Pedi que me liquidassem as contas e saí

12 Nov

– E em quem é que o senhor confia? – perguntou-lhe Morini.
– Nas pessoas que comem quando têm fome, suponho – disse o desconhecido.
Depois começou a explicar-lhe que, em tempo, tivera um trabalho numa empresa que se dedicava a fabricar canecas, só canecas, das normais e daquelas que têm um slogan escrito ou uma frase ou brincadeira, como por exemplo: Ah, ah, ah, está na hora do meu cofee-break, ou O papá gosta da mamã, ou A última do dia ou da vida, umas canecas com legendas insípidas, e que um dia, certamente devido à procura, mudou radicalmente as frases das canecas e além disso começou a incluir desenhos junto às frases, desenhos por colorir a princípio, mas depois graças ao êxito desta iniciativa, desenhos coloridos, de índole espirituosa, mas também de índole erótica.
– Até me aumentaram o salário – disse o desconhecido. – Essas canecas existem em Itália? indagou depois.
– Sim, respondeu Morini -, algumas com legendas em inglês e outras com legendas em italiano.
– Bom, corria tudo sobre rodas – prossegui o desconhecido. – Nós trabalhavamos com mais gosto. Os encarregados também trabalhavam com mais gosto e o chefe via-se que andava feliz. Mas ao fim de uns dois meses de estar a produzir essas canecas, apercebi-me de que a minha felicidade era artificial. Sentia-me feliz porque via os outros felizes e porque sabia que tinha de me sentir feliz, mas na realidade não estava feliz. Pelo contrário: sentia-me mais infeliz do que antes de me aumentarem o salário. Pensei que estava a passar uma época má e tentei não pensar nisso, mas ao fim de três meses já não consegui continuar a fingir que nada acontecia. O meu humor azedou-se, tornei-me mais violento do que antes, qualquer coisinha me aborrecia, comecei a beber. Então, enfrentei o problema cara a cara e finalmente cheguei à conclusão de que não gostava de fabricar aquele determinado tipo de canecas. Garanto-lhe que à noite sofria que eu sei lá. Achava que estava a ficar louco e que não sabia o que fazia nem o que pensava. Ainda tenho medo de alguns pensamentos daquele tempo. Um dia enfrentei um dos encarregados. Disse-lhe que estava farto de fabricar aquelas canecas idiotas. O tipo era boa pessoa, chamava-se Andy, tentava sempre dialogar com os trabalhadores. Perguntou-me se eu preferia fazer as canecas que fazíamos antes. É isso mesmo, disse-lhe eu. Estás a falar a sério, Dick? disse-me ele. Muito a sério, respondi-lhe. As canecas novas dão-te mais trabalho? De modo algum, disse-lhe, o trabalho é o mesmo, mas antes as malditas canecas não me magoavam como agora me magoam. O que é que estás a querer dizer?, perguntou Andy. Que antes as filhas da puta das canecas não me magoavam e agora estão a destroçar-me por dentro. E que raio as torna tão diferentes, tirando que agora são mais modernas?, disse Andy. Precisamente isso, respondi-lhe, antes as canecas não eram tão modernas e embora a sua intenção fosse magoarem-me não conseguiam fazê-lo, não sentia as suas alfinetadas, em contrapartida agora, as putas das canecas parecem samurais armados com aquelas espadas fodidas de samurai e estão a pôr-me maluco. Enfim, foi uma longa conversa – concluiu o desconhecido. – O encarregado ouviu-me, mas não entendeu uma única palavra. No dia seguinte, pedi que me liquidassem as contas e saí da empresa. Nunca mais voltei a trabalhar. O que é que acha?

Roberto Bolaño in 2666, um grande livro com uma capa para esquecer.

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