Manual do Aplicador

17 Maio

Em “A rapariga de Monday”, Hal Hartley constrói a ficção de um mundo governado por uma agência de publicidade, numa ditadura de consumo. Os opositores, quando detidos, são condenados à função de … professores e limitam-se a vigiar alunos ligados a computadores. Quando vi o filme, achei que a prazo isso iria ser o quotidiano. Tenho dito a muitos amigos professores que o objectivo é dispensar a existência do professor como mediador. As pessoas não me levam a sério.
Li, no Público de hoje, as instruções do ME para as provas do 1º e 2º ciclo do ensino básico, de que anexo o pdf. Ocorreu-me a semelhança com os manuais de bricolage distribuídos gratuítamente nas grandes superfícies mas não havia comparação possível. Os manuais de bricolage incentivam a procura de soluções que revelem um toque pessoal na aplicação, na escolha das tintas, dos materiais, etc,.

“Não procure decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhe são apresentadas ao longo deste manual”.

Manual do Aplicador pdf

Assim sendo, porque não recorrer a uma empresa de segurança privada para alimentar mais um negócio de um amigo de partido, aos funcionários auxilares das escolas ou, porque não, a um sistema de transmissão vídeo em simultâneo, complementado pelas indispensáveis câmaras de vigilância?

Alguém aceita isto na sua profissão? Se este estado de coisas não define um regime autoritário, o que é preciso que aconteça para as pessoas se indignarem? A prepotência e o desprezo pelos cidadãos, espalha-se assustadoramente. Parafraseando o manual, “uma coisa que tenho para lhe dizer” Sra. Ministra é que ou anda muito mal assessorada ou o seu tempo não é este.

Mais um mandato e teremos o manual do inquisidor. Ou será ainda neste?

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7 Respostas to “Manual do Aplicador”

  1. Professora 17/05/2009 às 22:58 #

    Educação: Manual de aplicação das provas de aferição é “muito útil” aos professores – Ministra
    17 de Maio de 2009, 19:07

    Lisboa, 17 Mai (Lusa) – A ministra da Educação defendeu hoje que o “manual de aplicação” destinado aos professores durante a realização das provas de aferição “é muito útil” e “absolutamente necessário” aos docentes para assegurar igualdade em todas as turmas.

    “O manual de aplicação é isso mesmo. É um manual técnico feito pelos serviços, sempre fez e sempre assim foi. É muito útil. Evidentemente que é absolutamente necessário [aos docentes] para criar situações de igualdade em todas as turmas que fazem as provas ao mesmo tempo”, afirmou Maria de Lurdes Rodrigues.

    Questionada pela Agência Lusa à margem de uma cerimónia de entrega de certificados de habilitações a alunos no âmbito do programa “Novas Oportunidades, em Lisboa, a ministra frisou que o manual, que dá indicações muito específicas, incluindo as frases que os professores devem dizer a cada momento da prova, “é um guia de apoio aos professores” e disse que “já o ano passado houve uma tentativa de fazer um número à volta disso”.

    Eis a resposta.
    Tem sido assim este mandato. Ditadura com muitas flores à mistura.
    E estranhamente (ou não) tem resultado!?

    P.S. Eu sei que é deformação profissional (e por isso, peço desculpa), mas não resisto a perguntar se é possível corrigir a palavra “assessorada”.

  2. Lupe Ludonato 19/05/2009 às 11:46 #

    As provas para contratação para trabalhar União Europeia são organizadas nestes moldes… Também aí as pessoas que administram as provas seguem regras totalmente uniformizadas (sim, incluindo as frases que dizem…)…
    Um “modus operandi” tão limitativo e até aparentemente autoritário torna-se no único modo de assegurar condições iguais a todos em processos de avaliação quando há provas idênticas a decorrer em diversos locais em simultâneo. É também o unico modo de dificultar fraudes – o início e final da prova têm de ser o mais simultâneo possível em todos os locais, impedindo que alguém tenha obtido a prova num local e consiga depois comunicar com alguém que a esteja a executar.
    Compreendendo que o “tom” do documento pareça excessivo mas creio que não devemos ver “fantasmas” onde eles não existem… E creio que há, mais uma vez, aproveitamento, para tentar descredibilizar a ministra…

  3. um zero a esquerda 19/05/2009 às 22:19 #

    Sem descartar a necessidade de rigor (e como ele falta no ensino…) o critério da União Europeia não chega para validar isto. Como não chega em muitas outras áreas. As provas podem e devem começar e terminar a horas e serem realizadas em simultâneo. Não estou a ver um miúdo de 9 anos a enviar um mail ou uma foto do teste para os Açores mas não me custa imaginar um aluno do secundário a fazê-lo.
    Não há relação entre isto e o papel do professor como aplicador. O título do manual dispensa comentários. A ministra Maria de Lurdes Rodrigues tem apenas uma ideia para o ensino – meter os professores na ordem, mostrar quem manda. Abriu uma guerra inútil com consequências nefastas no funcionamento das escolas, na autoridade do professores e, à semelhança dos colegas de governo, não tem uma visão de longo prazo. A equipa deste ministério é francamente má. Produz consecutivamente textos que denunciam uma formação confrangeradora dos autores. A directora da Dren com a sua veia poética e português miserável é a ilustração quotidiana do que afirmo. É uma equipa e uma ministra que dispensam os meus esforços para os descredibilizar. Fazem-no sózinhos.

  4. Professora/Aplicadora 22/05/2009 às 0:01 #

    Lupe Ludonato (# 3)

    “Compreendendo que o “tom” do documento pareça excessivo mas creio que não devemos ver “fantasmas” onde eles não existem… E creio que há, mais uma vez, aproveitamento, para tentar descredibilizar a ministra…”

    O “tom” pode ser mesmo importante e fazer toda a diferença. Eu diria que é uma condição necessária, mas não suficiente.
    E este “tom” tem sido uma constante desta ministra e deste ministério da educação.
    As diferenças tornam-se mais evidentes quando comparamos a sua postura e o seu discurso (” Perdi os professores, mas ganhei a população”) com este aqui



    Mas, se olharmos bem para este vídeo, não é apenas o tom.
    É tudo tão diferente…

    Quanto ao manual do aplicador propriamente dito, não posso deixar de registar uma “evolução” (será por estarmos próximos de eleições?).

    Do manual de 2008 constava a seguinte instrução a ser lida aos alunos de 9 e/ou 11 anos:
    “Uma outra coisa que eu tenho de vos dizer é que esta prova é muito importante. As informações que forem obtidas vão permitir melhorar o trabalho dos professores. Por isso, é muito importante que dêem o melhor, respondendo com atenção a todas as questões.”

    Do manual do aplicador de 2009 evaporou-se a frase “As informações que forem obtidas vão permitir melhorar o trabalho dos professores”.
    A instrução passou a ser ” Uma outra coisa que eu tenho para vos dizer é que esta prova é muito importante, por isso devem responder com muita atenção a todas as questões.”

    A ler em voz alta, sem procurar decorar ou interpretar.
    Eu, por mim garanto que não espirrei, nem tossi…

    P. Scriptum – Espero ter conseguido colocar o link .

  5. Professora 24/05/2009 às 19:02 #

    A ler, ainda sobre este assunto e não só.

    http://educar.files.wordpress.com/2009/05/abarreto24mai09.jpg

    • Um zero à esquerda 24/05/2009 às 19:21 #

      Esse artigo tem peso. Suporta-se na atitude séria de António Barreto em matéria de ensino. Obrigado pelo link.

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