O mercado dos livros escolares explicado a Totós como eu (I)

20 Ago

Recolhi a lista de livros do meu filho e escolhi aleatoriamente o manual para a disciplina de Inglês, “Easy Biz 11”, um livro de 240 páginas e 25,15€ de custo (este preciosismo nos cêntimos dá um ar credível à coisa) que, com o caderno de exercícios, sobe a 34,38€. Esse valor aproxima-se do custo de um livro de design com uma tiragem reduzida e pormenores de impressão de grande qualidade. Ia dizer que isso me surpreende, quando me dei conta de que, na realidade, me indigna.

Conhecendo o mercado gráfico, a primeira dificuldade de estabelecer comparações prende-se com algo que não deixa de ser curioso. Não existe uma informação habitual em qualquer livro comum, a tiragem. Sem grande rigor, e fazendo cálculos para perceber quanto custaria imprimir, digamos, 3.000 exemplares de um livro idêntico, teremos um valor próximo dos 8/9 euros e, partindo do princípio de que a tiragem se poderá aproximar dos 30.000 exemplares, os custos baixam até 4/5 euros. A editora não produz stock para os vários anos lectivos em que o livro será o adoptado, mas sabe-se que os custos de pré-impressão oneram apenas a 1ª edição. Aplicando percentagens conhecidas para autores, designers e ilustradores (acreditem que conheço valores miseráveis), concluir-se-à que andando alguém a ganhar muito dinheiro, nos restam dois suspeitos, editoras escolares e distribuição.

Somos um dos poucos países que certifica os manuais escolares e, apesar disso, mesmo com a atenuante disso ser antes do mais um reflexo dos conteúdos programáticos definidos pelo ME, o resultado é o lixo que nos costuma chegar às mãos. Maus conteúdos, mau aspecto gráfico, pouca clareza e sobretudo um “erro no design de concepção” que não deixa de espantar: livros que contêm zonas de resolução de exercícios, aumentando o número de páginas e inutilizando-os seja para emprestar a irmãos mais novos ou a quaisquer outros miúdos, seja no caso, improvável no actual esquema de avaliação, do aluno ser forçado a repetir o ano lectivo.

Porque se continuam a desenhar livros dessa forma se não para impossibilitar a sua reutilização? Achando-se necessária a inclusão dos exercícios no manual, porque são “vivamente recomendados” os cadernos de exercícios editados à parte? A panaceia do “Magalhães” distribuído massivamente no ensino básico, não poderia ser acompanhada por um esforço de elaboração de conteúdos, eliminando consumo de papel, baixando dramaticamente os custos e gerando provavelmente mais-valias educativas?

Caso a transmissão de conhecimento ainda seja o objectivo do sistema educativo e se sobreponha à entropia reinante, parece pacífico que o livro pode ser dispensável em certas ocasiões. Ou o professor debita o livro, empobrecendo a sua função, ou o livro estabelece “guide-lines” e conteúdos que o professor enriquece e adapta aos alunos e isso torna o livro um acessório educativo, importante mas não necessariamente omnipresente.

Sinto-me, perante este cenário, como aqueles leitores da Maria que perguntam inocentemente, “será que isto é o que parece?“.

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