Para entender a “lavoura”

8 Set

As Chiquitas com o seu autocolante, são grandes, amarelas, não têm nódoas negras ou outros sinais de violência doméstica mas dificilmente poderiam ser parentes, mesmo que afastadas, das bananas da Madeira. É uma questão de gosto. Uma peça de fruta comida a partir de uma árvore sabe a fruta. Uma laranja comprada num supermercado tem o tamanho e a côr certos, tem até uma etiqueta e se calhar um molde de cartão prensado que a acomoda, mas sabe sobretudo a água e provêm por exemplo da Andaluzia, onde imensos lençois de plástico escondem “pomares” regados com água do Tejo e do Douro que percorre centenas de Kms em envazes para regar aquele solo.

Os frutos, no nosso clima ou noutro qualquer, têm uma época, mas os supermercados preferem contrariar a natureza a aborrecer-nos e vão comprá-los um pouco por todo o mundo, montando uma logística sofisticada, através da qual frutos oriundos de países de outros continentes são colhidos, embalados, transportados e postos nas nossas prateleiras mesmo a tempo de não lhes sentirmos a falta. Como esquecemos com facilidade aquilo que os nossos pais e avós sabiam, agarramo-nos à peregrina ideia de que os produtos frescos têm de estar disponíveis todo o ano e ter uma aparência semelhante à dos alimentos embalados pelo que escolhemos o que não presta mas tem bom aspecto, criando essa miragem de fruta e vegetais com tamanho e peso certos, tudo coisas que a mãe-natureza não pode nem deve oferecer-nos. E é assim que as peras importadas pelo Reino Unido têm um peso cuja tolerância máxima é de 14 gramas relativamente ao peso padrão e o feijão verde que entra em França deve ser direito e medir 10 cm.

Os produtores fazem entregas diárias de alimentos que chegam a viajar 15.000 kms, desenvolvem variedades mais resistentes de frutos e vegetais, encurtam o tempo de amadurecimento. Os supermercados, que são nossos amigos e não gostam de nos sobrecarregar com custos adicionais, passam a pressão para a produção que, por sua vez, “deslocaliza” para regiões mais favoráveis do ponto de vista climático e laboral, “absorvendo” os custos de transporte através de salários muito baixos, porque afinal alguém tem de os pagar. Um atraso significa a perda de um cliente e as grandes propriedades orientadas para exportação, seguem uma prática de sobreplantação que lhes fornece uma margem de segurança da qual resultam sobras obscenas. Como a pressão nos preços é contínua, produtores com uma lógica global como a Chiquita e a Dole, duas empresas americanas, são donas de metade do comércio mundial de bananas, e quando digo de bananas é porque é mesmo de bananas.

Não é por ser patriota e prezar a saúde, por gostar de coisas boas e defender a sustentabilidade, por ser um perito em economia que acabou de descobrir que há mais viabilidade numa produção de proximidade e à nossa escala, ou sequer por me passar pela cabeça que devíamos avaliar os contras de deixar de produzir localmente o que comemos, fosse porque acredito que o mundo não acaba em 2012, fosse por prever que se os camionistas decidem fazer uma greve, as prateleiras do sistema “just-in-time” vão ficar tão brancas como um armário de hospital.
É que neste divertido sistema em que os supermercados não pagam os custos do transporte, nós não pagamos preços altos mas também não comemos fruta fruta, e a “lavoura” (como diz o Paulo Portas) deita fora a produção de batata que não consegue vender aos supermercados, os nossos campos, à falta de melhor uso, podiam ser transformados em campos de golfe, um desporto (?) que requer imensa água o que, a prazo e com discrição, nos haveria de permitir usar a água dos nossos rios ou melhor ainda, desviá-la daquela porcaria das estufas plásticas espanholas onde se produzem as coisas que vão entregar ao Pingo-Doce, o sítio onde costumo esforçar-me por encontrar um simples pêssego português como aqueles da árvore que um dia plantei sem querer, colocando o primeiro visto no checklist do que deveria fazer de mim um homem mas não fez.

Os supermercados lá vão cumprindo a lei e informando a origem dos produtos. O que não conseguem é ter lá fruta, porque a fruta, como as pessoas, tem formatos, pesos e aparências diversas e uma vezes é verdadeira, outras não. Portanto, ou continuamos a levar para casa as “Barbies” insípidas à venda nos supermercados ou optamos pelas portuguesas que, embora mais pequenas e por vezes mal vestidas, sabem e cheiram muito, mas muito melhor.

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Uma resposta to “Para entender a “lavoura””

  1. luís 15/09/2009 às 13:07 #

    Penso que foi um poeta popular que escreveu qq coisa como – “gosto de apertar as mãos ásperas dos calos que têm / também as côdeas de pão são ásperas mas sabem bem”. O teu texto fez-me lembrar António Aleixo e quando eu tinha 16 anos. Dentro de 1 ou 2 semanas devo começar a recolher romãs no quintal do meu pai, não me esquecerei de ti.
    Grande abraço.

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