Paradigma Las Vegas

8 Jul

“(…) a necessidade de estar sempre noutro lugar, de ser transportado e envolvido numa atmosfera ambiente sincopada; tudo se passa como se precisasse de uma desrealização estimulante, eufórica ou inebriante do mundo.” Gilles Lipovetsky, sobre o indivíduo pós-moderno in A Era do Vazio.

De Lisboa a Bragança, de Londres a Bath, de Bilbau a Santiago, não existe um sítio que não exiba um museu ou, fazendo o downgrade, um centro cultural, que veícule a sua marca, sem que muitos destes espaços tenham um pretexto expositivo para além do de funcionarem como imagem de marca da cidade a que pertencem. Concebidos como atracções turísticas, são uma espécie de prótese, um “efeito especial” da cidade, alimentando o turismo de massas e, numa lógica de sobrevivência e lucro, pertença dos mecenas e sócios-fundadores que integram administrações semelhantes às de qualquer empresa privada.
Embora possuam serviços educativos, estes museus não cabem na definição de guardiães do conhecimento e abdicam da função, trocando-a pelo do entretenimento, coleccionando obras e eventos validados pelos comissários. Os museus funcionam fora de horas e para finalidades sociais que pouco ou nada têm que ver com a sua função e são usados para apresentações da indústria, da banca e até para eventos mais íntimos. As suas áreas são estruturalmente e cada vez mais da natureza das dos centros comerciais e as dos centros comerciais vão, progressivamente e por sua vez, acomodando cultura e arte. Por via directa, o “merchandising” dos museus, os chamados “derivados” numa linguagem do mercado financeiro, cresce exponencialmente e até já é “franchisado”. T-Shirts, relógios, bicicletas, posters, agendas, lápis, borrachas, blocos, repetem-se de forma pouco original por todo o lado com o logo das instituições. Pela associação dos seus eventos massivos e do espaço expositivo às marcas que os patrocinam, prolonga-se o círculo de business.

As colecções de Serralves ou da Tate são amálgamas. Não há, não pode haver descodificação dos universos artísticos tão diferentes que são representados. O efeito fácil, a comparação do que não pode ser comparado, a falta de densidade, proporcionam uma digestão rápida que se expele antes do próximo evento e tudo se resume a isso, um evento. Nada, mas nada se orienta para a necessidade de compreender, porque os museus são como parques infantis onde tem lugar um jogo de sensações que apresentam um presente giro, divertido e rentável.

Tate Modern - Herzog
Projecto de Transformação da Tate Modern por Herzog

A Tate Modern é um das 3 maiores atracções do Reino Unido, gerando um income anual de 100 milhões de libras para a cidade de Londres, com as suas quase 5 milhões de visitas anuais. O número de visitantes de Serralves foi em 2008 de 412.550 e mesmo sem dados oficiais, não duvido do papel da instituição como principal atracção da cidade do Porto. Uma exposição de Francis Bacon, Andy Warhol ou Paula Rego, têm um volume de visitas idêntico, mas as semelhanças acabam aqui numa demonstração de que não interessa o conteúdo mas o “movimento”.
A recente exposição de Juan Muñoz revelou o artista à mesma cidade que dispõe do seu último trabalho “Treze a rir uns dos outros” no jardim da Cordoaria desde 2001, mas o ignorava e deixou entregue ao vandalismo antes da exposição e continuou a fazê-lo depois de ela acabar.

cordoaria1
Aspecto do estado da intervenção de Muñoz na Cordoaria

O “Já foste? Estava imensa gente”, quase esgota o comentário sobre a última simultânea de Miguel Bombarda, onde um conjunto de galerias expõe trabalhos que quase ninguém vê, pelo menos sem ter de amparar o bêbado do lado, patrocinado pela Famous Grouse. Na mesma rua, a livraria Assírio & Alvim fechou por falta não de localização, mas de público. É uma constatação.

Agora “Serralves desceu à baixa”. O edifício onde se instalou, uma encomenda dos Condes de Vizela ao arquitecto Marques da Silva, faz a ligação ao local e à história da casa de Serralves e do seu fabuloso enquadramento. O local, as Galerias, é o novo must da cidade, facilmente identificável pela existência de uma multidão de suricats que esticam a cabeça à procura de algo ou alguém, no acto de ver e ser visto. O edifício da RDP, pleno de história, perdeu a sua utilidade e é agora encenado com uma exposição, perdoem-me o comissário e as pessoas mais sensíveis, duvidosa. Tudo isto me recorda as instalações realizadas nas fachadas de edifícios no Porto 2001 que, quando subsistem passados 8 anos, se apresentam arruinados. A intervenção branqueou como convinha, o seu estado calamitoso e a indiferença da autarquia e dos cidadãos, servindo para distribuir verbas pelos artistas mas deixando tudo na mesma. No Porto ou em Berlim, assistimos a uma lógica em que a ocupação destes espaços continua a ser um simulacro inútil e até o único tipo de ocupação permitida pelo sistema.

Ficam as perguntas idiotas: porque raio precisou Serralves de descer à baixa, encontrando-se, tanto quanto se sabe, em período de fortes restrições orçamentais? Quantos centros tem esta cidade que mal acumula massa crítica para um centro real? O que sucederá a este novo centro quando entrar em funcionamento o Hard-Rock no Mercado Ferreira Borges, outra decisão mais que duvidosa?

Creio que este é o meu post mais impopular de sempre, mas como não lamentar a proliferação do “que giro”, do entretenimento indistinto, do vazio em movimento? Divirtam-se e desculpem a arrogância de quem acha que o rei não só vai nú, como bastante sujo. Pela parte que me toca já não consigo divertir-me em sítios deprimentes. Voltaremos à questão do estado da arte.

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6 Respostas to “Paradigma Las Vegas”

  1. R.P. 08/07/2009 às 22:26 #

    Aos artistas cabe, com a sua arte, suscitar no observador a curiosidade de se redescobrir, interrogar, reflectir, surpreender, extasiar, criticar e também claro, revoltar.
    Não vejo nenhum mal, que o território artistico seja um ponto de encontro, nos traga alegria, tertúlia com uns copos à mistura, mas concordo que andamos apressados e sobra muito pouco tempo para ler, compreender, questionar e SENTIR.
    Talvez, porque o Porto e quem lá vive, está tão deprimido, que quem sofre com a realidade inquietante da falência da cidade, não tem muita paciência para as práticas artísticas actuais, que são como uma esponja que apanha o abandonado, o falido, o desprezado, o destruído, num exercício de nostalgia e memória que , sem querer desprezar a importância do “alerta”, tira espaço à esperança que urge encontrar.
    Recentemente, como artista, desenvolvi projectos nesse território.
    Agora estou na fase de sentir uma enorme vontade de tomar um banho de chuveiro para me lavar do cheiro a velho da cidade, de apreciar a água como um bálsamo. De me sentar na esplanada dos Maus Hábitos a apreciar as flores. As cores maravilhosas das flores.
    Tudo tem um tempo. Tudo é transitório. Aliás, o projecto que desenvolvi reflectia sobre isso mesmo.
    É tão importante aprisionar memórias como libertarmo-nos delas.

    A situação que mais me tocou na exposição de Serralves da baixa, foram as marcas dos quadros na parede do edíficio. Aliás, o edifício sufoca todas as intervenções artísticas.
    Senti urgência em sair dali.
    Vi no entanto, um vídeo que me tocou pelo esforço… e que me faz pensar que andamos todos a caminhar com a língua.

    Espetáculos como “Sombreros” com direcção artistica de Philippe Decouflé do Dancem 09, estimulam aquilo que em nós há de melhor. Uma criatividade luminosa.
    Não sei por onde vou, só sei que quero ir por aí.

  2. Filipa 09/07/2009 às 3:34 #

    A propósito da conversa de anteontem e do teu post, lembrei-me do nome da autora que te falei, que escreve muito sobre este fenómeno de marketing cultural – Françoise Choay “A alegoria do património”. Neste livro, é muito focado o exemplo específico de França, mas tal como tu referes, trata-se de uma questão generalizada.

    Já pensei muito nesta questão, por já me ter sentido muitas vezes como se estivesse realmente num centro comercial quando estava a ver uma exposição de arte. Deixo aqui um texto que escrevi há um tempo, com a minha opinião sobre este tema:

    “Tem vindo a crescer cada vez mais o fenómeno de mediatização agressiva na arte, que se pôde assistir recentemente em Lisboa com Frida Khalo, no CCB, Amadeo de Souza-Cardoso na Gulbenkian, ou com a exposição inaugural do Museu Berardo, por exemplo. Tornava-se um pouco perturbante estar nestes espaços, porque o ambiente aproximava-se bastante de um Colombo ou de um Vasco da Gama, no entanto eram obras de arte que supostamente apelam a uma atitude de reflexão ou contemplação que cercavam os visitantes. Não havia assim nada para consumir exacerbadamente, a não ser no final da exposição.

    A questão é que as pessoas vão porque se sentem quase obrigadas a ir, na medida em que são accionados toda uma série de mecanismos da tal indústria cultural, que fazem com que as pessoas se sintam totalmente incultas se não virem a exposição A ou B que por alguma razão usufruiu de uma propaganda mediática. No entanto, se se reparar na atitude de muitas das pessoas que aderiram a essa dinâmica aparatosa, é muitas vezes de gozo ou até indiferença, outras tentam prestar uma falsa atenção e interesse. Mas, no fim, todas têm em comum a concentração em massa na loja correspondente do espaço que visitaram e a aquisição compulsiva de canetas, blocos, calendários, enfim, tudo o que se possa imaginar, com a impressão das obras mais mediáticas, como prova e recordação de que estiveram por lá.

    Mas não será um pouco elitista demais condenar esta atitude? É certo que ela só existe graças a todo o marketing e razões económicas que estão por trás. Mas por outro lado não é positivo que as pessoas se desloquem a um lugar com propostas unicamente culturais em vez de ficarem em casa a ver telenovelas e futebol? Não contribuirá para uma evolução das mentalidades, revelando-se como um contraponto à ignorância e baixos níveis culturais da nossa sociedade? Sem dúvida que é um mercado como todos os outros, mas é um mercado intelectual e alguma informação da exposição visitada há-de ficar, mesmo que seja vista a correr…” Fevereiro 2008

    Isto já foi há algum tempo…acho que perdi parte da ingenuidade que surge no final do texto…! Ainda assim, e apesar de tudo, confesso que gosto da ideia de ver imensas pessoas na rua e da nova dinâmica que a cidade tem vindo a ganhar, com novos espaços a abrir e que convidam a estar ao ar livre, especialmente à noite. Mesmo que seja para ver quem está e quem não está, pensa que vão sempre haver pessoas que estão nesses sítios com uma postura diferente e que irão usufruir deste tipo de iniciativas de uma forma mais interessante. Como eu, por exemplo.

  3. bulimunda 09/07/2009 às 19:54 #

    Olá zero,…deixo-te aqui uma pequena pérola…
    http://bulimunda.wordpress.com/2009/07/09/humor-de-quino-contar-a-realidade-do-mundo-a-crianca/

  4. bulimunda 09/07/2009 às 19:56 #

    Esta é para veres no fim de semana…fico com saudades dos tempos aqui retratados…
    http://bulimunda.wordpress.com/2009/07/09/les-mistons-short-film-de-francois-truffaut-france-1957/.
    Carpe diem…

  5. Luis 12/07/2009 às 16:42 #

    Nada melhor do que agitar as águas.
    Afinal a direcção final resultará do choque dos opostos, da vontade da maioria, do respeito pela minoria, da estética de quem e em nome de quê?
    Uma vez mais, ideologia precisa-se urgentemente.
    Até lá vale quase tudo!

  6. Manuel Brandão 17/07/2009 às 15:15 #

    1. Um artigo interessante sobre o mesmo assunto no El Pais
    http://www.elpais.com/articulo/semana/Templos/arte/ocio/elpepuculbab/20090711elpbabese_3/Tes
    2. Uma citação de David Lodge tirado do seu romance “A vida em Surdina”:
    ..(aquelas pinturas minimalistas e instalações crípticas que vemos nas galerias e que dependem completamente das descrições que os curadores e os críticos fazem sobre elas para poderem existir enquanto arte)..
    3. Para além das motivações e folclore vário á volta do museu acho que falta falar do outro lado da questão: o proveito que o espectador retira da fruição da arte exposta. Estive há dois no Gugenheim de Bilbau, e o que me ficou fui a possibilidade de ver com a minha família uma bela mostra de arte soviética, que até poderia estar albergada noutro qualquer edifício.

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