4,6% Votos em Branco

8 Jun

“No tempo dos reis, dizia-se ao súbdito: Dantes eras súbdito do rei A, agora o rei A morreu e eis que passas a ser súbdito do rei B. Depois veio a democracia e foi pela primeira vez apresentada uma escolha ao súbdito: Queres (colectivamente) ser governado pelo Cidadão A ou pelo Cidadão B?
O Súbdito é sempre posto perante o facto consumado: no primeiro caso com o facto da sua sujeição, no segundo com o facto da escolha. A forma da escolha não está aberta a discussão. O boletim de voto não diz: Quer A ou B ou nem um nem outro? E seguramente nunca diz: Quer A ou B ou ninguém? O cidadão que exprime a sua insatisfação com a forma de escolha que lhe é oferecida da única maneira que está ao seu alcance – não votar, ou inutilizar o boletim de voto – não é pura e simplesmente contado, ou seja, é desprezado, ignorado.
Confrontada com uma escolha entre A e B, tendo em conta a espécie de A e a espécie de B que habitualmente chegam aos boletins de voto, a maioria das pessoas, pessoas vulgares, sente-se no íntimo inclinada a não escolher nenhum deles. Mas isso é apenas uma inclinação, e o Estado não trata de inclinações.J.M. Coetzee in Diário de Um Mau Ano.

Não publiquei este texto antes das eleições por não querer confundir uma reflexão sobre a imperfeição do sistema com um apelo à não participação. As eleições realizaram-se e, pela primeira vez na nossa história eleitoral, 164 874 dos votos expressos, são brancos. E estes votos que não podem ser confundidos com abstenção, não aparecem nos “pie-chart” da distribuição das escolhas dos eleitores, nem há nenhum político a pronunciar-se sobre eles no discurso de balanço eleitoral.
164 874 eleitores que se deram ao trabalho de ir às urnas, e exercer cidadania, são ignorados e misturados no saco “outros” que alberga os pequenos partidos e soma mais de 11% dos votos.
E que dizer do péssimo serviço prestado à cidadania pelos “media”? Pode aduzir-se que o voto em branco não exprime uma corrente de opinião una, mas não se pode continuar a ignorar o seu significado de recusa a este modo de fazer política.

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2 Respostas to “4,6% Votos em Branco”

  1. IP 08/06/2009 às 16:25 #

    Tens toda a razão. É lamentável a pouca importância reconhecida aos que cumprem com a sua obrigação comparecendo à mesa de voto e aí demonstram o seu descontentamento votando em branco. Mas não posso concordar contigo quando criticas os media por isso. Tenho à minha frente três jornais diferentes – DN , JN e Público – e todos eles têm na tabela dos resultados totais, logo na página dois, o número de votos em branco, em igual destaque dado à abstenção, aos resultados de cada partido e aos nulos. E um deles, o JN, até refere esses dados logo na primeira página, em rodapé da ‘pie-chart’: “A abstenção chegou aos 62,96%. Houve 164 mil (4,6%) votos em branco. Falta atribuir um mandato”. É pouco? É o que os media podem fazer. Cabe aos ditos ‘opinion makers’ e comentadores políticos analisarem a questão e colocarem-na na ordem do dia e aos próprios políticos tirarem as reais ilações deste facto.
    (gostei de te ver de volta… não tenho resposta para as perguntas que lançaste até porque te ‘avisei’ para muitas delas quando iniciaste esta aventura. Mas acredito que tudo o que se faz com prazer tem sempre sentido…)

  2. MP 09/06/2009 às 22:15 #

    É com imensa satisfação que leio estas linhas que acabei de ler.

    Primeiro quero dizer que fui um dos 164 874 cidadãos deste País que se deslocou à mesa de voto e PROTESTOU!!!

    Sim, protestei! E desta vez foi ainda com mais força. Com a força de uma abstenção de mais de 60%! O que torna ainda mais visível estes 4,6% de votos em branco!

    Não me espanta que os “opinion makers” não falem do assunto porque estão a defender o seu “emprego” e falar dos votos em branco é pôr em causa o tacho arranjado na TV…

    Estou convencido que muitos mais serão nas próximas eleições legislativas, porque as alternativas ao actual governo são de “bradar aos céus”.

    Por mim irei incentivar outras pessoas a fazerem-no porque é importante que se proteste e julgo que desta forma é o caminho correcto.

    Cump

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