Cristiano ainda julga ser jogador de futebol

1 Jul

Sobre a agressão a uma miúda de 17 anos no i. Elogio de Ferguson no Público.

1 – “um indivíduo que (…) já conhecia de o ter visto dias a fio à porta de minha casa, alimentando-se de iogurtes e de câmara na mão, (…) causou um tal estado de perturbação e de aflição na minha mãe que me vi forçado a parar o meu carro para tentar convencê-los a deixarem-nos em paz”. Cristiano Ronaldo decidiu fazê-lo a pontapé, partindo o vidro da frente do carro com a miúda lá dentro.
2- Cristiano afirmou, referindo-se aos adeptos do Manchester, que “o ódio deles até me sabe bem”. Em resposta, Ferguson disse “Cristiano foi um jogador maravilhoso (…) o seu talento, capacidade de entretenimento e personalidade contagiaram fãs em todo o mundo (…) todos aqui lhe desejamos sorte para o futuro”. Uma chávena de chá fora do alcance de Cristiano.
3- Cristiano, um miúdo simpático com um olhar ingénuo e um sorriso bonito, com alegria e encanto a jogar a bola, define o fotógrafo que o importunou como alguém que se alimenta de iogurtes, mas não percebe que é a sua vida privada que lhe inflacionou o passe até aos 97 milhões de euros e o ordenado mensal até ao milhão. Esse investimento não é pago em golos mas em “merchandising”, que vende tanto mais quanto tudo o que lhe disser respeito for do domínio público e alimentar a imprensa. É precisamente por lhe ter comprado os direitos de imagem, que o presidente do Real “gostava de o ver casado”. Duvido que, não tendo entendido isso e não sabendo lidar com a pressão, Cristiano acabe bem. “O Real é como a Walt Disney, mas ainda está por explorar” disse, um dia, Florentino Flores que podia ganhar campeonatos sem os mitos, mas “comprou” Figo, Zidane e Ronaldo. Pensar assim seria não compreender que Manchester e Real são marcas do showbusiness.
4- Os adeptos do futebol (nos quais me incluo), têm uma lealdade que não depende dos resultados porque pagam para viver na fantasia, num tempo em que se sobrevive. São uma espécie de duplo, feito de uma criança que se implica no jogo como se aquilo fosse decisivo, e de um adulto distante e autocomplacente para com os excessos decorrentes.
Quando ocorre um “jogo grande”, as cidades ficam desertas, as empresas e os parlamentos páram, o funcionamento das urgências é afectado. A realidade é suspensa para que o “reallity-show”, forneça uma imitação da vida (com medo, aventura, vitória, injustiça, “uma guerra por outros meios”), e que faça a reelaboração infantil da realidade para a tornar suportável sem nos implicar nela. Em troca apenas temos de dar um eu em miniatura, que vibre com uma coisa que injecta prazer e esquecimento por 90 minutos.
5- Cristiano é um miúdo trágico que não sabe bem o que lhe aconteceu. Enche revistas do mundo inteiro com peripécias da sua vida privada, tornando-se, logo após Obama, a figura mais mediática do planeta, para uma indústria que fornece ilusões, vivências por interposta pessoa, mudanças de identidade através da mudança de aparência. O futebol infantiliza os adeptos, mas também os actores, e vive do facto de a trivialidade, na cultura pós-moderna, nem sequer envergonhar. Era favor dizerem-lhe isto.

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Uma resposta to “Cristiano ainda julga ser jogador de futebol”

  1. Helder Robalo 02/07/2009 às 13:20 #

    Cristiano Ronaldo cresceu, e muito, enquanto jogador. Está mais completo desde que saiu do Sporting. Até fisicamente cresceu. Tornou-se num jogador que, em forma e concentrado, resolve sozinho um jogo importante (viu-se assim no Dragão e viu-se assim, sobretudo, na temporada anterior no Manchester United). Por isso Ferguson não o queria deixar sair.

    No entanto, continua a faltar-lhe aquela pontinha de inteligência e discernimento que não se consegue ensinar nem numa das melhores escolas de futebol do mundo. E por isso CR7 (que em Madrid deverá ser “promovido” a CR10 porque apesar dos muitos milhões que vale ainda não consegue ser mais importante do que o mítico Raul) continua a fazer as birras que faz dentro de campo quando o árbitro não marca uma falta que ele quer, ou a reagir com insultos e gestos obscenos para as bancadas quando é assobiado, ou até mesmo a agredir quem o promoveu no mundo e o ajudou a “valer” milhões.

    E porque isso não se consegue ensinar, Cristiano Ronaldo tem tudo para ser mais um fora-de-série com todos os ingredientes para ficar na história do futebol, em simultâneo, pelos bons e maus motivos. Quando penso nele, e em todas as peripécias da sua vida, lembro-me sempre de George Best e Maradona. Jogadores fabulosos, mas que tiveram sempre o lado negro da sua vida a coexistir com igual ou maior destaque até que o lado belo do seu futebol.

    Só um pequeno reparo, se me permite. O Florentino é Pérez, não é Flores. Flores é o Quique ;)

    Um abraço

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