Que fazer?

23 Set

Reciclo o título de Lenine em contraponto com Eduardo Lourenço para sublinhar um paradoxo. À luz do que tem sido a prática governativa do PS e a oposição à sua esquerda, tornou-se extraordinariamente difícil definir um voto porque sei antecipadamente que, seja qual for o resultado de domingo, a minha ideia de esquerda já perdeu e perdeu com uma extensão assustadora, mesmo que os partidos que dela se reclamam venham a somar uma confortável maioria.

“Não se pode ganhar uma partida de xadrez sem que o adversário cometa erros. Esta máxima não é apenas verdadeira para o mais subtil e cruel dos jogos que os homens inventaram. Se neste momento a Esquerda europeia está, ou parece estar, numa situação particularmente melindrosa, é talvez por ter imaginado que os erros e pecados políticos, sociais e económicos só podiam ser cometidos pela Direita ou, talvez melhor, que a Direita era a expressão, nessa ordem, da História como pecado. Consciente e convicta – não sem fundas razões, que convém repensar – de representar a consciência aguda da injustiça, da opressão, do privilégio inaceitável, a Esquerda viveu-se durante os quase dois séculos da sua manifestação histórica – justamente aquela que se manifestou na Convenção como primeiro movimento revolucionário moderno – como se estivesse imune, por princípio, ao erro, ao desvio, à desfiguração, ou até à traição ao ideário transparente com que se definiu.
(…)
O único inimigo que a Esquerda tem, nas suas diversas modalidades, é ela mesma enquanto inconsequente, enquanto esquecimento da sua própria aventura, que nunca foi fácil nem mãe de facilidades, mas exigente, dura, contraditória, enigmática, até porque a Direita, quer dizer, a tentação do poderio, a ilusão de deter com a verdade que tem a Verdade toda, com a cultura que é, o monopólio da cultura, está também aninhada no seu coração. A luta pela Esquerda é também a luta contra essa Direita em nós. A outra, a que nos combate por ser essa a sua fatalidade, por mais sinistra ou sedutora que se apresente, nem sequer devia ser o objecto principal das nossas ocupações e preocupações. Nesse sentido, e profundamente, como da Igreja disse um dia João XXIII, a Esquerda não tem inimigos. Ela é o lugar histórico da tolerância, a vitória lenta mas constante do diálogo imposto aos que não querem ou não precisam de dialogar, ela é ou deve ser o lugar da máxima transparência de que uma sociedade é capaz e se, por graça dos deuses, aqueles que se dizem de Direita ou são de Direita partilham deste espaço de diálogo, são também, saibam-no ou não, povo de Esquerda. Mas isso é problema dela e não nosso. O nosso, aqui, de homens assumidamente de Esquerda democrática, num tempo na aparência pouco propício, é o de lembrar que esse espaço de diálogo intra-humano é o da esperança, não apenas meramente conjuntural e política, mas de uma esperança histórica, de uma solução plausível para um mundo de paz armado até às estrelas, para uma humanidade dividida em duas pela presença numa delas dos espectros medievais da fome, da ignorância e da repressão, e na outra pelo triunfo de uma Disneylândia de pacotilha, onde já não distinguimos com um mínimo de senso o que nos perde e o que nos salva.”

Eduardo Lourenço (1996)

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