A história repete-se ou por que razão não se inventa a história?

14 Out

Na verdade, o que é que Ulisses poderia ter dito a Clarisse?
Ficara calado porque ela tinha despertado nele um estranho desejo de pronunciar a palavra Deus. O que queria dizer era mais ou menos: Deus não encara o mundo literalmente, para Ele o mundo é uma imagem, uma analogia, uma figura de que precisa de se servir por razões insondáveis, naturalmente sempre de forma insuficiente. Não podemos tomá-Lo à letra, nós é que temos de encontrar a solução para o problema que Ele nos coloca. Perguntava-se se Clarisse estaria disposta a aceitar isto como um jogo de polícias e ladrões ou de índios e cowboys. Com certeza. Se alguém desse o primeiro passo, ela segui-lo-ia, atenta, como uma loba.
Mas tinha ainda outra coisa na ponta da língua, a propósito de certos problemas matemáticos que não permitem uma solução geral. Poderia ter acrescentado que via o problema da vida humana como sendo deste tipo. Aquilo a que se chama uma época – sem sabermos se estamos a falar de séculos, de milénios ou do espaço entre a escola e os netos -, esse rio largo e incontrolado de circunstãncias múltiplas, significaria então apenas uma sequência desordenada de tentativas de solução parciais, insuficientes e isoladamente falsas, das quais resultaria, se e quando a humanidade fosse capaz de as fundir, a solução correcta e total.

“O Homem sem Qualidades” de Robert Musil

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2 Respostas to “A história repete-se ou por que razão não se inventa a história?”

  1. Monte 15/10/2009 às 19:41 #

    Caro amigo:

    Não é minha pretensão bater mais no invisual (vulgo ceguinho), mas essa prática reiterada de publicar citações e excertos, por muito cabimento que tenham atingiu o limite neste artigo. O que me faz vir à memória um texto de Eça de Queiroz. Nesse fabuloso texto, Eça descreve as agonias do colunista que, como decerto já aconteceu a todo o escriba, no dia da entrega do artigo para publicação, com o próprio do jornal no corredor à espera, nada consegue passar ao papel, nem oriundo da cachimónia (caixa da razão), nem oriundo do coração (caixa dos afectos). E as botas do próprio do jornal sempre a ranger no corredor ao lado. Eça, tendo passado por essa agonia, e nada tendo para dar ao prelo, lembrou-se de dar uma tunda no Bei de Túnis, que provavelmente até já teria morrido. Mas não interessa, em Túnis havia sempre um Bei. E vai daí, pôs o distinto monarca nas ruas da amargura. Ora, sendo de Túnis ou não, Beis é bicho que não falta, mormente por este Portugal adentro. Portanto, quando não tiver razão ou coração para por no papel, dê um arrouchada nos inúmeros personagens que pululam neste nosso cantinho, sejam eles da política, da cultura, etc. Antevejo miríades de possibilidades e eles, com os dislates com que atulham os meios de comunicação, não pedem outra coisa que não seja uma pena verrinosa.

    Abraço compassivo

  2. Um zero à esquerda 16/10/2009 às 11:18 #

    Caríssimo Montenegro,

    Meu bom amigo, há de facto Beis renovados para alimentar o blog diariamente. Felizmente, a realidade tem mais para oferecer.

    Essa crítica, vinda de um compulsivo devorador de livros, socorre-se, sem que o notes, do mal que combate. Não vais tu também buscar uma analogia para acusar este teu humilde amigo de excesso de citações?
    Na realidade fizeste-o pelas mesmíssimas razões. A imagem era forte e alguém a tinha usado de uma forma brilhante, neste caso o Eça, antes de ti. É exactamente esse o meu problema.
    O Musil colocou a coisa em termos tais que me pareceu que o caminho mais curto, citá-lo, era também o melhor e o mais justo. Terás de concordar, que dizer que Deus não encara o mundo literalmente e que para Ele o mundo não passa de uma imagem, uma analogia, é uma ideia que arruma com muita cobrança indevida.

    Agora imagina que se vende e é lido mais um “O Homem sem Qualidades”. Limitando-me a devolver o favor a um amigo, parecendo que não, sou capaz de prestar um serviço valioso. O livro merece.

    Não sejas tão severo e verás que nestas coisas, ao contrário do que acontece na política, nem sempre o que parece, é.

    O maior abraço que os nossos dilatados estômagos consentirem.

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