Défice de Atenção

11 Jun

Os canais de televisão não dissipam apenas a atenção, reduzem-na ao nada, esmagam-na. Um telejornal utiliza um cenário de cores fortes que induz movimento e dramatismo. Abre com uma notícia de choque ou um “fait diver”. Em segundo plano apresenta a encenação do movimento de uma redacção que continua a funcionar. Passam pessoas de um lado para o outro, enquanto, em rodapé, correm os resumos das notícias e o anúncio de algo que vem já à seguir. O “pivot” tende a ser agressivo, e é muitas vezes um “especialista no ser e no nada”, uma pessoa que fala de qualquer coisa sem saber nada em concreto. Frequentemente, o cabeçalho de uma notícia não se confirma no seu desenvolvimento. Neste fogo de artifício tudo dispersa a atenção, e tudo está lá para isso. Para nada significar.

É enorme a capacidade de captação e monitorização da atenção para modos de olhar e estar através dos quais a televisão molda um modo de vida realmente desapegado e desvinculado de tudo. É patente a standardização de comportamentos (num concurso é preciso entrar aos gritos e aos saltos), o convite ao mimetismo das escolhas, dos temas e interesses, a separação cada vez mais ténue entre novelas e publicidade. Tudo isto reduz a autonomia pessoal, uniformiza, estreita o mundo interior, dá um precário sentido de pertença, denega a curiosidade, cria uma indolência que vicia num “não querer saber” assente na superfície das coisas, ensina a não cuidar realmente de nada e espalha a incúria, incha o consumidor na mesma medida em que diminui a pessoa.

Basicamente parece que apenas só falamos muito de comunicação porque já não comunicamos nada, porque desistimos da necessidade de sentido.
Se há um estado de emergência para a reforma da indústria de comunicação, então é mesmo o de a por ao serviço da reconstituição de uma faculdade, a da atenção verdadeira, a da preocupação com o mundo e o nosso lugar nele com os outros

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Uma resposta to “Défice de Atenção”

  1. bulimunda 13/06/2009 às 0:24 #

    Basicamente apenas fingimos que comunicamos não comunicando…as novas tecnologias servem para acentuar esse fingimento na perfeição…hoje comunicar verdadeiramente tornou-se verboten…
    Hoje diz-se: quem não faz o quê não sei onde em qualquer dia hora ou ano .. ..irrelevante…
    cada vez mais caminhamos para a hikimorização social…

    Um abraço e parabéns pelo texto…excelente análise do telejornal… da relação cor movimento ao vazio do mesmo….
    Hikimori
    In Japan there are an increasing number of young adults who choose not to participate in the preconditioned path of society. They withdraw in the confinement of their apartments or rooms and spend their days alone with things they feel they need to do.

    These solitary people are called Hikikomori which means they have withdrawn from society. This psychological phenomenon is referred to as Hikimori in some western languages. For a recording artist who spends most of his days in his studio, Hikimori seems to be a fitting name to use as an alias.

    Hikimori is a talented and very diverse recording artist whose work consists of composing and producing music for student films, documentaries, games and video art, as well as sound design. The diversity and quantity of his work is exceptional.

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