A estúpida economia

14 Maio

Estudos recentes, mostram que a maioria dos jovens encaram, no ocidente, o compromisso que consiste no casamento, na habitação própria ou na paternidade, não como um objectivo a alcançar, mas como um perigo a evitar.
Esta visão das coisas reflecte-se no facto de, actualmente, os filhos ficarem em (ou regressarem a) casa dos pais, após as licenciaturas ou se alguma experiência de emprego correr menos bem ou for, como quase sempre é, mal remunerada.
Se por um lado esta situação traduz um “modus vivendi” confortável entre pais e filhos que não era verificável apenas há uma geração atrás, por outro espelha as condições de incerteza da vida actual e é muito grave em termos futuros.
A taxa de natalidade é inferior à da renovação geracional, os jovens não têm qualquer cenário de estabilidade financeira a prazo e os pais vivem os anos mais interessantes das suas vidas a dar o suporte necessário às vidas dos filhos.
A questão não está tanto no papel dos pais na vida dos filhos. Está sobretudo na satisfação pessoal, no sentido da vida dos jovens e nas perspectivas a prazo que se lhes oferecem. Acabada uma licenciatura, e porque a inserção na vida profissional é praticamente impossível, segue-se um mestrado que equivale, após Bolonha, ao anterior grau académico da licenciatura mas com o ónus financeiro transferido do estado para as famílias. Ao mestrado, segue-se um doutoramento, e o facto de termos doutorados sem qualquer contacto com a vida profissional não parece preocupar ninguém. É o estado das coisas e aquilo que parece concentrar a nossa preocupação é manter os jovens ocupados ou, para usar a expressão corrente, “felizes”.
E olha-se à volta e fala-se e parece cada vez mais evidente que, mesmo num cenário relativamente tranquilo e até hedonista de classe média, as pessoas (não apenas os jovens) experimentam momentos de prazer de cada vez mais curta duração e fundamentalmente vazios de significado, traduzidos naquela sensação de nunca se estar bem onde se está, em ansiedade crescente, em alheamento, em desinteresse, em desilusão e falta de motivação e sobretudo de propósito.
É apenas uma espécie de “spleen” que paira sobre a sociedade e habituamo-nos a viver com ele, tristemente rendidos à falta de soluções ou perspectiva.
Isto não nos preocupa demasiado, mas devia. Há 10 anos, a solução de tudo estava na “economia, estúpidos”. Agora parece ser a estúpida economia e a sua lógica intrínsseca de precaridade e curto prazo, o problema. Entretanto, em todo o ocidente, o dinheiro dos contribuintes, desagua nas instituições que, usando a lógica vigente, foram alegremente conduzidas à falência. Alguém consegue imaginar o impacto que o mesmo dinheiro teria se injectado na economia real? Pior, alguém nos pode explicar porque vemos tanto dinheiro ser aplicado num sistema financeiro corrupto de alto a baixo, embora tão recentemente tenham sido pedidos grandes sacrifícios em nome do controlo orçamental que entretanto deixou de ser uma meta razoável?

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