NO

18 Maio

O programa NO – Novas Oportunidades é um sucesso em termos de participação e de mobilização de expectativas. Conheço duas pessoas com mais de 40 anos, que se encontram nele inscritas e revelam entusiasmo, empenho e gratidão por poderem obter um grau académico que, de outra forma, não teriam possibilidade de acondicionar com a sua vida profissional, e isso é valioso. Ambas optaram pela elaboração do seu portfólio como proposta de validação do seu saber adquirido.
Portugal tinha, de acordo com os dados de 2005, 485.000 jovens entre os 18 e os 24 anos (45% do total) a trabalhar sem terem concluído o 12º ano. Destes, 266.000 não tinham concluído o 9º ano.
Este programa, destina-se a “adultos maiores de 18 anos” e afirma no seu referencial visar, entre outros objectivos, o reconhecimento formal dos “saberes e competências adquiridos ao longo da vida”. O acesso a adultos ao Ensino Superior fora das condições gerais de acesso, está vedado a menores de 23 anos, mas o programa Novas Oportunidades, confere diplomas válidos, segundo fonte do ME.

Ficam as perguntas:
– Este programa constitui ou não, para os jovens dos 18 aos 24 anos, um incentivo ao abandono, uma vez que podem obter o diploma do 12º sem frequentar a escola?
– Assim sendo, que motivação podemos fornecer aos jovens que procuram fazer a sua formação, frequentando o ensino secundário e submetendo os seus conhecimentos a exame nacional se o podem fazer de forma bem mais simples?
– Conferindo o diploma das NO, todos os direitos aos seus detentores, como é que se enquadra o acesso aos cursos superiores com as respectivas disciplinas e notas míminas de acesso?
– Será sério pretender que a elaboração e reflexão sobre o curriculum profissional e de vida de um adulto, constitua aptidão suficiente para a concessão do diploma ou estamos a criar ilusões perigosas?
– Sendo a definição das “áreas de competência-chave” suficientemente subjectiva para enquadrar no facilitismo que nos caracteriza e baseando-se se este programa numa directiva europeia nesse sentido, qual será o resultado efectivo na elevação do nível de formação das pessoas?
– No final deste programa, as estatísticas serão certamente outras, mas a realidade mudou?

Em conversa, um amigo que fez um comentário desfavorável ao post sobre o Manual do Aplicador (que por razões técnicas do wordpress ainda não consegui publicar) dizia que o maior problema da nossa democracia é a justiça. Eu creio que é a relação com a realidade.

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3 Respostas to “NO”

  1. ondina ranhola 19/05/2009 às 13:44 #

    Estou inscrita num Centro NO para certificação do 12º.Segundo as formadoras, aquando do processo foram muitas as pessoas que se inscreveram, mas que depois desistiam, pois julgavam que bastava ir lá assistiam a umas sessões, faziam um teste e pronto. O que se passa, para a certific. do 12º e naquele CNO, é uma realidade diferente. Já ouvi que nalguns centros o grau de exigência não é tão grande. É necessário mais disponibilidade do que pensava. A certificação é baseada nas competências que foram adquiridas ao longo da vida e que devem de alguma forma encaixar no tal “Referencial”. São áreas muito distintas como por ex Ambiente e Sustentabilidade, Saúde, Gestão e Economia etc. Caso não encaixem, e por vezes isso acontece, é necessário fazer formação em escolas que tem parcerias com os centros. Ou seja, não me parece que as NO retirem os alunos das escolas porque efectivamente, (se as normas forem cumpridas), não é um processo simples.E quem tem a intenção de fazer o percurso normal e prosseguir, fá-lo á seguramente. Se eu pretendesse, entrar de seguida na faculdade, não faço a minima ideia como são os critérios de avalição.A minha intenção não é fazê-lo logo não sei, mas é uma boa questão.O que na minha opinião falta são aulas práticas que poderiam ou não estar ligadas a alguns núcleos do Referencial.Se no final ficamos todos certificados, mas com o mesmo saber, efectivamente não muda nada. O que muda é na vida de cada um, e isto só acontecerá se a obtenção do 12º ano for respeitado e aceite por exemplo pelas entidades patronais, aquando da comparação de 2 curriculuns. Aqui, é que pode chegar-se à conclusao de que efectivamente não valeu a pena. Eu inscrevi-me, porque me agradava a ideia de “estudar” de uma forma diferente.Não pensei que fosse tão complicado, mas tem sido um desafio muito exigente e engraçado. Tenho feito uma viagem ao meu passado e às minhas competências (porque afinal tenho algumas), tenho reunido as provas, (o que eles chamam de evidências) suficientes para as provar. É uma recolha de dados muito curiosa. Eles ficam a saber da nossa vida toda, os gostos sonhos, objectivos, preferências clubisticas, religiosas, partidárias, enfim, nem o INE faria melhor. Mas eu apesar de tudo estou a gostar e não me arrependo de ter feito esta aposta!

  2. um zero a esquerda 20/05/2009 às 2:38 #

    As entidades patronais vão avaliar os curriculums por aquilo que são.
    É por isso que eu afirmei que se estão a criar ilusões perigosas. Certas instituições formam melhor do que outras e as empresas sabem-no. O processo de elaboração e reflexão do percurso de vida, embora úteis e susceptíveis de mudar a vida de uma pessoa, são isso mesmo – uma reflexão.
    Se todo o complexo programa fosse levado a sério nas suas várias vertentes, contribuía de facto para a formação de uma consciência de si e social absolutamente necessária. A existirem os meios e a vontade, algumas dessas áreas deviam ser imediatamente generalizadas a todo o ensino secundário. Não existe gente para executar estes programas e nada foi feito para implementar um conceito deste tipo no ensino. Esse é um trabalho a prazo. Espero que se faça.
    Como está, e nesta realidade, aquele documento e objectivos declarados, são uma utopia. Mas uma daquelas que se sabe à partida que não conduz a lado nenhum. É urgente saber quantas pessoas não são aprovadas nas NO e porque não há uma prova de aferição prévia, por exemplo ao estilo das que fazem as escolas de línguas, para determinar o nível do aluno. É por isso que as empresas não vão confiar nestes diplomas.
    Alguém me sabe dizer o que aconteceu ao ensino nocturno secundário e universitário? Acho que esta pergunta explica a minha posição. É a solução light. Já tinhamos feito o mesmo com o ensino técnico de qualidade de que dispunhamos.

    Obrigado pelo teu contributo. Esta questão das NO é mais importante do que parece. Esse capital de esperança e de vontade que as pessoas põem nas Novas Oportunidades, merece mais respeito.

  3. ondina ranhola 20/05/2009 às 13:09 #

    Olá. Quero acrescentar o seguinte:
    Nem sempre as entidades patronais fazem uma avaliação consciente. Se és velho, não serves, se és muito novo, és um inconsciente, se tens muitas qualificações és caro, se tens poucas, és um totó. É assim que acontece muitas vezes. Tenho uma colega de 25 que foi a uma entrevista e lhe perguntaram se não achava que já era muito velha para aprender outras tarefas?!?! Há de tudo, bem sei. Voltando às NO, o que me levou e levou as pessoas por exemplo do meu grupo, que não são “jovenzinhos” a fazer este processo, é exactamente a idade que não pára, sentirem necessidade de ter mais algumas habilitações, e acharem que podem ter algo a que se podem agarrar se um dia “lhes tirarem o tapete”. Pode ser ilusório, concordo inteiramente, mas é o que se passa. O sentimento é esse. Vai demorar até que dêem crédito à validação pelas NO. As pessoas que estão inscritas e das que vejo, mesmo de outras turmas, não são jovens, são pais de filhos, com uma vida preenchida, que lhes custa ir lá, que custa ter quase toda a semana de formação extra e que não têm o tempo, a paciência, a cabeça fresca que é suposto um jovem ter. Quanto a provas de aferição tal como ela é, não nos foram feitas, mas todos são sujeitos a uma avaliação mesmo a nível das línguas. No dia em que foi a 1ª sessão de esclarecimento, 3 jovens que tinham 2 ou 3 disciplinas para acabar foram aconselhados a terminá-las pela via normal. O que temos ouvido, é que desde o inicio a forma de avaliar um candidato vai sendo, (não vou dizer melhorada sem ter provas, mas presume-se que com a evolução isso aconteça), mas vai sendo alterada, pois dizem que para os centros também era um processo novo e acredito que tivessem andado “aos papéis”. Reconheço, que se chegar a fase de ir a júri, que é outra personagem no meio desta historia e se for certificada, espremo este ano e pouco aprendi. Apenas valido o que aprendi. Mas estaria eu disposta a que fosse diferente? Estaria disposta a ir para a as aulas quando penso que tenho tarefas básicas para fazer em casa? quando já saio do emprego cansada, etc? Todos nós, não estamos lá por obrigação, por isso se alguém acha que é uma perda de tempo e que quer efectivamente estudar, ESTUDAR, aí deve abandonar este processo. Já nos disseram isso. Só cá está quem quer e ninguém disse que ia ser fácil.
    Falamos de pessoas com percursos de vida muito ricos. No meu grupo há pelo menos três pessoas que já passaram os 50 anos e que fico deliciada com as experiências profissionais deles, só que não têm o 12º ano. Isso para eles, até à data não “fez falta”, e de pouco servirá, mas foi por faltar lá no curriculum o “12º”, e nalguns casos pelo desafio. Porque se pegarmos num jovem que termine o 12ºano, e o formos compar com uma pessoa daquelas, fica muito atrás. E o jovem tem culpa de ser jovem? de ainda não ter experiências?…São questões muito delicadas, isto é um processo delicado. Nós sabemos, que eles têm metas estabelecidas e que devem ser cumpridas. Vamos ter um país cheio de diplomados! Passa-se a ideia que só é, se me permitem, ignorante e analfabeto quem quer, e isso também é errado.
    Quanto à aprovação, tanto quanto nos é dado a entender, se existirem núcleos sobre os quais devemos desenvolver trabalhos, e não se enquadrarem na nossa história de vida, terá de ser feita formação para o efeito e a bem ou mal, essa pessoa terá de ser certificada. Demorará mais tempo, mas conseguirá.
    Como já disse, este processo só estaria completo com umas “aulinhas” técnicas de áreas à escolha. Ainda há muitas escolas a fazer formação oral e prática e estes centros deveriam ter efectivamente essa vertente. Creio que ainda há um longo caminho a percorrer. Há muito a melhorar e as diferentes entidades deveriam trabalhar em conjunto para que se melhorasse também o ensino dito normal, para que aí sim se evitasse o desinteresse de muitos alunos, que foi o que me aconteceu, para ter que acabar num CNO e a dar opiniões sobre isso…:) . Como diria um amigo meu cabeludo e barbudo “um grande Bem-Haja”! Quando chegar ao final do meu percurso nas NO, volto cá. Zero: Continua com o Bom trabalho!

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