A Itália já não existe. Resta um estado de espírito indiferente a tudo.

24 Ago

O diário da Conferência Episcopal, o Avvenire, em editorial na primeira página sob o título “Indiferença tranquila”, comenta a morte dos 73 imigrantes ignorados por uma dezena de barcos que passaram por eles, nestes termos:

Quando hoje lemos sobre as deportações dos judeus sob o nazismo perguntamo-nos: seguramente as populações não sabiam. Mas estes comboios cheios, as vozes, os gritos nas estações, ninguém os via nem ouvia? Na época era o totalitarismo e o terror que faziam fechar os olhos. Hoje não. Uma indiferença tranquila, resignada, talvez mesmo uma aversão ao Mediterrâneo. O Ocidente tem os olhos fechados

O jornal católico prossegue dizendo que, “nenhuma política de controlo de imigração permite que a comunidade internacional deixe um barco carregado de náufragos entregue ao seu destino”. “Há uma lei do mar, bem mais antiga do que a codificada pelos tratados. Ela ordena: no mar, socorre-se”, sublinha, notando que, “pelo contrário”, este barco parece falar de uma outra lei: “Não parar, continuar”. Violar essa “antiga” lei “ameaça as nossas raízes fundamentais, a ideia do que é um homem e de como ele é precioso”.

Esta era uma tragédia anunciada que vem na sequência da lei denunciada pelo Manifesto dos Intelectuais Italianos a favor dos imigrantes. que afirma que “em virtude de uma decisão política, vinda de uma maioria efémera, as crianças nascidas de mulheres estrangeiras em situação irregular serão durante toda as suas vidas filhos de ninguém. Elas serão tiradas de suas mães e colocadas nas mãos do Estado. Nem o fascismo foi tão longe. As leis raciais instauradas por esse regime em 1938 não privavam as mães judias de seus filhos, nem as obrigava a abortar para evitar que tenham confiscadas suas crianças pelo Estado.”

O Senado italiano aprovou a lei que cria o delito de imigração clandestina passível de uma multa de até 10 mil euros além da expulsão imediata. A lei apela à denúncia das pessoas nesta condição e cria a base legal da sua perseguição. Na sequência da sua aprovação, surgiram os “City Angels”, brigadas que percorrem as ruas em busca de pessoas nesta situação, traduzindo o clima de intimidação, violência e delação, mas sobretudo revelando o país moribundo, alienado e sem valores que tolera Berlusconi.

Os emigrantes mortos eram originários da Eritreia, uma ex-colónia italiana que corresponde sensivelmente à antiga Abissínia. Portugal tem com esta região uma antiga relação nascida no contacto e apoio de D. João II ao reino cristão de Prestes João, que incluía na altura a Abissínia.

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Uma resposta to “A Itália já não existe. Resta um estado de espírito indiferente a tudo.”

  1. IP 25/08/2009 às 12:08 #

    Olho hoje à minha volta e vejo, com grande tristeza e sobretudo muito medo, que temos todas as condições para que, a qualquer momento, possa surgir um estado que abrace os princípios nazis e quem sabe vá ainda mais longe e em vez da oposição dos cidadãos conte, só e apenas, com a sua total e absoluta indiferença. É assustador.

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