“Encontro silencioso de dois picos de montanha”

17 Nov

Podemos estar parados ou em movimento, que o essencial não é aquilo que temos à nossa frente, o que vemos, ouvimos, queremos, tocamos, dominamos. Isso é o que está aí, como horizonte, um semicírculo; mas as extremidades desse semicírculo são ligadas por uma corda, e o plano dessa corda atravessa o mundo. À frente, o rosto e as mãos olham a partir dela, as sensações e aspirações passam diante dela, e ninguém duvida de que aquilo que se faz nesse espaço é razoável, ou pelo menos possuído de paixão.

Ou seja, as circunstâncias exteriores pedem-nos para agir de uma maneira que qualquer um pode compreender; e quando nós, enredados nas paixões, fazemos coisas incompreensíveis, também isso está, à sua maneira, certo. Mas por mais perfeito, compreensível e acabado que tudo pareça ser, é sempre acompanhado pelo sentimento obscuro de se tratar apenas de uma metade. Falta qualquer coisa nesse equilíbrio, e o homem avança para não vacilar, como na corda-bamba. E ao avançar na vida e deixar atrás de si o que viveu, o que está por viver e o já vivido formam uma parede, e o seu caminho assemelha-se então ao do caruncho na madeira, que pode furar ou recuar, mas deixa sempre um espaço vazio atrás de si. E é nesta terrível sensação de um espaço cego e amputado atrás de todo o espaço cheio, nesta metade sempre em falta mesmo quando tudo é já uma totalidade, que podemos entrever aquilo a que se chama alma.

Robert Musil in O Homem sem Qualidades

Walking the Dog

14 Nov

Oskar De Rycker, estudante do De Erasmushogeschool de Bruxelas. Um cão decidido, merece um dono à altura!

Liberdade artística

14 Nov

Não acredito na liberdade total do artista. Deixem-no sózinho, livre de fazer o que quiser, ele começará a não fazer absolutamente nada. Se há coisa perigosa para um artista, é precisamente essa história da liberdade total de estar à espera da inspiração e por aí fora. Toda essa retórica romântica. A produção de “8 1/2” foi uma grande lição. Durante dois meses, estive a trabalhar no argumento com o Flaiano e o Pinelli, mas não chegava a um resultado convincente porque eu não conseguia decidir quem havia de pôr no papel do protagonista – um dia era um escritor, noutro um jornalista, um advogado… Acabei por decidir recomeçar tudo. O meu produtor, o Angelo Rizzoli, deu-me o controlo total da produção, fiando-se no meu sucesso anterior com La Dolce Vita. Pedi para me fazerem um quinta, desenhei os personagens, telefonei a toda a gente, mas ainda não era capaz de me decidir. Sentia-me enlouquecer, estava prestes a abandonar o projecto. Mas mandei começar. Era o momento, porque alguém ou alguma coisa interviria para me forçar, para me obrigar a fazer aquele filme. O simples facto de não ser capaz de dizer à minha leal equipa que ia abandonar um filme do qual não sabia fosse o que fosse acabou por fornecer o assunto: um realizador que não sabe que filme quer fazer

Federico Felini in Sou um grande mentiroso (2001)

Pedi que me liquidassem as contas e saí

12 Nov

– E em quem é que o senhor confia? – perguntou-lhe Morini.
– Nas pessoas que comem quando têm fome, suponho – disse o desconhecido.
Depois começou a explicar-lhe que, em tempo, tivera um trabalho numa empresa que se dedicava a fabricar canecas, só canecas, das normais e daquelas que têm um slogan escrito ou uma frase ou brincadeira, como por exemplo: Ah, ah, ah, está na hora do meu cofee-break, ou O papá gosta da mamã, ou A última do dia ou da vida, umas canecas com legendas insípidas, e que um dia, certamente devido à procura, mudou radicalmente as frases das canecas e além disso começou a incluir desenhos junto às frases, desenhos por colorir a princípio, mas depois graças ao êxito desta iniciativa, desenhos coloridos, de índole espirituosa, mas também de índole erótica.
– Até me aumentaram o salário – disse o desconhecido. – Essas canecas existem em Itália? indagou depois.
– Sim, respondeu Morini -, algumas com legendas em inglês e outras com legendas em italiano.
– Bom, corria tudo sobre rodas – prossegui o desconhecido. – Nós trabalhavamos com mais gosto. Os encarregados também trabalhavam com mais gosto e o chefe via-se que andava feliz. Mas ao fim de uns dois meses de estar a produzir essas canecas, apercebi-me de que a minha felicidade era artificial. Sentia-me feliz porque via os outros felizes e porque sabia que tinha de me sentir feliz, mas na realidade não estava feliz. Pelo contrário: sentia-me mais infeliz do que antes de me aumentarem o salário. Pensei que estava a passar uma época má e tentei não pensar nisso, mas ao fim de três meses já não consegui continuar a fingir que nada acontecia. O meu humor azedou-se, tornei-me mais violento do que antes, qualquer coisinha me aborrecia, comecei a beber. Então, enfrentei o problema cara a cara e finalmente cheguei à conclusão de que não gostava de fabricar aquele determinado tipo de canecas. Garanto-lhe que à noite sofria que eu sei lá. Achava que estava a ficar louco e que não sabia o que fazia nem o que pensava. Ainda tenho medo de alguns pensamentos daquele tempo. Um dia enfrentei um dos encarregados. Disse-lhe que estava farto de fabricar aquelas canecas idiotas. O tipo era boa pessoa, chamava-se Andy, tentava sempre dialogar com os trabalhadores. Perguntou-me se eu preferia fazer as canecas que fazíamos antes. É isso mesmo, disse-lhe eu. Estás a falar a sério, Dick? disse-me ele. Muito a sério, respondi-lhe. As canecas novas dão-te mais trabalho? De modo algum, disse-lhe, o trabalho é o mesmo, mas antes as malditas canecas não me magoavam como agora me magoam. O que é que estás a querer dizer?, perguntou Andy. Que antes as filhas da puta das canecas não me magoavam e agora estão a destroçar-me por dentro. E que raio as torna tão diferentes, tirando que agora são mais modernas?, disse Andy. Precisamente isso, respondi-lhe, antes as canecas não eram tão modernas e embora a sua intenção fosse magoarem-me não conseguiam fazê-lo, não sentia as suas alfinetadas, em contrapartida agora, as putas das canecas parecem samurais armados com aquelas espadas fodidas de samurai e estão a pôr-me maluco. Enfim, foi uma longa conversa – concluiu o desconhecido. – O encarregado ouviu-me, mas não entendeu uma única palavra. No dia seguinte, pedi que me liquidassem as contas e saí da empresa. Nunca mais voltei a trabalhar. O que é que acha?

Roberto Bolaño in 2666, um grande livro com uma capa para esquecer.

Great Ideas III: Phil Baines + David Pearson

11 Nov


Os meus tesouros da 4091979365_364aa0f94b_o

De comer e chorar por mais

11 Nov

Precisará David Pearson de ser apresentado?
Mesmo que não reconheça o nome, possívelmente reconhecerá alguns dos trabalhos da Penguin em colaboração com Phil Baines.
Quando os livros da colecção “Great Ideas” chegaram às bancas, não se assemelhavam com nada que existisse. Cada capa era única e harmonizava-se perfeitamente com a série. Usando capas finas, uma palete de cores restrita, lançavam um sorriso ao passado da Penguin, mas respeitavam profundamente o espírito dos livros e do tempo em que foram editados pela primeira vez. Estes livros estiveram à venda por algum tempo na Fnac, mas desapareceram e não foram repostos.
David Pearson, embora tenha a sua empresa, continua a colaborar com a Penguin e faz ainda capas para as Éditions Zulma e, por vezes, para a White’s Books. Além de continuar a dar-nos um enorme prazer.

Consumo de tinta e muito mais

10 Nov

Matt Robinson e Tom Wrigglesworth, dois estudantes graduados por Kingston, venceram o prémio “Best New Blood” com um vídeo para a HP. Realizaram ainda um curioso teste de escrita de fontes para determinar as mais efectivas em termos de consumo de tinta.

O gráfico, que aqui se reproduz com a autorização dos autores, além de extraordinariamente original, revela algumas conclusões inesperadas.

Os sites de Matt e Tom, expõem em detalhe o processo e mostram outros trabalhos criativos e poéticos, como o Kiteography de Tom Wrigglesworth.

Os muros da vergonha

9 Nov

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O muro de Berlim separou, durante 28 anos, dois lados da Alemanha e representou a brutalidade como meio político. 20 anos decorridos sobre a sua queda continuam por derrubar e, nalguns casos, a ser construídos muros que um dia terão forçosamente de cair. A lógica dos muros tornou-se corrente e a celebração da queda deste parece não passar de um acto folclórico sem consequências.

O muro da Coreia marca a fronteira entre o norte e o sul e é mais um caso de separação desumana de um povo e das famílias que o constituem.
Diferentes, mas igualmente significativos como recurso político, são os muros que visam bloquear o acesso das pessoas que fogem dos seus países em busca de uma vida melhor:
– O muro de Ceuta financiado pela União Europeia, separa Marrocos de Espanha e visa impedir a imigração ilegal. Recentemente houve uma tentativa de êxodo em massa através deste muro, violentamente reprimida.
– O muro que separa os EUA do México ao longo de cerca de 1000 Kms, e o muro que separa Israel da Cisjordânia, mostram que se persiste em não intervir nas causas, fazendo as pontes que deitariam os muros abaixo.

Ou há poucas razões para celebrar ou vivemos na irrealidade total, uma vez que celebramos o fim daquilo que continuamos a erguer por todo o lado.

Pois é…

8 Nov

Se designo o homem como “valor de troca”, a expressão implica já que as condições sociais o transformaram em “coisa”. Se o trato como “força produtiva”, coloco no lugar do sujeito real um outro sujeito, substituo o homem por um outro agente, e a partir daí o homem já só existe como causa da riqueza. A sociedade humana, toda ela, passa a ser uma máquina destinada a criar riqueza. A causa não é de modo algum superior ao efeito. O efeito passa a ser apenas a causa abertamente manifestada.

Crítica do Nacionalismo Económico de Karl Marx

Le coeur est un métronome

7 Nov

Então não é?

Esta NÃO É mais uma notícia

6 Nov

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Um major-médico norte-americano de 39 anos, terá aberto fogo e morto 12 pessoas e ferido outras 30, no perímetro da maior base militar norte-americana, Fort Hood no Texas, depois de receber a notificação da sua mobilização para o Iraque. Este acto desesperado, uma espécie de acção terrorista mobilizada a partir de dentro do exército dos EUA, é um sinal inequívoco.

Que espécie de mundo é este no qual a única escolha disponível parece ser a passagem cega ao acto? Que liberdade de escolha é esta em que as opções são obedecer às regras ou recorrer a uma violência auto-destrutiva e sem saída ou objectivo senão o de assinalar que existe um problema e não pode continuar a ser ignorado? Donde vem e porque ocorre esta violência, no coração do aparelho militar americano?

A administração americana sabe, provavelmente, tudo sobre o mal-estar existente e sobre o problema que estava a germinar, mas não acreditou que isto pudesse acontecer. Há muito tempo que grande parte da operação americana no Iraque é assegurada por empresas de segurança privada, uma espécie de mercenários que operam à margem das estruturas regulares e mantêm os custos declarados em vidas e bens materiais, fora do escrutínio da opinião pública. A declaração de Obama, que classificou o incidente como “uma terrível explosão de violência” e acrescentou ser “terrível quando perdemos soldados no estrangeiro, mas é aterrorizador quando isso acontece em casa”, dá conta dessa tomada de consciência.

Um caso como este, em que o meio é a mensagem e a função é do domínio meta-linguístico, constitui uma espécie de “estão a ouvir-me?” que se destina a verificar se o canal está a funcionar. A pulsão de morte que este acto implica ao passar pela auto-sabotagem, opõe-se tanto ao princípio do prazer como ao da realidade e fá-lo na mesma lógica do terrorismo suicida, mas desta vez no seio da instituição que interpreta e veicula no terreno as decisões da administração.

Se esta notícia não for tratada como mais um “fait-diver” ou como nota de rodapé, é impossível não tirar conclusões sobre a que género de violência nos expõe a nossa própria violência sobre os outros. É aqui que reside a eloquência do major Hassan, para quem o quiser ouvir. Um espaço “privado de mundo” só pode desembocar numa violência sem sentido.

Good Vibrations

5 Nov

Temos a liberdade de tudo ver e também a de escapar a nos ligarmos ou responsabilizarmos por algo. A consequência de viver assim, recorrendo a uma expressão da contabilidade, é uma espécie de “lucro cessante”, através do qual perdemos por deixar de fazer algo (por exemplo, ter um andar para alugar e não o alugar). Viver como espectador tem essa consequência. A perda está precisamente no que podíamos ter feito e não fizemos, porque tudo serve para nos entreter mas sem nos implicar.

Este trabalho de Jérémy Clapin, realizado para o Responsibility Project, uma comunidade on-line que troca experiências e divulga material diverso,encorajando a responsabilidade para com os outros, ilustra-o com humor e realismo.

Une histoire vertebrale

5 Nov

Na boa tradição clássica, Jérémy Clapin, que passou também pelo Central Saint Martins, é tocante sem deixar de revelar um humor saboroso.

Moer apenas

4 Nov

Na verdade, sou apenas um moínho e não um gigante. Aqui estou eu, onde devo estar, afastado da aldeia, sózinho numa duna, e não me aproximo de ninguém, não ajudo ninguém, nem deixo que me ajudem. Quando preciso de ocupar as minhas mós, moo qualquer coisa, seja com que vento for. Todos os trinta e dois ventos são meus amigos. De toda a amplidão da atmosfera não exijo absolutamente mais nada que o necessário à rotação das minhas velas. Peço unicamente que lhes permitam esse movimento. Os mosquitos podem voar por entre elas, mas que os descarados não venham a cada momento perseguir-se por baixo delas, menos ainda deverá tentar travá-las uma mão que não seja mais forte do que o vento que me impulsiona. Se o volteio das minhas velas lançar alguém pelos ares, será por sua própria culpa, e eu também não poderei amortecer a violência da sua queda.

Gotthold Ephraim Lessing (1729 -1781)

“Odeio as viagens e os exploradores”

4 Nov

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Claude Lévi-Strauss, que agora faleceu com 100 anos, constitui um bom exemplo de que cada vez mais se celebra nomes e etiquetas, em detrimento do pensamento que está por trás deles. Sarkozy, um dos novos modelos de primeiro-ministro que circulam por essa europa fora, deslocou-se ao seu apartamento para lhe soprar as velas do 100º aniversário e o ministro dos negócios estrangeiros, solícito, financiou seminários com o seu nome em locais tão distantes como a Islândia ou a Índia. Lévi-Strauss foi um personagem complexo que se presta mal a apropriações seja de quem for, mas o despudor repete-se por todo o lado.

Surpreendentemente pouco empenhado durante a II Guerra Mundial, apesar da actividade anterior no movimento socialista francês, canalizou o seu entusiasmo para a antropologia. A humilhação da queda da França e a perseguição aos judeus durante o governo de Vichy, a que se somaram a desilusão com a filosofia e a arte, não terão sido alheias ao seu percurso posterior.

Em 1955 escreve “Tristes Trópicos”, um livro de antropologia cultural que é, ao mesmo tempo, tanto um livro de viagens quanto um itinerário iniciático, um registo autobiográfico e uma obra literária que se pode filiar em Montaigne e Rousseau, ou em Conrad, e marca uma viragem na sua carreira e no reconhecimento do seu trabalho. Neste ensaio, baseado nos dados recolhidos junto dos Ameríndios cuja complexidade o deliciava, fornece exemplos como o do mito sobre as origens do porco-selvagem que se relaciona quer com as regras do casamento, quer com um outro mito acerca dos benefícios de cozinhar os alimentos, procurando estabelecer o mito como a palavra estruturante que sobrevive ao tempo e assegura a continuidade do grupo e da espécie.

Do seu ponto de vista, o pensamento humano seria governado pela capacidade de estruturação do cérebro humano, mas não poderia explicar-se por ela e, a esta luz, os mitos seriam registos da verdadeira história dos principais esforços filosóficos da humanidade. Esta tese é fácil de compreender à luz das lendas heróicas e dos contos gauleses transcritos no séc. XIV a partir da tradição oral e vertidos no Mabinogion e até, para bater de novo num tema recente, no Velho Testamento.

O seu olhar “etnográfico” conduziu ao rompimento definitivo com a esquerda radical no Maio de 68, no decorrer do qual, chocado com o corte de árvores para se fazerem barricadas, com as universidades transformadas em lixeiras, com o trabalho intelectual paralisado, manifesta o seu juízo de valor sobre os acontecimentos, na frase “uma vez passado o primeiro momento de curiosidade e cansado de brincadeiras, o Maio de 68, repugnou-me”.

A par do humor incómodo expresso no cabeçalho deste post, a sua aura de ecologista granjeada na afirmação da necessidade de respeito pelos equilíbrios existentes, a sua atitude céptica perante a arte e o papel individual do artista, o seu confronto filosófico com intelectuais como Sartre, são marcas de um pensamento que mudou algo na nossa forma de vêr o terceiro-mundo, a natureza, a linguagem e o papel e importância da antropologia. Devo-lhe a minha primeira opção académica e o decorrente fascínio pela antropologia.

As ideias ou a informação?

3 Nov

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Hard Times por Matt Mason e grafismo brilhante de Nicholas Felton, da mainlogo

Pobreza no Porto – Solidão e velhice (VI)

3 Nov

A gente começa a pensar na vida antiga. Depois lembra-se e começa a dizer assim – quem eu era e quem eu sou. Eu não sou ninguém.

Lobos

2 Nov

Nada melhor para contrastar comigo, que escrevo demais, que o suiço Rafael Sommerhalder que é a economia personificada. No seu trabalho suave, criativo e divertido, menos é realmente mais. Uma produção do Royal College of Art, London.

Vêr também Vasos de Flores.

Pobreza no Porto – Coser os números (V)

2 Nov

Não vos conformeis com este mundo.

Epístola de S. Paulo aos Romanos

Estamos todos submetidos ao enigma __________ como distinguir o jardim devastado em que nos encontramos do perfil da esperança (…)
À minha volta, ouço constantemente falar do mundo, de que vai mal, de que deve ser revolucionado, de que pode ser melhor, sem que eu saiba onde nele se possa colocar esse diferente, por não ser – não conseguir imaginar-, a forma do mundo.

Maria Gabriela Llansol

Violência, mas em segunda mão no CSI

1 Nov

Para além da questão da banalização já referida no post Para além do mal, a sequência de abertura do CSI 10 “Bullet Time” que passará a distribuir violência brutal como entretenimento a cada emissão da série, custou 400.000 dólares para 120 segundos, tornando-se uma das sequências mais caras de sempre, num plágio absolutamente colado ao extraordinário mas problemático filme “The Carousel” de Adam Berg, citado no mesmo post deste blog.

Esta dose de exposição à estetização do mal, terá forçosamente consequências, mas ninguém parece ter reparado nisso e, como era de esperar, vai passar a bombardear-nos entre dois dedos de conversa, tornando inócua toda a violência real, anestesiando a sensibilidade à morte e a qualquer tipo de imagem.

Copiar nem sempre é barato, mas raramente é melhor, como se pode ver no deplorável despudor da produção do CSI. É curioso como passa incólume um genérico destes, num país em que se censuram cenas por atentado ao pudor e como basta a chancela “CSI” para isto passar a fazer parte do nosso quotidiano. Se alguém elaborasse um programa de educação para a violência, dificilmente conseguiria fazer melhor.