Renovar a confiança

28 Set

Era uma vez um tratador de macacos que, de tão perspicaz, os entendia e se fazia compreender por eles. Dada a sua habilidade, o tratador gozava de prestígio entre os ajudantes a quem entregava as tarefas menos bem aceites pelos bichos. Mas as coisas começaram a correr mal e o tratador lá teve de explicar que este ou aquele ajudante haviam cometido excessos, algumas injustiças e, sobretudo, revelado pouca capacidade de explicar o que, a bem de todos, tinha mesmo de ser feito.
O terreno em que habitava possuía várias bananeiras mas o tratador, que sonhava com outros voos e gastava razoavelmente mal o que tinha, cedeu à tentação de as vender no mercado e até chegou a distribuir algumas pelos amigos mais próximos. Embora fosse dizendo que não havia de faltar comida e que, atendendo ao facto de as árvores produzirem cada vez menos bananas e do mercado já não ser o que era dantes, estava a fazer o melhor que podia, o desgoverno era tanto que um dia se tornou evidente que a quantidade de comida disponível não duraria muito mais.
Isto gerou inquietação e, não podendo deixar ficar mal os amigos de quem dependia por muitas razões, só lhe restava endurecer o discurso junto dos bichos:
– Daqui em diante – disse-lhes – cada um terá três bananas de manhã e quatro à tarde. Acham bem?
Os macacos não gostaram nada e, furiosos com as novas restrições, chegaram a levantar-se. Mas ele, seguro de si, afirmou sorridente:
– Compreendo o vosso descontentamento. Os tempos estão difíceis e há que saber ouvir. Creio que devia mudar alguns dos meus ajudantes e, como prova da minha sensibilidade aos vossos problemas, cada um terá quatro bananas de manhã e três à tarde. Que pensam disto?
Satisfeitos por ele ter aceite o seu protesto, os macacos recostaram-se muito contentes.

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3 Respostas to “Renovar a confiança”

  1. O Moscardo 28/09/2009 às 14:54 #

    O Moscardo e o Dario viegas (http://dmmv.wordpress.com/) , acham este post uma moca! Fartamos-nos de rir.
    E como sabemos que andas à procura da tua vocação, temos um conselho: Devias ir para escritor!
    LM & DV
    PS: este PS é válido para Post Scriptum, não para Partido Socialista, não te assustes!
    PS 2: o DV não é macaco! Nem recenseado está!

  2. bulimunda 28/09/2009 às 16:19 #

    Excelente parábola…se me permitires vou” postala” no meu Blog..abraços..
    http://bulimunda.wordpress.com/2009/09/27/16-moments-o-que-e-um-momento-a-27-o-teu-momento-pode-ter-significado/

  3. joana 28/09/2009 às 17:24 #

    A propósito de macacos (ou uma experiência que nunca aconteceu)

    Alguém coloca determinado número de macacos numa sala com um grande mastro ao centro com um cacho de bananas no topo. Sempre que os macacos tentam chegar ao cacho de bananas é lançado um jacto de água gelada que os repele. Ao fim de algum tempo, os macacos “aprendem” que não devem chegar-se ao cacho das bananas e deixam de o fazer. Aos poucos os macacos da fase inicial da experiência vão sendo retirados da sala e substituídos por novos, nunca sujeitos à experiência do jacto de água. Quando os macacos mais novos tentavam alcançar o cacho de bananas, os mais antigos batiam-lhes. Ao fim de algum tempo, quando já não havia nenhum macaco do grupo inicial sujeito ao jacto de água, nenhum macaco do novo grupo se chegava ao poste, embora não soubesse porquê. Da mesma forma somos crucificados por pensar diferentemente sem reflectir sobre as regras intrínsecas e não questionadas da sociedade.

    Tememos uma ditadura, ou a imagem de uma ditadura, que muitos de nós nunca sequer vivemos mas conformamo-nos a um estado de coisas em muito semelhante a esta sem nos questionarmos. A simples resposta ou a conformação à ideia de que é assim que as coisas devem ser, é suficiente para muita gente. Assim se votou ontem.

    Acerca desta suposta experiência cientifica (que é dada como exemplo nalgumas aulas de psicologia) encontrei a seguinte explicação para o surgimento de uma história que escolho aqui classificar de alegoria.

    Did the monkey banana and water spray experiment ever take place?

    Well, it seems to be true; not in the exact shape that it took here, but close enough:

    Stephenson, G. R. (1967). Cultural acquisition of a specific learned response among rhesus monkeys. In: Starek, D., Schneider, R., and Kuhn, H. J. (eds.), Progress in Primatology, Stuttgart: Fischer, pp. 279-288.

    mentioned in: Galef, B. G., Jr. (1976). Social Transmission of Acquired Behavior: A Discussion of Tradition and Social Learning in Vertebrates. In: Rosenblatt, J.S., Hinde, R.A., Shaw, E. and Beer, C. (eds.), Advances in the study of behavior, Vol. 6, New York: Academic Press, pp. 87-88:

    […] Stephenson (1967) trained adult male and female rhesus monkeys to avoid manipulating an object and then placed individual naïve animals in a cage with a trained individual of the same age and sex and the object in question. In on case, a trained male actually pulled his naïve partner away from the previously punished manipulandum during their period of interaction, whereas the other two trained males exhibited what were described as “threat facial expressions while in a fear posture” when a naïve animal approached the manipulandum. When placed alone in the cage with the novel object, naïve males that had been paired with trained males showed greatly reduced manipulation of the training object in comparison with controls. Unfortunately, training and testing were not carried out using a discrimination procedure so the nature of the transmitted information cannot be determined, but the data are of considerable interest.

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