A política divertida chega a ser muito chata

18 Set

Alguém disse que Louçã perde em ser conhecido. Concordo inteiramente.
Ricardo Araújo Pereira e Louçã conhecem-se pessoalmente. Tratam-se por tu, mas não na televisão. Como não há pior condicionamento do que o que impomos a nós próprios, o resultado foi a pior de todas as entrevistas realizadas pelos “gatos” até ao momento. Forçada, arrastada, previsível, chata, sem política, sem ritmo, sem surpresa e sem televisão. Tivesse chegado de outro lugar sem nada saber da política nacional e seria levado a concluir pelo tom, pela linguagem e pelo discurso, que o representante do Bloco era um político idoso, situado ao centro. Ninguém antes havia mostrado tanto medo das suas próprias propostas, estado tão preso da imagem e revelado tanto conservadorismo de pose e de discurso. Foram batidos records de roupagem não ideológica, e o BE como opção ou é ideológica ou nunca fará diferença nenhuma.

Autenticidade, atrevimento, irreverência, menos de zero. Polimento e cuidados, mil. Tranquilizantes para a classe média, servidos com um “se for eleito, acha que poderei manter este fato?”, lugar comum tão gasto que dificilmente vale um sorriso, reforçados com referências repetidas a essas desconhecidas do programa do Bloco, as empresas (sim, eu também li o programa do Bloco, encontrei lá a palavra, e não fiquei inteiramente convencido de que o BE saiba realmente o que é uma empresa). Um trocadilho com a ideia da abolição dos benefícios fiscais, para não ter mesmo de a explicar. Drogas, nem sim nem não, antes pelo contrário, não me comprometas, isso diz respeito a cada um. Transgénicos misturados com transsexuais e com transportes, “há no nosso programa muitos trans”, como se tudo valesse o mesmo. Cheguei a ouvir o RAP dizer “mas oh Francisco… um transsexual não é um autocarro”, mas foi imaginação minha.
É por estas e por outras que, sem me alongar na análise do tal programa de que se fizeram centenas de milhares de downloads e espero que esteja a ser lido, se discorre mais sobre direitos dos animais (em estado de suspensão em Salvaterra de Magos) do que sobre agricultura.

Talvez esta postura renda alguns deputados adicionais, mas serão daqueles para quem o importante é estar em palco, mesmo que tenham de andar a correr atrás do spot. Se a intenção era passar a ideia de que o BE não constitui uma ameaça, Louçã conseguiu-o plenamente mas, do meu ponto de vista, ser inofensivo, era a pior coisa que podia acontecer ao BE.

Ficou-me a azia habitual daqueles jantares em que, a meio, um comensal pega num tema sério e logo alguém aplica um dissolvente de ironia que dissipa a conversa e a faz regressar ao nada, aos lugares comuns, às frases e temas do costume. E de que se fala quando não se fala de nada? Da Joana Amaral Dias, a fofinha que deu uma tampa aos outros.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: