Sentado num cadeirão, emigrante de si mesmo

18 Out

Um português de 62 anos, morreu, há dois anos, em sua casa, nos arredores de Paris. Só na passada segunda-feira foi encontrado. Mesmo sabendo incorrer num raciocínio perigoso, não me abandona a imagem da pele que, sob o desgosto e a dor, encolhe e mumifica como a deste homem. Creio que estes casos deixarão de ser notícia à medida que se tornarem cada vez mais frequentes.

A imprensa francesa referiu-se, a este propósito, à grande solidão das sociedades modernas. A portuguesa, ouviu uma das filhas que não encontra explicações “para uma situação destas” e se pergunta como é possível nos tempos de hoje, ninguém se ter apercebido. A mesma indignação mostrou a sobrinha à porta da casa que José construiu e, no momento em que leio este parágrafo, penso se este emigrante terá sonhado instalar-se por França e apenas construir aqui a casa que testemunhasse perante os seus, o esforço de uma vida, sabendo intimamente que nunca regressaria.

Desconheço e não são para aqui chamadas as suas circunstâncias pessoais e familiares mas, ao contrário da filha e da sobrinha, sei que nunca foi tão possível, como nos dias de hoje, uma coisa destas acontecer. Seja porque razão for, a família próxima, filhos, irmãos e ex-mulher, estiveram ausentes do processo tendo, ao longo destes dois anos, vivido apenas “a sua vida” sem dar seguimento a questões que despoletassem as diligências necessárias a saber o que se passava.

A figura de um pai, no seu esforço como modelo de vida e instância moral, costumava viver pela passagem do testemunho. Havia até, em certas sociedades, um mito segundo o qual, quando um pai morria o filho recebia uma marca da sua mão, passando-lhe desta forma e num último acto de interiorização, a autoridade.

Apáticos, precocemente cansados da vida, limitados à busca do conforto e da segurança, vai-se afastando das nossas vidas a possibilidade de ligações, sejam de que natureza for. Chegamos aparentemente a um ponto em que são maiores os riscos para aqueles em quem vive a memória, seres incómodos que atraem a si a censura dos que vivem para se esquecerem, uma estranha opção.

Talvez não possamos saber o que se quebrou para se instalar esta “solidão total”, mas fica a questão de saber em que consiste isto de viver como nos compete.

Anúncios

3 Respostas to “Sentado num cadeirão, emigrante de si mesmo”

  1. cristina 18/10/2009 às 23:07 #

    Desesperante realidade. Que sufoco, angústia e dôr. Falta aqui uma espécie de contexto justificável tipo : guerra, catástrofe natural, doença e/ou opções individuais até à menos plausível EPIDEMIA( familiar, de vizinhança e até colectiva num sentido mais lacto) de ALZHEIMER e/ou AMNÈSIA. Coisas a que o tempo moderno, e não só , nos obriga sem darmos por isso.
    Que fazer?
    A única coisa que me ocorre, consola e expia é uma imagem do filme Gladiador (mais concretamente aquando da sua morte e respectivo trajecto de reencontro com os que mais amou. Gostaria de acrescentar também, e senão fõr pedir muito,…com o que mais sonhou.
    Agora sem ponta de ironia, que Deus me ajude a acreditar que assim tenha sido e continue a ser, sem me absolver dos compromissos que tenho para com a minha vida, a dos outros e o mundo que me rodeia.

  2. R.P. 20/10/2009 às 9:49 #

    Hoje acordei a pensar que estar morto não pode ser mau.
    Ao ler este post, e nestas circunstâncias, penso que mau, é mesmo estar vivo.

  3. Helder Robalo 23/10/2009 às 11:35 #

    Custa a perceber como durante dois anos ninguém dá pela falta do homem, como durante dois anos ninguém estranha um acumular de correio, uma falta de notícias, uma ausência de uma presença física por mais distante que seja.
    E, depois, olho para o lado e vejo que não conheço o vizinho do lado, que mal falo com o do andar de cima e que há vizinhos novos no prédio que eu não faço a mínima ideia de quem são.
    E aí percebo que construímos uma sociedade em que cada um de nós, na maior parte das vezes e na maior parte dos casos, vive fechado em si próprio, abstraído do mundo que lhe passa ao lado, indiferente ao rosto que se cruza connosco nas escadas do prédio e com o qual trocamos um “bom dia” de circunstância, quando o trocamos.
    Não admira por isso que os nossos “velhos” vivam cada vez mais sozinhos, que se sintam cada vez mais sós e que, cada vez com maior frequência, dependam apenas de si para sobreviver num mundo que não quer saber deles.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: