Em Busca do Tempo Perdido

5 Set

Rasgo a embalagem do mini Mars protegendo os dedos. Levo-o à boca na ideia fixa de o fazer durar eternidades e o ritual abre uma cortina sobre o tesouro à minha guarda: tempo e memória.

“Durante muito tempo fui para a cama cedo”, primeira frase de “Do lado de Swan”, abre o esconderijo onde transmuda sensações em sentimentos, trabalha o fluxo e refluxo da memória tomado de ondas de desejo e ciúme ou momentos de euforia estética e sobrepôe jardins e insinua miragens de onde entram e saiem personagens de sociedade, ociosos e desocupados, cuja única actividade parece ser a de lhe fornecer as evocações.

“Mas no mesmo instante em que aquele gole, misturado com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci (…). Invadira-me um prazer delicioso, único, sem noção de causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua liberdade, tal como faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Deixei de me sentir medíocre, contingente, mortal”.
Os goles seguintes começam a perder a magia. Marcel larga a chávena e impõe-se a tarefa de analisar a sensação. “Torno a apresentar-lhe (ao espírito) o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que tenha desancorado a uma grande profundidade; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas”. Esforça-se para extrair da sensação do gosto a recordação visual do momento que estava na origem daquilo. “E de súbito a lembrança surgiu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (…) a minha tia Léonie me oferecia (…) e mal reconheci o gosto (…), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde ficava o meu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o meu jardim (…) E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia de água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se enchem de cores, se diferenciam, se tornam flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim todas as flores do nosso jardim e as do parque de M. Swann, e o nenúfares de Vivonne, e a boa gente da aldeia e as suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha chávena de chá.”

Proust, doente crónico de asma, passava a vida no quarto onde, vivendo na memória, ia descobrindo que deitado na cama a pensar, a natureza das coisas e de si se revelava sózinha. Assim mergulhado, perdia a noção do tempo e diluía-se na escrita, descobrindo a anatomia das coisas. É sobre a inexactidão da memória que ocorre quando a inteligência reescreve a experiência, que criamos memória sinceras mas não necessariamente reais. Consciente disso, revia continuamente tudo porque sabia que enquanto houvesse memória, as suas margens seriam modificadas para se enquadrarem naquilo que sabemos agora e, desta forma, cada parte do romance e das nossas memórias é inseparável do momento em que é recordada. Carregamos a consciência de distorcermos a memória de uma coisa para a poder recordar.

Podia dizer que isto vinha a propósito dos 100 anos do início da obra monumental de Proust, mas não. Foi este Mars. Se calhar nunca comi o chocolate antes ou talvez não existam versões mini do chocolate escondidas em armários de canto, mas ia jurar que me sentava assim, no chão frio de tijoleira, olhos postos na televisão e esperava que os restos durassem ainda no céu da minha boca. Isto quando o tempo, ele próprio, fazia sentido.

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