Temos a liberdade de tudo ver e também a de escapar a nos ligarmos ou responsabilizarmos por algo. A consequência de viver assim, recorrendo a uma expressão da contabilidade, é uma espécie de “lucro cessante”, através do qual perdemos por deixar de fazer algo (por exemplo, ter um andar para alugar e não o alugar). Viver como espectador tem essa consequência. A perda está precisamente no que podíamos ter feito e não fizemos, porque tudo serve para nos entreter mas sem nos implicar.

Este trabalho de Jérémy Clapin, realizado para o Responsibility Project, uma comunidade on-line que troca experiências e divulga material diverso,encorajando a responsabilidade para com os outros, ilustra-o com humor e realismo.


Na boa tradição clássica, Jérémy Clapin, que passou também pelo Central Saint Martins, é tocante sem deixar de revelar um humor saboroso.


Moer apenas

04Nov09

Na verdade, sou apenas um moínho e não um gigante. Aqui estou eu, onde devo estar, afastado da aldeia, sózinho numa duna, e não me aproximo de ninguém, não ajudo ninguém, nem deixo que me ajudem. Quando preciso de ocupar as minhas mós, moo qualquer coisa, seja com que vento for. Todos os trinta e dois ventos são meus amigos. De toda a amplidão da atmosfera não exijo absolutamente mais nada que o necessário à rotação das minhas velas. Peço unicamente que lhes permitam esse movimento. Os mosquitos podem voar por entre elas, mas que os descarados não venham a cada momento perseguir-se por baixo delas, menos ainda deverá tentar travá-las uma mão que não seja mais forte do que o vento que me impulsiona. Se o volteio das minhas velas lançar alguém pelos ares, será por sua própria culpa, e eu também não poderei amortecer a violência da sua queda.

Gotthold Ephraim Lessing (1729 -1781)


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Claude Lévi-Strauss, que agora faleceu com 100 anos, constitui um bom exemplo de que cada vez mais se celebra nomes e etiquetas, em detrimento do pensamento que está por trás deles. Sarkozy, um dos novos modelos de primeiro-ministro que circulam por essa europa fora, deslocou-se ao seu apartamento para lhe soprar as velas do 100º aniversário e o ministro dos negócios estrangeiros, solícito, financiou seminários com o seu nome em locais tão distantes como a Islândia ou a Índia. Lévi-Strauss foi um personagem complexo que se presta mal a apropriações seja de quem for, mas o despudor repete-se por todo o lado.

Surpreendentemente pouco empenhado durante a II Guerra Mundial, apesar da actividade anterior no movimento socialista francês, canalizou o seu entusiasmo para a antropologia. A humilhação da queda da França e a perseguição aos judeus durante o governo de Vichy, a que se somaram a desilusão com a filosofia e a arte, não terão sido alheias ao seu percurso posterior.

Em 1955 escreve “Tristes Trópicos”, um livro de antropologia cultural que é, ao mesmo tempo, tanto um livro de viagens quanto um itinerário iniciático, um registo autobiográfico e uma obra literária que se pode filiar em Montaigne e Rousseau, ou em Conrad, e marca uma viragem na sua carreira e no reconhecimento do seu trabalho. Neste ensaio, baseado nos dados recolhidos junto dos Ameríndios cuja complexidade o deliciava, fornece exemplos como o do mito sobre as origens do porco-selvagem que se relaciona quer com as regras do casamento, quer com um outro mito acerca dos benefícios de cozinhar os alimentos, procurando estabelecer o mito como a palavra estruturante que sobrevive ao tempo e assegura a continuidade do grupo e da espécie.

Do seu ponto de vista, o pensamento humano seria governado pela capacidade de estruturação do cérebro humano, mas não poderia explicar-se por ela e, a esta luz, os mitos seriam registos da verdadeira história dos principais esforços filosóficos da humanidade. Esta tese é fácil de compreender à luz das lendas heróicas e dos contos gauleses transcritos no séc. XIV a partir da tradição oral e vertidos no Mabinogion e até, para bater de novo num tema recente, no Velho Testamento.

O seu olhar “etnográfico” conduziu ao rompimento definitivo com a esquerda radical no Maio de 68, no decorrer do qual, chocado com o corte de árvores para se fazerem barricadas, com as universidades transformadas em lixeiras, com o trabalho intelectual paralisado, manifesta o seu juízo de valor sobre os acontecimentos, na frase “uma vez passado o primeiro momento de curiosidade e cansado de brincadeiras, o Maio de 68, repugnou-me”.

A par do humor incómodo expresso no cabeçalho deste post, a sua aura de ecologista granjeada na afirmação da necessidade de respeito pelos equilíbrios existentes, a sua atitude céptica perante a arte e o papel individual do artista, o seu confronto filosófico com intelectuais como Sartre, são marcas de um pensamento que mudou algo na nossa forma de vêr o terceiro-mundo, a natureza, a linguagem e o papel e importância da antropologia. Devo-lhe a minha primeira opção académica e o decorrente fascínio pela antropologia.


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Hard Times por Matt Mason e grafismo brilhante de Nicholas Felton, da mainlogo


A gente começa a pensar na vida antiga. Depois lembra-se e começa a dizer assim – quem eu era e quem eu sou. Eu não sou ninguém.


Lobos

02Nov09

Nada melhor para contrastar comigo, que escrevo demais, que o suiço Rafael Sommerhalder que é a economia personificada. No seu trabalho suave, criativo e divertido, menos é realmente mais. Uma produção do Royal College of Art, London.

Vêr também Vasos de Flores.


Não vos conformeis com este mundo.

Epístola de S. Paulo aos Romanos

Estamos todos submetidos ao enigma __________ como distinguir o jardim devastado em que nos encontramos do perfil da esperança (…)
À minha volta, ouço constantemente falar do mundo, de que vai mal, de que deve ser revolucionado, de que pode ser melhor, sem que eu saiba onde nele se possa colocar esse diferente, por não ser – não conseguir imaginar-, a forma do mundo.

Maria Gabriela Llansol




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