21 Gramas

26 Jun

As grandes religiões encaram a morte com tristeza, embora alimentem a ideia de uma vida para além dela. A ciência, por sua vez, não provou a improcedência desta crença. Na nossa cultura, lidamos todos com o doloroso facto de algo nos ser tirado com a morte de alguém que nos é querido, e somos afinal, crentes ou não, cépticos com a “outra vida” ou pelo menos com a bondade da mesma.
A ideia de uma alma separada do corpo, é uma idéia socrática mas está tão profundamente inscrita em nós que se confunde com aquilo que realmente a Bíblia diz. Sócrates baseava a indestrutibilidade da alma na sua natureza una e imaterial, uma idéia poderosa que influenciou os pensadores cristãos e chegou, numa forma modificada pela doutrina da igreja, até nós. Mas o que o Velho Testamento realmente afirma é a convicção de que Deus nos fará regressar à vida após a morte. Estas duas noções são bastante distintas, sendo que a da Bíblia requer imenso espaço. Na acepção do filósofo uma alma imortal, não carece de ressureição. Na de S. Paulo, nada resta de nós após a morte e a esperança reside na hipótese de que Deus, à semelhança do que fez com o Filho, nos ressuscite atribuindo-nos uma vida eterna.
21 gramas é aparentemente, e socorrendo-me do belíssimo filme de Iñarrito, o peso que perdemos instantâneamente quando morremos. Um maço de tabaco. MacDougall afirma esta teoria da alma que se solta, enquanto os desmancha-prazeres reduzem o fenómeno a uma perda de água que resulta da subida de temperatura corporal no momento em que o fluxo sanguíneo cessa de ser arrefecido pelos pulmões, imagem plausível, mas muito menos atraente.
21 é também o nosso século. Há muito que sabemos ser “feitos da matéria das estrelas” e esta convicção sugere uma abordagem tão científica quanto poética de como a nossa vida continua e alimenta um perpétuo círculo que se reinicia no momento em que somos pais e se prolonga quando, de uma forma ou outra, incorporamos a natureza com a nossa matéria. Se transportamos a nossa informação (as nossas memórias) essa é outra questão. Gosto de pensar que sim. Mas a morte, essa, não há meio de nos surgir como algo que dá valor e beleza à vida tomada como oportunidade e adquire ainda significado como etapa, como um necessário dar lugar, como um ponto final que, numa frase, torne o grande livro mais inteligível.

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