Uma nova linguagem para o design

19 Jun

Reflexão lateral à Conferência Design e Sustentabilidade com Alexander Manu

Generalizou-se a expressão “consumidor” ao ponto de ela se apossar e confundir com a condição de cidadania. E isso constitui uma redução, não uma expansão. Somos tanto mais pessoas quanto menos consumidores.
O consumo como modo de vida, rouba tempo, acentua a neurose social ao fornecer um falso substituto de felicidade, dá a ilusão de direitos inexistentes e aumenta a pressão para que o processo se torne, a jusante, francamente inimigo de um modo de vida consequente.

Se ao folhear uma revista de consumidores espera encontrar, antes de cada teste, a pergunta “precisa disto?”, ou desintoxicações de compras por impulso, estudos suficentes sobre o perigo e consequências do endividamento e um convite à única coisa razoável e realmente importante- consumir menos, desiluda-se porque o personagem central é um ser estranho que se vê a si próprio como um pequeno ditador, uma pessoa apetrechada de especificações técnicas e arquétipos suficientes para lhe ocuparem todo o tempo, mas que permanece basicamente no desconhecimento do processo.
As campanhas de angariação de associados “assine a revista x e receba este fabuloso MP3 inteiramente grátis”, utilizam os mesmos processos do marketing mais agressivo para gerar decisões imediatas. São peças fora de prazo da cartilha “Compro, logo existo”.

O problema de base consiste em olhar para o mundo como um somatório de segmentos de consumidores. O design não se libertou da canga da linguagem do marketing e, mesmo sem o pretender assume, no uso deste termo, uma atitude ideológica. Este problema não é novo, nem específico ao design. A substituição do termo “doente” por “cliente” no serviço de saúde não é inócua, e exemplifica a mudança que a linguagem é susceptível de incorporar. É toda uma forma diferente de considerar a pessoa que está à nossa frente.

Não podemos aceitar ser definidos como consumidores, nem incluir esta noção no léxico do design, sob pena de vermos os destinatários do nosso trabalho numa versão pobre e redutora do que são. Podemos mudar a linguagem ou podemos aceitar que a linguagem mude o nosso modo de olhar. O uso da linguagem da economia não serve à ética no design.

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