Pobreza no Porto (II) – Sonhos? Não tenho assim muitos…

29 Out

A alienação integra a distância no próprio tecido social do nosso quotidiano e, mesmo vivendo ao lado dos outros, o nosso “estado normal” é ignorá-los. Não nos permitimos sequer aproximar demasiado, para poder continuar a circular no espaço em que interagimos com eles, na obediência das normas que interiorizamos e se traduzem numa anestesia, numa doença de fundo, o ar rarefeito que respiramos à medida que a nossa consciência ética se reduz.

Sei que a miséria começa aqui no meu quintal, mas não quero saber o que sei, e por isso não sei. Sei, mas recuso-me a assumir inteiramente as consequências desse saber, pelo que posso continuar a agir como se não soubesse, fazendo parte do processo de normalização crescente da injustiça. Sei que é urgente surgir um projecto utópico portador de sentido, embora provável seja a eclosão de uma violenta explosão do ressentimento social sem destinatário ou objectivos precisos, como aquela a que assistimos em Marselha.

É porque estou farto de saber que estou a viver, nas palavras de Badiou, “num tempo sem mundo”, que a única coisa realista a fazer é olhar isto de frente e denunciar as causas, e a única utópica é continuar a ignorar o que se passa como se isto pudesse ou devesse durar para sempre e não fosse minha obrigação chamar a atenção e tentar criar condições de indignação que o tornem inaceitável.

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