Democracia

3 Jun

A participação diz-se de muitas maneiras, mas é uma condição sine qua non para aqueles que consideram que a democracia é uma forma de governo sob a qual é bom viver. Produz, ao contrário do que afirma a tese da abstenção, uma obrigação política, um contrato, mas, acima de tudo implica-nos nas decisões, compromete-nos com a sociedade e os problemas comuns, cria-nos uma memória.
Conhecemos a democracia por intuição e muitas vezes por aquilo que não é. Mas a democracia é a utopia de que não podemos prescindir e se, encostados à passividade, à apatia e desafectação generalizada, esquecermos o que é público e nos limitarmos a constatar o desfasamento entre “o contrato” que celebram connosco e a realidade como justificação válida, não chegamos a compreender que a entrega da decisão aos outros, exprime a ilusão de que se pode formar uma pequena sociedade para uso particular abandonando a sociedade em geral a si mesma, desresponsabilizando-nos das consequências.
O problema é que, em última análise, o esquecimento voluntário da coisa pública, ou seja dos outros, o fechamento sobre si próprio, não só não é uma solução para o problema individual de como viver melhor ou uma resposta à corrupção do sistema político, como se revela, na prática, um desvio da auto-estima que, como pessoas e cidadãos, nos devemos.
Permitir que alguém decida por nós, é uma doença do nosso tempo e é, de certa forma, uma doença inoculada. A falta de interesse pelos assuntos públicos, a insensibilidade em relação à pobreza, o descuido em relação ao ambiente, a despreocupação inconsciente, não se justifica no facto de a política ser cada vez menos serviço público e cada vez mais o exercício dos interesses, mas é, ao invés, a escassa cidadania que explica aquilo em que a prática política se vai transformando sem controlo.
Se não fizermos o esforço de nos envolvermos, de todas as formas, numa circunstância mais ampla que a do nosso cenário particular, perdemos a noção de que muito do que nos afirma como indivíduos, é precisamente a escolha.

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4 Respostas to “Democracia”

  1. O Moscardo 03/06/2009 às 11:02 #

    O texto está forte, lindíssimo! Parabéns!
    Mas… não posso deixar de explicitar: DEMOCRACIA não é uma forma de Governo. É uma forma de ESCOLHA de Governo… Na democracia essa escolha é feita pelo “POVO” (membros da comunidade com direitos de CIDADANIA na sociedade politicamente organizada) e, por isso, é no Povo que reside a SOBERANIA, pois é nele que reside a LEGITIMIDADE para o Exercício do PODER (Governo).
    No blog osocratico surge algo sobre o assunto…

  2. IP 03/06/2009 às 16:41 #

    Parabéns. É um texto fantástico. A questão é que as pessoas estão anestesiadas. E muitas nem sequer querem ser incomodadas, não querem que as obriguem a enfrentar a realidade de frente, a pensar sobre ela, a pensar os problemas e a necessidade de encontrar soluções. É preciso educar para a cidadania. Para que cada um de nós não abdique do seu direito mas também do seu dever de pensar o mundo e de ser parte das decisões. Porque se os políticos são o que são, demagogos quanto baste, é porque sabem que compensa dizer o que as pessoas querem ouvir. Porque, no limite, os descontentes, abstêm-se, deixam de comparecer às urnas, deixam de exercer o seu dever. Nem que fosse o de chegar lá e votar massivamente em branco. Sempre seria um sinal.

    • luís 03/06/2009 às 23:14 #

      Muito bom.

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