Estilhaços do som que aprendemos a ouvir

29 Jun


“No princípio, A Sagração é sedutoramente frágil. O fagote trémulo, tocando no registo mais alto (parece um clarinete rachado), evoca uma velha melodia folclórica lituana. Para o ouvido inocente, esta melopeia cadenciada soa como uma promessa calorosa. O Inverno acabou. (…) Em escassos segundos, as floreadas melodias do fagote são abafadas por um ritmo epiléptico, com as trompas a colidir assimetricamente contra o ostinato. (…) A tensão sobe, sobe, sobe, mas não tem por onde escapar, o ímpeto irregular é tão desapiedado como a banda sonora de um apocalipse, e o ritmo cresce, até um fortíssimo fatal.
Foi aqui que o público da estreia desatou a vaiar. A Sagração tinha dado origem a um motim. Uma vez começadas, as vaias e os apupos nunca mais pararam. (…) A dissonância musical foi suplantada pela dissonância real. (…) Diaghilev ligava e desligava freneticamente as luzes. O efeito intermitente não fez mais do que aumentar a loucura. Vaslav Nijinsky, o coreógrafo do bailado, estava ao lado do palco, empoleirado numa cadeira a gritar o ritmo para os bailarinos. Eles não o podiam ouvir, mas não tinha importância. Ao fim e ao cabo, esta dança era sobre a ausência de ordem. Como a música, a coreografia de Nijinsky era uma rejeição autoconsciente da sua arte (…) o público via apenas perfis dos bailarinos, os corpos curvados para a frente, as pernas penduradas, os pés virados para dentro a martelar no palco de madeira.
(…) Apesar da multidão presente na estreia presumir que a beleza era imutável – havia apenas alguns acordes mais agradáveis do que outros – Stravinsky sabia que não era assim. (…) apercebeu-se de que a nossa noção de beleza é maleável e que as harmonias que adoramos e o os acordes em que confiamos não são sagrados. Nada é sagrado. A natureza é barulho. A música não é mais do que um estilhaço do som que aprendemos a ouvir.

Jonah Leher in Proust era um Neurocientista

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2 Respostas to “Estilhaços do som que aprendemos a ouvir”

  1. candida 07/07/2009 às 22:12 #

    muito bem dito. só um parvalhão como vcs é k pensam k a natureza é um jardim versailliano traçado a régua e esquadro. são mesmo anormalzinhos!
    a natureza é organizada mas de forma caótica, seus tarados.

  2. candida 07/07/2009 às 22:15 #

    este livro deve ser bem interessante.

    desculpa o comentario anterior. ando muito zangada e atinjo inocentes. se for o caso, mais uma vez desculpa. detesto ser injusta.

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