Não acredito na liberdade total do artista. Deixem-no sózinho, livre de fazer o que quiser, ele começará a não fazer absolutamente nada. Se há coisa perigosa para um artista, é precisamente essa história da liberdade total de estar à espera da inspiração e por aí fora. Toda essa retórica romântica. A produção de “8 1/2” foi uma grande lição. Durante dois meses, estive a trabalhar no argumento com o Flaiano e o Pinelli, mas não chegava a um resultado convincente porque eu não conseguia decidir quem havia de pôr no papel do protagonista – um dia era um escritor, noutro um jornalista, um advogado… Acabei por decidir recomeçar tudo. O meu produtor, o Angelo Rizzoli, deu-me o controlo total da produção, fiando-se no meu sucesso anterior com La Dolce Vita. Pedi para me fazerem um quinta, desenhei os personagens, telefonei a toda a gente, mas ainda não era capaz de me decidir. Sentia-me enlouquecer, estava prestes a abandonar o projecto. Mas mandei começar. Era o momento, porque alguém ou alguma coisa interviria para me forçar, para me obrigar a fazer aquele filme. O simples facto de não ser capaz de dizer à minha leal equipa que ia abandonar um filme do qual não sabia fosse o que fosse acabou por fornecer o assunto: um realizador que não sabe que filme quer fazer
Federico Felini in Sou um grande mentiroso (2001)

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