O Barco Ébrio

26 Ago

lone man
“As I descended into impassable rivers, I no longer felt guided by the ferryman.”

Abertura de “Limits of Control” de Jim Jarmusch

A chave de leitura, que constitui simultaneamente um convite a quem vê o filme, cita o poema de Rimbaud, “O Barco Ébrio” que fala de si próprio e largado à deriva num rio, se perde por tempestades e visões, atracando melancolicamente, cansado, desiludido e desejando para si apenas “uma poça escura e fria”. A metáfora de uma desordem intencional dos sentidos e da percepção, percorre todo o filme.

Ou se aceita o convite, ou se sai da sala, porque este é um filme para quem não tem pressa. Pede imenso de quem vê, mas retribui na mesma moeda.

A escolha do título do ensaio de William Burroughs, “Limits of Control” que afirma a palavra como mecanismo de controlo, fornece outra das muitas camadas de leitura que o filme vai destapando nas suas referências ao cinema, à arte, à filosofia do conhecimento, à música. Christopher Doyle, com o depuramento estético que deixou associado a algumas das mais profícuas colaborações do cinema com Wong Kar-Wai em “Disponível para Amar”, “2046” ou no fabuloso e agora reeditado “As Cinzas do Tempo” e com Gus Van Sant em por exemplo “Paranoid Park”, fornece o registo contemplativo em que a tensão se acumula mesmo se nada se passa, e acrescenta ao filme uma beleza que nos faz render detalhe após detalhe.

Lone Man, uma espécie de Samurai que não se desconcentra e não fala (a primeira forma de iludir o controlo), conduz-nos pela sua missão sem sabermos se permanecemos no domínio da realidade ou se entramos no do sonho, uma vez que não dorme. Focando cada quadro que visita no Raínha Sofia e nada mais à volta, observa tudo o resto como observa o quadro à medida que percorre um “universo sem arestas” marcado pela arquitectura das Torres Blancas (como é que nunca as vi antes?). Sequências filmadas de forma intencional sobre superfícies que reflectem, molduras dentro de molduras, objectos enquadrados por portas e janelas que constituem outros quadros, confundem-nos deliberadamente a percepção do que é exterior ou interior e fazem avançar um jogo em que para poder continuar e seguir a próxima pista, é a realidade que compete confirmar a arte.

Seria diminuir o filme, centrá-lo no facto de constituir um dos mais desapiedados ataques ao capitalismo que vi desde há muito. Mas seria distracção ignorar os sinais que percorrem inequivocamente um filme que é político até aos ossos. Bill Murray (o americano) na espantosa cena em que atira a cabeleira para a caveira pousada na secretária, define o capitalismo de ficção e prossegue falando de como a nossa mente se encontra poluída por filmes, música, ciência, boémios e alucinogéneos, numa espécie de epifania dos temas que todos os personagens anteriores haviam convocado. Quando, ainda incrédulo, pergunta “Como chegou até aqui?”, obtém a resposta “Com a imaginação”.

Jim Jarmusch poderia ter escolhido como titulo “no limits, no control”, uma adequada afirmação do seu próprio paradigma, já que este filme de duas horas é, na minha opinião, um dos mais importantes que se fizeram nos últimos anos.

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Uma resposta to “O Barco Ébrio”

  1. Regina 26/08/2009 às 17:24 #

    Confesso que fiquei a gostar mais do filme depois de ler o teu post. Obrigada.
    A minha “sabedoria” não deu para tanto…apesar de já ter gostado do filme pelos imensos planos belíssimos, não o soube interpretar e muito menos o saberia descrever, escrevendo tão bem quanto tu escreveste.
    Parabéns. bj

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