Boliqueimo-me

29 Set

Com a sugestiva declaração que proferiu, o Presidente da República confirmou-se como um homem original. Fez exactamente o que ninguém esperaria que fizesse: criou instabilidade e afectou de modo imprevisível aquilo de que seria supostamente o garante: a normalidade democrática.

É uma ilustração do princípio de Peter aplicado à presidência, agravar a suspeição em vez de a encerrar, relançar insinuações em vez de esclarecer factos, abrir um conflito institucional com o partido que deverá convidar a formar governo dois dias depois de o ver legitimado pelas eleições, escolher este momento de nova campanha eleitoral. “The last but not the least”, o uso de uma terminologia próxima daquela a que nos habituaram os dirigentes desportivos, faz pensar que, se o estilo é o homem, Cavaco Silva revela uma mentalidade, uma instabilidade, uma falta de nível e de cultura política preocupantes.

Deveria ser desnecessário relembrar ao Sr. Presidente que não estamos em regime de desabafo entre amigos, e altamente improvável ouvi-lo declarar que foi “forçado a fazer algo que não costumo fazer: partilhar convosco, em público, a interpretação que fiz”. Mas perdido no meio de frases como “desafio qualquer um”, “manipulação para desviar as atenções”, “não revelo a leitura pessoal que faço de declarações de políticos, mas fui forçado a abrir uma excepção”, Cavaco Silva revelou-se incapaz de compreender o dever de reserva da função e inábil no uso da linguagem que lhe é própria.

A Presidência da República a que Cavaco Silva chama unipessoal, não tem, como órgão de estado, leituras pessoais. Se as tem, pode recorrer a Maria Cavaco Silva, mas aquilo que se espera do presidente é que as guarde, não que as “partilhe” com o país, é que consiga ver onde reside o problema de “um cidadão, membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas”, sabendo que essas pessoas ocupam outros orgãos de estado, é que não faça alastrar cândidamente dúvidas sobre a vulnerabilidade do sistema informático perguntando se “será possível alguém do exterior entrar no meu computador e conhecer os meus e-mails? “. É, Sr. Presidente. A sua declaração constitui um convite a que o façam.

Cavaco Silva acentuou ter sido “forçado” a tomar esta atitude, embora todo o tempo que deixou decorrer sobre esta crise não tenha sido suficiente para reflectir na melhor forma de a gerir, no significado da função de que está investido e no timing e efeitos desta intervenção. Acabou por conseguir reunir uma estranha condenação unânime de todos os partidos, pelas piores razões, no pior momento, deixando uma atmosfera de intranquilidade e uma enorme interrogação sobre o futuro próximo, criando ele próprio um “facto político” que, ninguém duvida, alterará a agenda e desviará as atenções daquilo que devia estar em debate nas autárquicas.

Não deixa de ser curioso, no que aos partidos diz respeito, que tenha sido na oposição, toda ela, que mais morou o sentido de estado, enquanto o partido do governo, por sua vez nivelado pela declaração do presidente, despejou gasolina no incêndio. Seria pedir muito, presumir educação e responsabilidade por parte das pessoas que colocamos à frente dos destinos do país?

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Uma resposta to “Boliqueimo-me”

  1. O Moscardo 30/09/2009 às 2:46 #

    as always… superior sapiência…

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