O mau costume de se falar do que não se entende

20 Out

Uma religião é como a língua em que nascemos. Estamos nela, queiramos ou não, em casa. O primeiro passo para interpretar a Bíblia, passa portanto por reconhecer que o carácter historicamente limitado da nossa situação nos coloca na posição de não existir maneira de falar que esteja fora da nossa língua natural. Disso mesmo é testemunho a triste frase de Saramago, “a Bíblia é um manual de maus costumes e um catálogo do pior da natureza humana”, através da qual não consegue escapar ao referencial Judaico-Cristão. Vale a pena determo-nos nesta afirmação pela gravíssima ignorância, desonestidade intelectual e arrogância em que persiste.

À época de Moisés existiam 2000 anos de especulações e meditações sobre códigos e tradições milenares que se manifestam, por exemplo, nas grandes diferenças entre a teologia da Lei de Moisés e a da benção e da promessa de Abraão. Partindo da súmula do conhecimento antigo dos Egípcios e dos Sumérios, textos como os Provérbios, os Salmos, o Eclesiastes e Job, são percorridos por uma forte tensão entre a cultura judaica, a persa e a helenística, podendo e devendo ser lidos em contraponto com os escritos de Homero, Hesíodo e os pré-socráticos.

É à luz dessa narrativa histórica, necessariamente violenta, que o povo judaico se compreende a si mesmo. Mas, muito para além disso, a Bíblia é um livro plural e complexo onde, por mais estranho que possa soar a muita gente, e Saramago escamoteia este facto, podemos visitar a expressão amorosa e erótica na corte de Salomão, no Cântico dos Cânticos, coisa que descobri com Herberto Hélder na “Poesia Toda”, bem antes de me interessar pela matéria agora em questão. Da mesma forma, num livro como o de Job, não nos sentimos longe de Melville (o Leviatã como Moby Dick). Para o realizar, esta extraordinária compilação de textos usa o que tinha à sua disposição para se explanar num registo de sabedoria largamente dissimulado sob uma narrativa que, como em quase todas as obras clássicas, nos diz apenas algo que destapa sucessivos níveis interpretativos, inesgotáveis de significados.

A Biblia não celebra de facto um Deus compassivo, até porque muitas das suas histórias são experiências mitigadas. O Livro de Job, onde não mora qualquer conforto, e que lido na sua justa dimensão se revela como uma forma de aquisição da consciência de si próprio, um homem com a casa em ruínas, os filhos assassinados e o corpo coberto de chagas, ouve da mulher a pergunta “Persistes ainda na tua integridade? Amaldiçoa Deus e morre”. Neste, como em outros extraordinários pedaços de literatura, mora a história de um Deus ausente, na mesma medida em que não possuímos uma linguagem para falar com Ele e nos ausentamos Dele ou, se se quiser, de nós próprios. Dito de outra forma, Saramago ignora o facto de a “fera” morar no próprio poema, grande demais para ele porque, do cimo de uma confrangedora ingratidão e leviandade, leva para esta leitura a reduzida bagagem de que dispõe e ostenta, realizando-a de modo idêntico ao das pessoas que regularmente me batem à porta para me “falarem” da Bíblia.

É na qualidade de agnóstico que me pronuncio sabendo, apesar de tudo, que a consciência moral nos fala de mais longe do que nós e que isso constitui a nossa definição civilizacional. É relevante dizê-lo porque, tendo pensado, durante anos, ser tão clara a natureza cruel do Deus do Antigo Testamento, quanto a sua oposição ao Deus a que Jesus se referia como Pai, acredito hoje podermos estar gratos à Igreja por ter rejeitado a proposta de Marcião de Sinope, para quem a novidade do cristianismo seria tal, que podia dispensar o seu suporte prévio, rejeitando o Antigo Testamento.

Simplificando a coisa ao nível de Saramago, temos então para acabar que, não sendo a Bíblia apenas o legado do Cristianismo, um Cristão acredita, um Judeu confia e um Muçulmano obedece. Saramago não virá, certamente, a pousar os olhos no Talmude, trabalho sério a partir do qual poderia aceder à compreensão de que existem, ao longo da história, inúmeros processos cumulativos de interpretação e questionamento da Bíblia. Resta perguntar se decidirá algum dia atalhar desta forma no trabalho interpretativo do normativo do Corão, ou se irá continuar na via rentável e segura, contrariando as quedas de vendas e escondendo-se daquilo que pretensamente o revolta.

PS! Recomenda-se a leitura do comentário de Richard Zimler a este respeito

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2 Respostas to “O mau costume de se falar do que não se entende”

  1. IP 21/10/2009 às 16:41 #

    Claro que não. Além do mais, para isso teria de estudar, pesquisar, fazer um trabalho de casa profundo e sério. E isso é muito cansativo e provavelmente não dá sequer o mesmo retorno. Pelo contrário, o ataque à Bíblia é sucesso garantido a priori. Se em 1991, com o lançamento de O Evangelho Segundo Jesus Cristo conseguiu gerar a polémica que gerou mas ganhou, em troca, um sucesso de vendas, porque não havia agora de tentar experimentar por de novo em prática a receita? Até porque basta olhar para a atitude de Saramago, mas a sua postura e forma de estar que facilmente se entende que ele há-de ser daquelas pessoas que acha que a idade lhe dá o direito acrescido de dizer o que muito bem lhe apetece sem se lembrar que a liberdade dele acaba onde começa a dos outros. Ainda hoje veio dizer, com a maior das ‘canduras’, que a publicação do novo livro veio suscitar ‘ódios velhos’ e um ‘alvoroço incompreensíveis’, imagina lá tu. Sabes o que me custa mais no meio disto tudo? São aqueles que dizem que não respeitamos nem acarinhamos o ‘nosso’ Prémio Nobel… aquele que há uns anos ameaçava renunciar à nacionalidade portuguesa. Enfim, o 25 de Abril existiu para que, também, o direito ao disparate ficasse constitucionalmente assegurado. São os ‘danos’ colaterais da liberdade de expressão

  2. Helder Robalo 23/10/2009 às 11:29 #

    Sem ter lido o livro, e conhecendo a polémica sobretudo do que os media nos transmitem, confesso que me parece cada vez mais que Saramago equipara a Bíblia apenas ao Velho Testamento e esquece tudo o que há depois disso, no Novo Testamento, onde, apesar de tudo, o Deus cruel de que Saramago nos fala trouxe ao mundo o seu próprio Filho para remissão dos nossos pecados. Um Filho, Deus na Terra, que a todos amou e deu a vida para nos salvar. Mas, se calhar, também aí Deus acaba por ser cruel por permitir que o seu Filho se deixe matar por nós.
    É claro que a Bíblia (Velho+Novo Testamento) nos dá a conhecer um Deus, à primeira vista, cruel. Mas o nosso Prémio Nobel parece preferir enveredar pelo simplismo e fazer uma leitura (será que a fez?) redutora de meia dúzia de textos da Bíblia e, depois, com a chancela de grande escritor português e mundial (que o é), escrever um livro de ataque ao sentido literal de um outro livro que Saramago parece não ter sequer capacidade intelectual para entender.
    Imaginemos o que seria alguém escrever agora um livro a criticar Vergílio Ferreira por incentivar as pessoas ao suicídio quando escreveu A Aparição. Ou, então, que o próprio Saramago mais não fez do que incitar à insurreição democrática exortando as pessoas a votar em branco como forma de destruir a máquina política, no Ensaio Sobre a Lucidez.
    Tudo depende da leitura que quiseres fazer de uma obra. Se preferimos fazer a leitura simplista e nem nos darmos ao trabalho de entender o verdadeiro sentido da mesma. Ou se, por outro lado, pretendemos aprofundar o conhecimento da obra e ler além do que lá está escrito, compreender outros sentidos, fazer outras leituras da leitura. Ou, por outro lado ainda, se a única coisa que pretendemos é, na verdade, criar uma grande polémica em torno de um livro que está a chegar às bancas, atacando cegamente a Bíblia, a Religião e a própria Igreja e, assim, termos a garantia que a obra será um best-seller, terá inúmeras reedições e que, garantidamente, será traduzida para várias outras línguas.
    Tudo isto nos é lícito pensar quando o próprio Saramago, do alto dos seus quase 87 anos e do estatuto mundial que o Nobel lhe concede (esperava-se que, simultaneamente, lhe desse também maior responsabilidade), se sente no direito de dizer tudo o que lhe vai na cabeça e ainda ficar indignado por as suas declarações suscitarem “ódios velhos” e um “alvoroços incompreensíveis”.

    Pequeno de mente aquele que se sente no direito de tudo e todos criticar e se indigna com a crítica contra si próprio.

    Um abraço meu caro

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