de extraordinariamente original, revela algumas conclusões inesperadas.

Os sites de Matt e Tom, expõem em detalhe o processo e mostram outros trabalhos criativos e poéticos, como o Kiteography de Tom Wrigglesworth.

Lobos

2 Nov

Nada melhor para contrastar comigo, que escrevo demais, que o suiço Rafael Sommerhalder que é a economia personificada. No seu trabalho suave, criativo e divertido, menos é realmente mais. Uma produção do Royal College of Art, London.

Vêr também Vasos de Flores.

Recortes de realidade

26 Out

Trabalhos de Nikki McClure

Ideografia do canto das aves

7 Out

de Malcolm Sutherland (2005)

Nós falamos, cantamos e até gritamos uns para os outros. Tal como eles.
Que dizem? Malcolm Sutherland parece saber alguma coisa e transcreve as mensagens que cada um dos pássaros das redondezas lhe deixa no atendedor de chamadas. Depois, a escrita emancipa-se da mão, flui ao ritmo do canto e enche páginas que escurecem em mares de tinta a acompanhar a noite ou clareiam ao definir as formas da cidade no alvorecer. Como tantas vezes acontece, sem agradecermos como deve ser ou corrermos a anotar-lhes a voz.

Bom é aquilo que nos dizem que é

9 Set

Este vídeo está na net há algum tempo. O “Washington Post” decidiu lançar um debate sobre valor, contexto e arte. Convidou Joshua Bell, um dos mais importantes violinistas do mundo, a interpretar num Stradivarius de 1713, a mesma peça que havia tocado dias antes no Symphony Hall de Boston, com lugares a 100 dólares.
Bell desceu humildemente na estação do metro de Washington vestindo jeans, camisa e boné, encostou-se próximo da entrada, tirou o violino da caixa e começou a tocar para a multidão que por ali passava na hora de ponta. Durante 45 minutos foi apenas reconhecido por uma mulher e ignorado pelos restantes homens e mulheres apressados, copo de café na mão, telemóvel no ouvido, indiferentes ao violino.

Ainda há pouco falava disto a propósito de Juan Muñoz cujas esculturas ao ar livre continuam a ser ignoradas e vandalizadas na cidade do Porto, embora a sua exposição recente em Serralves haja sido um sucesso de afluência. Bom, é aquilo que nos dizem que é, o que foi validado e tem a moldura de uma instituição ou é tema nos media. Bem-vindos ao mundo da aparência e da representação.

Khoda

11 Jul

Obrigado a Reza Dolatabadi. Cada frame é de facto uma pintura.

Cavar o buraco com as mãos e escapar. Pisar a erva largando a tinta do corpo ao contacto. Correr o labirinto como um doido para acabar preso na contemplação da própria imagem.

Segredo de Escultor

10 Jul

“Uma história contemporânea, provavelmente francesa, mostra um escultor que manda vir um grande bloco de pedra e deita mãos ao trabalho.
Uns meses mais tarde termina a escultura de um cavalo.
Uma criança que esteve a vê-lo a trabalhar, pergunta-lhe então:
Como sabias tu que havia um cavalo dentro da pedra?”

Jean-Claude Carrière in Tertúlia de Mentirosos

Paradigma Las Vegas

8 Jul

“(…) a necessidade de estar sempre noutro lugar, de ser transportado e envolvido numa atmosfera ambiente sincopada; tudo se passa como se precisasse de uma desrealização estimulante, eufórica ou inebriante do mundo.” Gilles Lipovetsky, sobre o indivíduo pós-moderno in A Era do Vazio.

De Lisboa a Bragança, de Londres a Bath, de Bilbau a Santiago, não existe um sítio que não exiba um museu ou, fazendo o downgrade, um centro cultural, que veícule a sua marca, sem que muitos destes espaços tenham um pretexto expositivo para além do de funcionarem como imagem de marca da cidade a que pertencem. Concebidos como atracções turísticas, são uma espécie de prótese, um “efeito especial” da cidade, alimentando o turismo de massas e, numa lógica de sobrevivência e lucro, pertença dos mecenas e sócios-fundadores que integram administrações semelhantes às de qualquer empresa privada.
Embora possuam serviços educativos, estes museus não cabem na definição de guardiães do conhecimento e abdicam da função, trocando-a pelo do entretenimento, coleccionando obras e eventos validados pelos comissários. Os museus funcionam fora de horas e para finalidades sociais que pouco ou nada têm que ver com a sua função e são usados para apresentações da indústria, da banca e até para eventos mais íntimos. As suas áreas são estruturalmente e cada vez mais da natureza das dos centros comerciais e as dos centros comerciais vão, progressivamente e por sua vez, acomodando cultura e arte. Por via directa, o “merchandising” dos museus, os chamados “derivados” numa linguagem do mercado financeiro, cresce exponencialmente e até já é “franchisado”. T-Shirts, relógios, bicicletas, posters, agendas, lápis, borrachas, blocos, repetem-se de forma pouco original por todo o lado com o logo das instituições. Pela associação dos seus eventos massivos e do espaço expositivo às marcas que os patrocinam, prolonga-se o círculo de business.

As colecções de Serralves ou da Tate são amálgamas. Não há, não pode haver descodificação dos universos artísticos tão diferentes que são representados. O efeito fácil, a comparação do que não pode ser comparado, a falta de densidade, proporcionam uma digestão rápida que se expele antes do próximo evento e tudo se resume a isso, um evento. Nada, mas nada se orienta para a necessidade de compreender, porque os museus são como parques infantis onde tem lugar um jogo de sensações que apresentam um presente giro, divertido e rentável.

Tate Modern - Herzog
Projecto de Transformação da Tate Modern por Herzog

A Tate Modern é um das 3 maiores atracções do Reino Unido, gerando um income anual de 100 milhões de libras para a cidade de Londres, com as suas quase 5 milhões de visitas anuais. O número de visitantes de Serralves foi em 2008 de 412.550 e mesmo sem dados oficiais, não duvido do papel da instituição como principal atracção da cidade do Porto. Uma exposição de Francis Bacon, Andy Warhol ou Paula Rego, têm um volume de visitas idêntico, mas as semelhanças acabam aqui numa demonstração de que não interessa o conteúdo mas o “movimento”.
A recente exposição de Juan Muñoz revelou o artista à mesma cidade que dispõe do seu último trabalho “Treze a rir uns dos outros” no jardim da Cordoaria desde 2001, mas o ignorava e deixou entregue ao vandalismo antes da exposição e continuou a fazê-lo depois de ela acabar.

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Aspecto do estado da intervenção de Muñoz na Cordoaria

O “Já foste? Estava imensa gente”, quase esgota o comentário sobre a última simultânea de Miguel Bombarda, onde um conjunto de galerias expõe trabalhos que quase ninguém vê, pelo menos sem ter de amparar o bêbado do lado, patrocinado pela Famous Grouse. Na mesma rua, a livraria Assírio & Alvim fechou por falta não de localização, mas de público. É uma constatação.

Agora “Serralves desceu à baixa”. O edifício onde se instalou, uma encomenda dos Condes de Vizela ao arquitecto Marques da Silva, faz a ligação ao local e à história da casa de Serralves e do seu fabuloso enquadramento. O local, as Galerias, é o novo must da cidade, facilmente identificável pela existência de uma multidão de suricats que esticam a cabeça à procura de algo ou alguém, no acto de ver e ser visto. O edifício da RDP, pleno de história, perdeu a sua utilidade e é agora encenado com uma exposição, perdoem-me o comissário e as pessoas mais sensíveis, duvidosa. Tudo isto me recorda as instalações realizadas nas fachadas de edifícios no Porto 2001 que, quando subsistem passados 8 anos, se apresentam arruinados. A intervenção branqueou como convinha, o seu estado calamitoso e a indiferença da autarquia e dos cidadãos, servindo para distribuir verbas pelos artistas mas deixando tudo na mesma. No Porto ou em Berlim, assistimos a uma lógica em que a ocupação destes espaços continua a ser um simulacro inútil e até o único tipo de ocupação permitida pelo sistema.

Ficam as perguntas idiotas: porque raio precisou Serralves de descer à baixa, encontrando-se, tanto quanto se sabe, em período de fortes restrições orçamentais? Quantos centros tem esta cidade que mal acumula massa crítica para um centro real? O que sucederá a este novo centro quando entrar em funcionamento o Hard-Rock no Mercado Ferreira Borges, outra decisão mais que duvidosa?

Creio que este é o meu post mais impopular de sempre, mas como não lamentar a proliferação do “que giro”, do entretenimento indistinto, do vazio em movimento? Divirtam-se e desculpem a arrogância de quem acha que o rei não só vai nú, como bastante sujo. Pela parte que me toca já não consigo divertir-me em sítios deprimentes. Voltaremos à questão do estado da arte.

Pina Bausch – um novo propósito

30 Jun


Notícia do Público

Hesitei, ontem, na utilização de um vídeo de Pina Bausch para ilustrar a história da estreia da Sagração da Primavera de Stravinsky, em Paris. A peça era demasiado longa para este formato internet e pensando que não faltariam oportunidades para colocar uma coreografia de Pina Bausch, fiz outra opção.
Hoje fui à procura de algo que representasse a escolha do essencial e apenas isso, nas suas muitas camadas, como Pina Bausch fazia. Uma espécie de ocultação por modéstia ou, numa imagem mais real, a mesma atitude de quem, contemplando um pormenor no céu (um pássaro ou uma nuvem, por exemplo) não focasse o azul sobre o qual se recorta, ignorando o céu.

Girls – Dedicado às Crianças

1 Jun

Takagi Masakatsu com o meu obrigado a quem me revelou esta e tantas outras coisas sem as quais o meu mundo seria mais pobre e menos vagoroso.

A arte do Rapaz da Lâmina

22 Maio

Theo Jansen – Esculturas Cinéticas

13 Maio