Um simplório chamado Rui Rio

23 Jun

Foi inaugurado, a poente do Parque da Cidade, um equipamento denominado Sea-Life com 2.200 m2. Abriu sem licenciamento da Direcção Geral de Veterinária e do Instituto de Conservação da Natureza. Na fachada um agressivo lettering a vermelho contrasta com o parque tranquilo, mas conjuga-se com a entulheira que se amontua nas traseiras da obra mal terminada. Cartazes promocionais validam a iniciativa com o logotipo da Câmara Municipal do Porto numa estranha associação institucional. O povo corresponde em longas bichas (lamento mas sempre disse bichas), secando ao sol no exterior do acanhado edifício. Junto ao mar, estendem-se tendas gigantescas que albergam restaurantes ou feiras ou qualquer outra coisa, ignoro-o e, mesmo em frente, jaz, abandonado, o ex-edifício do CLIP.
Na envolvente do parque, por todo o lado, distribuem-se “rails” de protecção para o “Grande Prémio do Porto” e umas mais que precárias bancadas cujo suporte faz temer pela segurança. Nada melhor para envolver um parque natural ligado suavemente ao mar num notável exercício de paisagismo, que uma corrida de automóveis. Na cultura vigente, é necessário colocar “atracções no local”. É necessário barulho, movimento, “animação”. A fruição da natureza não basta. É chata. É a lógica de encarar os espaços verdes de qualidade como parques de diversões, desvirtuando-lhes a razão de ser.
A poucas centenas de metros, um equipamento público de investigação e conservação marinha, estiola encerrado. A intervenção serena nos passeios à beira-mar, vandalizada por todo o lado, caminha para a inutilização e não colhe a simpatia de muitos utentes. Abre-se o jornal e lê-se um comentário da arquitecta que projectou o excelente Parque da Pasteleira. Sem conhecimento da projectista, a Câmara avança para a cedência de instalações do parque para uso de uma empresa privada, a Port Aventura. A baixa do Porto e algumas das suas praças há muito que mais não são que feiras permanentes autorizadas pela autarquia.

A minha cidade é tão bela. A minha cidade é serena, digna, boa de disfrutar. A minha cidade tem rio e tem mar. A minha cidade oferece alguns dos mais notáveis jardins românticos que é possível encontrar na europa. A minha cidade continua a cair aos bocados e cai mais depressa do que são recuperados a meia-dúzia de edifícios eternamente embrulhados em grandes panos desbotados a publicitar, alguns em inglês, a preocupação da autarquia com o património. A minha cidade tinha edifícios industriais extraordinários. A minha cidade tem hoje 60% da população que tinha em 1974 e será, eventualmente, apenas a 5ª cidade do país em termos demográficos.
O presidente da Câmara do Porto, que fez uma estranha e perigosa declaração recente de desprezo pelos livros, adora, em contrapartida, animação e feiras. Promove “eventos de encher o olho”, de retorno duvidoso mas é, no essencial, um imobilista que parte do desconhecimento da cidade em que vive e da sua história. A Rui Rui é natural a transformação de um mercado como o Bolhão num centro comercial ou a concessão de facilidades a La Féria outorgando-lhe a exploração de um dos mais nobres espaços da cidade, o Rivoli, porque não tem outro entendimento da cultura e do património. O seu conceito de modernidade manifesta-se na, lamento dizê-lo, péssima e igualmente provinciana intervenção de Siza Vieira na baixa (e seus sucessivos remendos e formas de utilização), ou na inacreditável cascata de S. João. Rui Rio é alguém que vai ganhar as próximas eleições porque não precisa senão de pôr a nú o oportunismo da dupla candidatura de Elisa Ferreira que, por sua vez, nada acrescentaria à cidade.

A minha cidade é apenas uma recordação de postal ilustrado e parece haver pouca gente que se indigne por termos descido tão baixo. O problema está mais nos portuenses que lhe voltaram as costas que na existência de figuras como Rui Rio, reflexo medíocre da falta de merecimento do legado tão rico que outros construiram para nós.

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3 Respostas to “Um simplório chamado Rui Rio”

  1. O Moscardo 25/06/2009 às 1:45 #

    dificilmente diria melhor… ainda que possa não concordar totalmente num ou noutro aspecto… o essencial está aqui… e é por isso que não sei que voto terei, nas autárquicas… pois nem o branco ajuda os nulos, inpacazes de compreenderem este post, que é um grito de alerta…

  2. Luis 25/06/2009 às 17:47 #

    Texto fantástico que nos permite alargar o raciocínio ao País que temos e inevitávelmente, pela falta de melhor alternativa e/ou por uma procuração que todos nós passamos a meia dúzia de ditos iluminados, acabamos sempre com estas reflexões profundas, reais e dolorosas. Coisa bárbara!

  3. Brandão 26/06/2009 às 17:06 #

    Sempre achei não faz sentido continuar a fazer crescer esta cidade caótica que começa em Braga e vai até Setubal. Fico arrepiado quando ouço um estupido anuncio na rádio de uma obra, uma qualquer IC qualquer coisa que vai servir 2,3 milhões de pessoas, quando estiver pronta já têm que começar a conceber a próxima. Pensar pequeno parece-me muito mais adequado para Portugal, e para a nossa inabilidade para grandes projectos! o caso mais recente é o Alqueva, cuja água de rega é inutil porque afinal já não há agricultores e a água está, por alguma razão tóxica…

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