Esta NÃO É mais uma notícia

6 Nov

blogSpan

Um major-médico norte-americano de 39 anos, terá aberto fogo e morto 12 pessoas e ferido outras 30, no perímetro da maior base militar norte-americana, Fort Hood no Texas, depois de receber a notificação da sua mobilização para o Iraque. Este acto desesperado, uma espécie de acção terrorista mobilizada a partir de dentro do exército dos EUA, é um sinal inequívoco.

Que espécie de mundo é este no qual a única escolha disponível parece ser a passagem cega ao acto? Que liberdade de escolha é esta em que as opções são obedecer às regras ou recorrer a uma violência auto-destrutiva e sem saída ou objectivo senão o de assinalar que existe um problema e não pode continuar a ser ignorado? Donde vem e porque ocorre esta violência, no coração do aparelho militar americano?

A administração americana sabe, provavelmente, tudo sobre o mal-estar existente e sobre o problema que estava a germinar, mas não acreditou que isto pudesse acontecer. Há muito tempo que grande parte da operação americana no Iraque é assegurada por empresas de segurança privada, uma espécie de mercenários que operam à margem das estruturas regulares e mantêm os custos declarados em vidas e bens materiais, fora do escrutínio da opinião pública. A declaração de Obama, que classificou o incidente como “uma terrível explosão de violência” e acrescentou ser “terrível quando perdemos soldados no estrangeiro, mas é aterrorizador quando isso acontece em casa”, dá conta dessa tomada de consciência.

Um caso como este, em que o meio é a mensagem e a função é do domínio meta-linguístico, constitui uma espécie de “estão a ouvir-me?” que se destina a verificar se o canal está a funcionar. A pulsão de morte que este acto implica ao passar pela auto-sabotagem, opõe-se tanto ao princípio do prazer como ao da realidade e fá-lo na mesma lógica do terrorismo suicida, mas desta vez no seio da instituição que interpreta e veicula no terreno as decisões da administração.

Se esta notícia não for tratada como mais um “fait-diver” ou como nota de rodapé, é impossível não tirar conclusões sobre a que género de violência nos expõe a nossa própria violência sobre os outros. É aqui que reside a eloquência do major Hassan, para quem o quiser ouvir. Um espaço “privado de mundo” só pode desembocar numa violência sem sentido.

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